Nou Led Nou La. Eu vejo você.

Esta é a base para o encontro histórico de mais de uma centena de feministas negras de todo o mundo, que acontecerá na Bahia, Brasil, em maio de 2016. Eu vejo você. Nou Led Nou La. Em um mundo no qual mulheres negras, pessoas trans*, intersexo e pessoas em não-conformidade de gênero são forçadas a afirmar o que deveria ser óbvio, a exigência de que nossas vidas importem. “Nós nos reconhecemos” é uma saudação ao nosso valor para além do que o capitalismo determina para o nosso trabalho; “nós nos reconhecemos” é uma afirmação de nossas experiências coletivas de sobrevivência, resistência e práticas libertárias; ‘nós nos reconhecemos’ é uma saudação à presença de nossos futuros fora dos sistemas sufocantes que nos oprimem.

Por  Hakima Abbas, do Fórum.awid

Ao longo da história, feministas negras têm se reunido através de nossos movimentos e de nossos diversos locais políticos, geográficos e espirituais. Nós temos sido o fio no tecido dos movimentos negros por libertação em todo o mundo, assim como o coração de movimentos radicais: anti-capitalistas, crip, em defesa das pessoas com deficiência, das pessoas trans*, queer, movimentos ecologistas, dentre outros. Nós produzimos, em nossa ação e em nossa teoria, conhecimentos que contribuem para o avançar tanto do pensamento como de práticas libertárias. Feministas negras como Ella Baker contribuíram com conceitos de democracia direta e liderança que golpeiam definições patriarcais e individualistas de um/a líder. A onda de liderança partilhada e movimentos autônomos por todo o mundo se fortalece com suas ideias e exemplos. Miriam Makeba e uma geração de artistas africanas usaram sua arte como megafone para protestar, muito antes da palavra ‘artivista’ entrar no léxico. Minha própria mãe e muitas outras feministas negras fazem pan-africanismo na prática e não na teoria, tanto em suas vidas diárias como nas formações para a libertação que conduzem. Awa Thiam trouxe para a pesquisa a intersetorialidade que June Jordan inscreveu com a ponta afiada de sua caneta, que March P Johnson incorporou com sua luta e que Thenjiwe Mtinsto carregou em seus braços contra o Apartheid. Essas feministas negras não fizeram nada disso sozinhas, elas fizeram em coletivos, construindo umas das outras e umas com as outras: Eu sou porque nós somos. Nós somos co-conspiradoras no sentido mais profundo.

Nós podemos ser de diferentes continentes, lutando em diferentes movimentos, falando diferentes línguas e navegando por diferentes contextos diariamente, mas podemos ver o reflexo de nós mesmas umas nas outras. Tais reflexos mobilizaram mulheres em Uganda a arrecadar e enviar dinheiro a mulheres no Haiti depois do furacão. Tais reflexos conectam as mulheres afro-colombianas que estão ocupando os espaços do governo para defender suas terras às mulheres do Kenya que criam barricadas com seus próprios corpos para defender suas florestas. Nesses reflexos, há mulheres do Zimbáwe bradando ‘Tirem as mãos de Assata!’ (‘Hands off Assata!‘) e mulheres da Filadélfia exigindo ‘Tragam nossas meninas de volta!’ (‘Bring Back Our Girls!‘). São esses reflexos que conectam #FeesMustFall(#TaxasPrecisamCair) com #BlackLivesMatter (#VidasNegrasImportam).

Feminismos negros tem tido uma relação complexa com o termo feminismo. Embora algumas tendências do pensamento feminista foram e continuam a ser dominadas por aquelas/es que nos apagam, as ações de resistência e construção fora das opressões patriarcais e de gênero têm sido, há muito tempo, parte das lutas pela liberação que as mulheres negras e as pessoas trans*, intersexo e em não-conformidade de gênero têm travado através do tempo e do espaço. Globalmente, feministas negras permanecem firmes no fato de que as cadeias do patriarcado não podem ser vencidas sem também romperem-se as correntes da supremacia branca, do capitalismo e de todas as formas de opressão. Referir-se a feminismos no plural e insistir no sufixo ‘negro’ centra nossas experiências globais e saberes como pessoas de ascendência africana.

