O que aconteceu em Argel? Exilados, Panteras Negras e a CIA nos anos 1970

Marcelo José Domingos é Doutorando – PhD em História pela University of Texas at Austin. Mestre em História pela UnB. Professor de Educação Básica – História na SEEDF

Apresento aqui algumas notas de uma pesquisa documental que desenvolvi na University of Texas at Austin, entre 2020 e 2021, quando fui bolsista do Center for Studies of Race and Democracy, dirigido à época pelo professor Peniel Joseph. Como resultado dessa pesquisa com documentos históricos das décadas de 1970 e 1980, identifiquei um instigante tema que, como irei demonstrar ao longo do texto, possui um bom potencial para futuras investigações históricas e para renovadas compreensões historiográficas sobre ativismos negros em uma perspectiva transnacional ao longo do século XX.

Inspirei-me inicialmente em uma notícia do jornal brasileiro Correio da Manhã. A matéria informava que no dia 16 de junho de 1970, em Argel – Argélia, um Boeing pousou no aeroporto local com 40 guerrilheiros brasileiros embarcados. Esses indivíduos fizeram parte de tensas negociações envolvendo autoridades brasileiras e argelinas e a guerrilha urbana de esquerda no Brasil. Dias antes, em 06 de junho, um embaixador alemão – Ehrenfried von Holleben – foi sequestrado pela Ação Libertadora Nacional (ALN) e pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) no Rio de Janeiro. Num movimento audacioso, a ALN e a VPR exigiram a libertação daqueles 40 guerrilheiros pela vida do diplomata.

Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 16 de junho de 1970. Fonte: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

Apesar do regime autoritário do Brasil e de sua severa censura, a informação acima foi publicada em um jornal de grande circulação. O artigo sobre o evento apresentou um detalhe que me chamou a atenção durante a pesquisa: “Esta é a primeira vez que um avião brasileiro pousa na Argélia. Uma pequena delegação de refugiados brasileiros locais e organizações políticas – de Angola, Moçambique, Palestina, Portugal, Espanha e Estados Unidos (Os Panteras Negras) receberam o grupo brasileiro”. Se não bastasse a delegação contar com os maiores expoentes revolucionários da esquerda negra de Angola e Moçambique, os Panteras Negras mencionados aqui eram, nada mais nada menos, os representantes da Seção Internacional dos Panthers, liderados pelo não menos notório Eldridge Cleaver (1935-1988), Ministro de Informações do partido. Como pesquisador da Ditadura Militar no Brasil (1964-1985), e dos documentos de inteligência sobre ativismos negros nos anos 1970 e 1980, essa referência aos Black Panthers Party (BPP) não poderia passar despercebida.

Em minhas pesquisas em andamento, recorro a extensos arquivos da inteligência brasileira e também a depoimentos de ativistas do Distrito Federal – Brasília – para recriar as diferentes narrativas do ativismo negro naquela unidade da federação e investigar sua atuação política: do período da Ditadura (1964-1986) até a nova Constituição (1988). Em minha investigação de doutorado, observei que diversos setores do Sistema Nacional de Informações brasileiro (SisNI), em certos momentos, sugeriam – e em outros, atestavam de fato – haver uma influência do BPP nas guerrilhas urbanas e em outras atividades subversivas no Brasil durante os anos 1970. Curiosamente, por exemplo, os documentos que investiguei não buscavam conexões da suposta atividade do BPP com os diversos grupos ativistas negros que viriam a compor, a partir de 1979, a coalizão do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação (MNUCDR).

Ainda com base na mesma documentação pesquisada, constatei haver certa hesitação dos recém-legalizados partidos de esquerda no Brasil, ao longo da década de 1980, quanto à adoção de demandas raciais em seus respectivos programas sociopolíticos. Aqueles mesmos partidos de esquerda dos anos 1980 demonstravam em seus periódicos e panfletos, em diversos momentos, uma leitura ortodoxa do marxismo, secundarizando a questão racial. Ora, em linhas gerais, essa interpretação do marxismo ignora a relevância de raça nas relações de produção. Insisto, em linhas gerais: pois é (re)conhecida, no ativismo negro norte-americano, a relevância dos trabalhadores negros americanos, a qual foi inclusive afirmada por Lenin ainda na década de 1920. Em suas Teses para o II Congresso  da Internacional Comunista, de 14 de julho de 1920, Lenin convidou os negros comunistas estadunidenses para falar, com autoridade, ao comunismo internacional.

Trecho das resoluções da Conferência e Convenção do PCB/DF. Brasília, agosto de 1986. Fonte: Arquivo Nacional – Fundo: Serviço Nacional de Informações (ACE 009668 21/08/1986).

