Não vote em branco

Votar em pretas e pretos é construir um projeto regenerador e democrático

Movimentos de luta por direitos humanos e contra o racismo, como a Coalizão Negra por Direitos e a Frente Povo Sem Medo, fazem ato na avenida Paulista, em São Paulo, pedindo justiça no caso de Moïse Mugenyi Kabagambe, assassinado no Rio de Janeiro - Foto: Mathilde Missioneiro - 5.fev.22/Folhapress

Há indícios de sobra de que o movimento negro é o principal vetor de transformação na sociedade brasileira. Garantir a presença de suas lideranças nas instâncias de poder é a tarefa histórica de nossa geração.

Aqueles que ambicionam viver numa sociedade pluralista, que dê vazão à sua diversidade, devem assumir plenamente a responsabilidade que têm diante de si neste domingo (2). Centenas de nomes disputam as Assembleias Legislativas e a Câmara dos Deputados, e os eleitores podem ficar perdidos diante de tal oferta.

A tendência é buscar um nome conhecido, o que favorece a reeleição de parlamentares com mandato ou figuras que sejam facilmente reconhecíveis. Uma vez que os espaços de visibilidade seguem sendo ocupados majoritariamente por homens brancos, há grande risco de reproduzirmos o mesmo padrão de baixa representatividade.

Para alguém branco como eu, votar numa pessoa branca é reproduzir o que Cida Bento chama de pacto narcísico da branquitude. É ser incapaz de ver beleza e potência no que não é espelho. É escolher, de novo, o ex-colega de escola, o amigo do amigo, o parente do vizinho. Votar em branco é rebaixar o horizonte de transformação e reproduzir o velho funcionamento da esquerda e seu conformismo com o que se entendeu por democracia no Brasil dos últimos 35 anos.

Não somos apenas o último país das Américas a abolir a escravidão. Somos também a sociedade que, desde então, implementou de maneira cruel e ardilosa um projeto supremacista que visa o extermínio real e simbólico da população negra. O racismo é o principal entrave para o desenvolvimento de nosso potencial enquanto sociedade. Seu combate deve ser entendido não como uma agenda identitária, mas sim como um projeto transversal e coletivo, que diz respeito a todos.

A resiliência do apoio a Jair Bolsonaro (PL), que ainda hoje conta com a simpatia de ao menos um terço dos eleitores, é indicativa de que o supremacismo branco segue mais vivo do que nunca —com a novidade de que está cada vez mais disposto a se afirmar sem disfarces.

À exceção da CPI da Covid, a resposta de nossos congressistas nos últimos quatro anos não esteve à altura do fenômeno. Não há exagero em dizer que a Coalizão Negra por Direitos, uma articulação nacional iniciada em 2018 e que reúne hoje mais de 250 organizações do movimento negro, foi quem protagonizou alguns dos episódios mais contundentes de oposição ao governo Bolsonaro.

Em junho passado, a coalizão lançou a plataforma www.quilombonosparlamentos.com.br, iniciativa que apresenta 120 candidaturas aos legislativos estaduais e federal, comprometidas com a agenda do movimento negro. Quem sonha com uma frente ampla progressista se sentirá contemplado: é a maior articulação partidária de esquerda de que se tem notícia no país em muito tempo. Há postulantes de oito partidos: PT, PSOL, PSB, PC do B, REDE, PDT, UP e PV.

No dia 2 de outubro, vote preto e vote preta. Não há maneira mais eficaz de construir um projeto político regenerador, que trabalhe por uma sociedade mais justa, democrática e sustentável.

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