Quando me juntei à AWID, dois anos atrás, a organização tinha começado a falar com suas/seus amigas/os, parceiras/os e aliadas/os sobre o Fórum AWID 2016. Os diálogos foram desenhados para sentir o pulso dos movimentos feministas, além de outros movimentos por justiça social, sobre onde, o que e como o Fórum AWID poderia fortalecer e contribuir para a co-criação de futuros feministas. Sou feliz por ter contribuído para as conversas que levaram ao conselho diretor da AWID a decidir que a Bahia, Brasil, seria o local do Fórum 2016.

O Brasil foi escolhido por muitas razões, incluindo o importante papel geopolítico global e regional que desempenha. É nos lances das mudanças internas significativas que se expõem as contradições de sua ascensão econômica, as desigualdades devastadoras, as tradições progressistas profundas e os fundamentalismos religiosos encorajados por movimentos políticos fascistas e de direita. Devido aos quatro séculos de escravização europeia de pessoas africanas, o Brasil tem a segunda maior população africana do mundo. Afro-brasileiras/os resistiram à escravidão com insurreição armada e com a criação de zonas autônomas e libertas chamadas quilombos. A resistência à escravidão e o compromisso resoluto com a liberdade infundiu o Brasil e, em particular, o estado da Bahia, com marcas africanas singulares, incluindo a pratica do Candomblé e a Capoeira. Esses legados de libertação continuam a inspirar, informar e guiar as/os afro-brasileiras/os em suas lutas contemporâneas contra assassinatos policiais, a brutalidade do Estado e a opressão econômica. Em meio a esse cenário complexo e tais dinâmicas históricas, escolher o estado da Bahia foi um reconhecimento intencional, assim como uma celebração da longa tradição das lutas negras e indígenas por justiça e libertação no Brasil. Dado esse contexto, bem como o tema do Fórum que tem origem na urgência do diálogo, da solidariedade e da co-criação entre e através dos movimentos, as/os membros e aliadas/os negras/os e do Comitê Internacional de Planejamento do Fórum expressaram a necessidade e o desejo de usar o espaço para convocar feministas negras, oferecendo-o para que nós dialoguemos através e com nossos movimentos.

O Fórum Feminismos Negros (FFN) é uma baraza para revelar nossas reflexões, para conhecer e aprender sobre as alternativas que cada uma de nós está criando, para construir conhecimentos e fortalecer nosso poder coletivo. O FFN é um espaço para a troca de estratégias e táticas, para celebrar as batalhas conquistadas, ao mesmo tempo em que meditamos sobre nossas perdas, para realizar o luto e as cerimônias por aquelas/es que perdemos e para dançar os ritmos de nossa resistência.

Em reconhecimento a esta importante oportunidade de construção de movimentos, a AWID atua como uma anfitriã para o Fórum Feminismos Negros, mas não o lidera. Um poderoso grupo multi-geracional, com pessoas de diversos movimentos e geograficamente diverso de feministas negras tem se reunido para criar estratégias e convocar o Fórum Feminismos Negros como um processo, mais do que um evento. O Fórum Feminismos Negros vai reunir feministas negras de todo o mundo, de 2 a 3 de maio de 2016. Enquanto isso, o movimento de construção do processo já começou: na semana passada, uma delegação do Fórum Feminismos Negros, composta por mulheres negras, participou da Marcha das Mulheres Negras em Brasília, por exemplo. No próximo mês de abril, uma delegação de mulheres negras do FFN participará do Fórum Feminista Africano convocadp pelo Fundo de Desenvolvimento de Mulheres Negras. O processo do FFN também amplificará e centrará as vozes, perspectivas e saberes feministas negras/os, online antes e em pessoa durante, no Fórum AWID.

Enquanto construímos o evento e preparamos para nos reunir, seremos as feministas negras em nossa multiplicidade que co-criaremos o Fórum Feminismos Negros e usaremos esse processo para pintar nossa imaginação de modo radical, alavancando nosso poder coletivo e transformando nosso mundos.Junte-se a nós.

Junte-se a nós.

Se você é uma feminista negra ou grupo, coletivo ou organização negra e quer contribuir com plataformas e fóruns online, participar na convocatória, trazer uma delegação, começar um debate, escrever um artigo ou contribuir com fundos para o processo do Fórum Feminismos Negros, por favor escreva para BFF@awid.org.

Se você é um/a aliado/a ou grupo, coletivo ou organização aliada e gostaria de apoiar feministas negras a participarem do FFN, contribuir com recursos para o processo, disseminar informação, oferecer plataformas para amplificar o intercâmbio, os saberes e mostrar solidariedade, por favor, escreva para AWID-forum16@awid.org.

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