O isolamento é um fantasma presente: mulheres mães negras e formas de insurgência na Pandemia

The Modern Medea - A história de Margaret Garner , Harper's Weekly , 18 de maio de 1867, p. 308 Cortesia da Biblioteca do Congresso dos EUA (LCCN99614263)/Blackpast.org/

Primeiramente, eu peço licença as minhas ancestrais e as minhas linhagens maternas e paternas para ler um trecho de um evento histórico que aconteceu em 1856. 

Margaret Garner, uma mãe escrava de vinte e dois anos de idade, e com quatro filhos pequenos, apareceu pela primeira vez em 1856 em uma sessão do seu julgamento. Garner havia atravessado um rio congelado, juntamente com outros sete membros de sua família, enfrentando caçadores de escravos e uma noite de inverno singularmente fria em busca da liberdade. Junto com os outros fugitivos Garner estava fugindo por doze horas antes da apreensão das autoridades. Quando ela foi encurralada na casa em que os fugitivos buscaram refúgio, Garner segurava os seus filhos e tentava assassiná-los em vez de permitir que eles fossem devolvidos à escravidão. Embora ela tenha sido impedida de cumprir seu plano em sua totalidade, ela conseguiu tirar a vida de sua filha de dois anos. Os títulos de noticiários da época que circularam na sociedade norte americano giraram em torno de questionar como uma mãe escrava conduzida pelas profundezas do desespero “valorizava a liberdade acima da própria vida” e de seus filhos? Nas palavras do ex-escravo e principal abolicionista norte americano Frederick Douglass, M. Garner era uma “benfeitora honrada”, cujas ações mostraram a intensidade de sua resistência à escravidão e sua luta pela liberdade.

Margaret Garner recebeu duas acusações 1ºfoi acusada por “destruição de propriedade” (em relação ao assassinato da criança) e acusada por violação da Lei do Escravo Fugitivo.  As leis escravagistas, em especial a Lei do Escravo Fugitivo consideravam os escravos fugitivos como criminosos envolvidos no roubo de si mesmos.  Margaret foi levada sob custódia e ao julgamento por roubar a propriedade de seu dono (ela e seus filhos), seu caso foi retomado na imprensa popular por abolicionistas e seus aliados como evento que contribuíu para a derrubada do sistema que os escravizou e como uma ação poderosa que representou um “golpe de liberdade” da escravidão.  

Bom, se olharmos para este evento como uma “alegoria do presente” (Hartman e Wilderson 2003, 190), mais do que um relato histórico de práticas passadas nas Américas e no Caribe, podemos encontrar pontos de intersecção (ou não) entre as mulheres escravas fugitivas e as realidades de mães e mulheres negras domésticas no contexto de pandemia vivendo em diáspora negra. 

Tendo em vista que no início do Confinamento Social provocado pela pandemia do covid-19 fomos abaladas por duas notícias que envolveram mães negras empregadas domésticas.  Em meados de março a notícia de que a primeira vítima fatal de coronavírus no Rio de Janeiro era uma mulher, empregada doméstica de 63 que trabalhava no Leblon e que foi contaminada quando exercia seu trabalho por seus próprios  empregadores que estavam recém chegados da Itália. A mulher trabalhava como doméstica desde jovem para sustentar seu irmão mais novo,  criar seu filho e dois sobrinhos que viviam com ela. Além deste caso, tivemos a notícia da morte de uma criança negra negligenciada pela patroa branca de sua mãe que  é uma trabalhadora doméstica.

Esses dois casos mostram como a sombra do racismo persegue as experiências vividas dessa pandemia por comunidades negras marginalizadas. Além disso essas mortes são sintomáticas de como o confinamento, a discriminação, o isolamento e a desumanização sempre foram fantasmas constantes e contínuos na vida de pessoas negras e elas estão associadas à prática do distanciamento social estrutural que expõe ainda mais as comunidades racializadas a habitação insegura, falta de saneamento, vulnerabilidade economica e acesso reduzido aos cuidados de saúde.

Mas quero ir além. Além de fixar a imagem da dor, das fraturas e do corpo dilacerado de comunidades negras e pra isso gostaria de perseguir o rastro da fugitividade (Cedric Robinson, Ashon Crawley e Fred Moten) e insistir numa questão: De que modo essas histórias de mães negras diaristas, ao trabalharem como domésticas, demonstram a latência da reivindicação de mundos possíveis e a luta duradoura pela libertação? O que as experiencias de vida dessas mulheres que sustentam seus filhos como trabalhadoras domésticas tem as nos dizer sobre a produção de vida na morte social?  Tendo em vista que estas mulheres tomam cotidianamente duras decisões em busca de melhores condições de renda, saúde e educação, sendo colocadas em situações de vulnerabilidade e contaminação onde precisam, muitas vezes, levar seus filhos para as casas das patroas, deixar com vizinhos e até mesmo dormir nos locais de trabalho. Será que podemos olhar para as experiências dessas mulheres e a fuga das mulheres escravas como formas análogas de insurgência negra? 

Mas antes de entrar no tema da possibilidade da INSURREIÇÃO feita por mães negras e falo aqui como uma delas, é importante pontuar que estas ideias e questões não são nenhum tipo de tentativa de reproduzir a imagem da mulher negra guerreira, heroína e forte estereótipos racializadores, perigosos e hipersexualizadores. Nem quero fazer apologia a ideia de matriarcado, tendo em vista que o termo é usado erroneamente em um mal-entendido fatal, como bem discorreu Hortense Spillers no seu texto “Bebe  da mamãe do papai talvez” escrito em 1987.   Segunda essa intelectual a cultura dominante nomeia incorretamente o poder da mulher em relação à comunidade escravizada, atribuindo um valor DE matriarcado onde não pertence.  A autora ainda enfatiza que tal nomeação seria falsa primeiro porque a mulher escravizada não poderia, de fato, reivindicar seu filho, e falsa, mais uma vez, porque a “maternidade” não era percebida no tempo social vigente como um procedimento legítimo de herança cultural.

Bom, além disso, estes insights compartilham noções, conceitos e categorias  de intelectuais e escritoras NEGRAS Jacqui Alexander, Hortense Spillers, Angela Davis, Lelia Gonzalez, Sylvia Wynter dentre outras que partem do entendimento de que a co-etaneidade de raça e gênero requer mais do que procurar formas históricas de normatividade e que o gênero não pode ser entendido como um sistema de identificação, diferença e hierarquia separado do sistema que chamamos de raça. Em síntese, quero enfatizar que ao levantar essas questões eu estou menos interessada ​​em ingressar nas fileiras da feminilidade de gênero e mais empolgada em perceber a evocação de um terreno poderosamente insurgente que essas mães negras estão reivindicando radicalmente e uma síntese ao mesmo tempo sombria e poderosa nessa figura da mãe negra.

E principalmente nesse momento que estamos eu insisto na transcendência da dor  e nas possibilidades de insurgência porque está cada vez mais evidente para nós que a dinâmica do mundo ordenado pela mecânica  capitalista e heteropatriarcal está sendo reinscrita ciclicamente pelas medidas que estão sendo tomadas atualmente. Com isso em mente é que eu olho para esses dois casos que aconteceram no Brasil como contínuo da historia, olhando para as fraturas mas principalmente para as possibilidades de ultrapassa-la. E Como esses dois casos mostram que a rápida disseminação da infecção fora da China afetando, principalmente, a população negra especialmente as mulheres negras, um retrato fidedigno de todo o emaranhado de sangue do capital social, capital sexual, de genero e econômico que segue e persegue essa Pandemia.

Se voltarmos um pouco no tempo poderemos seguir adiante.

Foi no período de fechamento do mercado/tráfico de escravos transatlântico em 1807 que a ideia de “escravidão” foi ligada à capacidade reprodutiva e, portanto, à capacidade real das mulheres negras escravas de criar novos escravos. As escravas femininas eram usadas para o sexo, para o trabalho nas lavouras e para a reprodução em todos os lugares da América e do Caribe, e, portanto, em toda parte, foram transformadas em bens reprodutivos, isto é, experimentavam tanto escravidão sexual quanto reprodutiva. Com a finalidade de ter mais bens produtivos e assegurar a reprodução, os viajantes e colonizadores criaram e fizeram circular idéias sobre os corpos femininos negros como excessivamente fecundos e simultaneamente capazes de trabalho árduo, e nesses termos os europeus produziram a distância moral e social que permitia a escravização daqueles cujo trabalho reprodutivo podia ser racializado e assim tratado como produto de um trabalhador menos-humano. Nas representações escritas e imagéticas dos viajantes, as mulheres negras são representadas como capazes de parto “sem dor” e de trabalho árduo imediatamente após o parto e enquanto amamentam seus filhos, isto é,  que de alguma forma a alteridade biológica delas proporcionava-lhes a capacidade natural de gerar e nutrir a vida sem sacrifício. A ideia das mulheres negras escravas como “parideiras” foi “produzida pela escravização e ao mesmo tempo produziu sua escravização”. 

Posto este retorno a história e concordando com Angela Davis podemos entender que as principais formas de insurgência das mulheres negras a escravidão era se negar a “reproduzir e criar”, sendo a abstinência sexual, o aborto e o infanticídio elaborações mais diretas dessas insurgências. Conforme a autora enfatiza quando essas mulheres resistiram à exploração sexual, rejeitaram sua função econômica vital como reprodutoras e criadoras e assim rejeitaram seu “papel no avanço econômico do sistema escravista”. 

Posto isso, num contraponto olhando para  a resistência das mulheres negras escravas à exploração sexual como uma resposta insurgente a escravidão e às formas específicas de desapropriação sexual e reprodutiva. Como as mães negras que ocupam 92% do cargo de trabalhadoras domésticas no Brasil podem ser vistas como sujeitas ativas e insurgentes que estão contribuindo para a intensa luta da população negra contra o sistema antinegro? Além disso, como essas mães negras podem ter seus direitos assegurados no contexto de Pandemia? O que essas mulheres negras, por meio de atos individuais de construir autonomia financeira, gerar sustento e renda para familiares e filhos através do trabalho doméstico estão nos dizendo? 

Talvez eu esteja afetada epistemicamente e porque não epidemicamente pelo o espirito e o desejo da transcendência da dor, talvez seja apenas um relato intimista costurado por meio de textos históricos, fatos atuais, teoria e rememorado da minha experiencia como filha de uma trabalhadora doméstica nordestina e negra que passou tantas noites sozinhas com seus 2 irmãos enquanto a mãe trabalhava em outros lares, não sei mas estou convencida de que ser filha de uma dessas mulheres me dá a sensação de vida e de reivindicar o lugar de mulher com potencial para “gerar”, “criar” e principalmente nomear a minha filha, Emanuela Pereira de Andrade. Dito isso eu gostaria de em memória das empregadas domesticas que perderam suas vidas durante essa pandemia e em homenagem as que estão vivas, como minha mãe Vaulice Pereira de Araújo de ler uma poesia de minha autoria baseado em uma experiencia verídica de uma dessas noites de Datas festivas em que as crianças de mães trabalhadoras domésticas recebem o acalanto ancestral enquanto suas mães trazem o refúgio, a casa e  a comida.  

Ela se chama a 

A INSURRECIONISTA

 

Tudo o que temos é o que ela tem nas mãos estendidas

 

Mães, esposas e filhas!

Escutem a batida!

 

Seus tendões, ossos e músculos  

Estão reunidos, agora com fúria de mais vida

 

Ela se chama a Insurrecionista!

 

Passar, lavar, passar lavar, passar lavar…

Escutem os toques da pele no ar

No passar e no lavar   

Escorre uma esperança fugitiva

De fuga

De furia

De furo

Há bacia de ágata

que Lhe guia a vida!

 

Refúgio, casa e comida

 

O amor ali era opaco, suado, manchado com zonas de gordura

Indecifrado!

 

Era Dia das mães ou era Natal

Não me lembro mais

Pois tornei essa estória de datas dias banais

A ordem do dia era Ação, faxinação, humilhação   

e ainda faltava a tal Ressurreição…

 

Mas a inssurreição tava ali

Entre os dedos insistia em dá vida

A insurrecionista.

 

E a menina

E a menina? 

A menina no fundo da rede a espera da mãe

Sua luz se confundia com os seres de luz que a acompanhava na marcha onírica

 

Na espera

Um sonho

A mesa colocada com flores e cores de Natal

Os irmãos todos em volta como numa propaganda de TV matinal

A mãe tinha os olhos alegres

Pela faringe lançava o futuro num horizonte rupestre

Azuuul, azuuul, azuuuul como o cheiro da roupa que tanto lavava

 

Larvas, Larvas. Larvas…

 

Lar! Qual era mesmo o seu lar?

A menina não sabia que o lar estava lá onde as larvas escorriam

Entre as artérias inchadas das mãos de sua mãe e o ferro de passar havia uma Sinhá

Que mandava a mulher passar sem cessar

Só por capricho toda a roupa do seu marido.

 

A mãe se camuflava entre as gravatas e lençóis de puro linho

– Quem dera um lençol tão macio!

 

Ah …E a menina

Continuava descoberta no Ninho

Com as pétalas de rosa se nutria

Na rede a espera da mãe

Se contorcia da saudade daquele carinho

E a noite ia, urgia sem noticias da Ressurreição da vida

 

Mas esperem

Escutem o toque

Escutem a batida

 

A voz da mãe como trovão surgia

Na mão da menina a flor dormia

Mas não adormecia a sua euforia

 

Na espera da Guardiã da linhagem

Estremecia a imagem  

Era ela:  A insurrecionista!

 

 Trago essa poesia pois ela relata a história de minha mãe, uma mulher negra engomadeira que sustentou três filhos com esse trabalho, tendo muitas vezes que deixar os filhos sozinhos em noites que todos celebravam a Ressureição da vida, a Insurreição estava ali.  


¹ Texto lido no dia 20 de agosto de 2020 em Conferência da Associação Brasileira de Antropologia, organizada pelo Comitê de Antropólogas e antropólogos negras e negros da Associação Brasileira de Antropologia. Webnari Negras Interseccionalidades e Experiências Etnográficas com moderação: Juliana Cinthia e participação de  Samara Lima (UEPB) Marilu Campelo (UFPA) Angela Figueiredo (UFRB) e eu, Antonia Gabriela (MN/UFRJ). Gostaria de agradecer imensamente a revisão do texto feita por Danielle Araujo e Marcela Andrade. Para assistir https://www.youtube.com/watch?v=Nh8HeNJUocA&t=6024s

 

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