Ainda na década de 1960, as discussões da New Left viriam a incorporar discussões de raça e gênero. Essa perspectiva heterodoxa do marxismo foi recepcionada por grupos como o Black Panthers Party – que, aliás, era um partido político de orientação marxista. Em relação às ideias dos Panthers sobre Socialismo, Marxismo e as discussões de Raça X Estrutura, Eldridge Cleaver sintetizou parcialmente a perspectiva heterodoxa de seu grupo e suas influências políticas, assim como o grau de adequação do pensamento marxista-leninista a temática racial: “Quando dizemos que somos marxistas-leninistas, queremos dizer que estudamos e compreendemos os princípios clássicos do socialismo científico e que adaptamos esses princípios à nossa própria situação. No entanto, não nos movemos com a mente fechada para novas ideias ou informações. Ao mesmo tempo, saiba que devemos confiar em nossos próprios cérebros para resolver os problemas ideológicos que eles nos relacionam”.

Mente aberta, criticidade e adaptação. Essa era a tônica da leitura heterodoxa dos Panteras Negras. Deste modo, definir a sua perspectiva política meramente como marxista-leninista é uma simplificação excessiva sobre as redes de atuação desse importante grupo ativista negro dos Estados Unidos. As declarações de “mente aberta” e as posições políticas das lideranças do BPP – como de Eldridge Cleaver, Huey P. Newton e Bob Seale, duas outras relevantes lideranças – contrastam, por exemplo, com a ortodoxia marxista brasileira dos anos 1970; assim como o seu silêncio conveniente sobre as questões raciais na década seguinte.

Eldridge Cleaver e Kathleen Cleaver. Fotografia feita aproximadamente no ano de 1969. Fonte: site O Lado Negro da Força.

Minha busca documental limitou-se aos relatórios de inteligência do governo brasileiro preservados no Arquivo Nacional – especialmente o Fundo “Serviço Nacional de Informações” e o Fundo “Centro de Informações no Exterior” – e aos documentos da Central Inteligente Agency (CIA), disponíveis no próprio website da agência estadunidense. Minha ideia era fazer uma busca inicial nos dois arquivos institucionais, verificar o que estava/está disponível, analisar preliminarmente algumas fontes e planejar uma incursão futura, mais precisa e aprofundada, nesses acervos documentais – especialmente os da CIA.

No lado brasileiro, atestei o que já havia verificado antes. Nas centenas de menções aos Panteras Negras nos documentos de inteligência, identifiquei uma insistente narrativa quanto a existência de certas influências do BPP na esquerda brasileira durante os anos 1970 sem nunca apresentar, efetivamente, quaisquer evidências concretas dessas conexões aqui. Já na CIA, os resultados apresentam elementos de uma trama digna de roteiros de filmes de conspiração. Esta agência dos Estados Unidos seria responsável por operações de informação e contrainformação no exterior. Mas havia um aparente problema aqui: a CIA não poderia, em princípio, monitorar cidadãos americanos. Todavia, isso não impediu a agência de lançar olhares atentos aos ativistas (e cidadãos) negros ligados aos Panteras Negras.

Os documentos tornados públicos pela CIA sobre a atuação dos Panthers no exterior – algo em torno de 35 dossiês de dimensões variadas –, curiosamente, não mencionam diretamente os ativistas do BPP. Eles informam bem mais sobre a cobertura da mídia norte-americana ao suposto monitoramento desses ativistas no exterior pela agência de inteligência e a possibilidade de haver agentes infiltrados na Seção Internacional. Sobre a cobertura da mídia, a CIA arquivou as matérias do jornalista do New York Times, Seymour Hersh, publicadas entre 1974 e 1978. Nelas, especialmente no NYT de 1974, Hersh revelou a dita Operação CHAOS: uma operação ilegal promovida pelo governo dos Estados Unidos para realizar o monitoramento de seus cidadãos considerados subversivos, tanto dentro do país quanto no exterior. Esta operação durou entre 1967 e 1974 e, muito possivelmente, monitorou milhares de cidadãos americanos e também grupos políticos; contando ainda com centenas de informantes – incluindo negros dentro do BPP.

O artigo bombástico de Hersh, em 1974, precipitou a formação de uma comissão do Congresso dos Estados Unidos que investigou as operações domésticas da CIA: a Comissão Rockefeller. Em 1978, o mesmo jornalista localizou um ex-agente da CIA que confirmou o trabalho da agência monitorando os Panthers. Na matéria que se seguiu a este contato com o ex-agente, publicada em edição do NYT de 1978, Seymour Hersh informava que a CIA havia recrutado diversos informantes negros para a vigilância (ou espionagem) do Partido dos Panteras Negras entre as décadas de 1960 e 1970. No mesmo artigo, diferentes fontes da própria CIA confirmavam as atividades de vigilância dessa agência de inteligência sobre a atuação do BPP no exterior, bem como suas tentativas de ocultá-la ao público em geral nos Estados Unidos.

Desnecessário informar que a Operação CHAOS e seus documentos estão encerrados em grande grau de sigilo – se é que estes documentos não foram destruídos – conforme o próprio jornalista veio a público informar posteriormente. Dado que os Panthers eram sabidamente objeto de interesse do governo norte-americano, a total ausência de documentos sobre Eldridge Cleaver e a Seção Internacional dos Panteras Negras sugere exatamente o oposto: de que eles, de fato, foram monitorados pela CIA e de que documentos sobre eles e sua atuação – e os contatos com outros movimentos e ativistas negros no exterior, como com os exilados brasileiros em Argel, por exemplo – foram produzidos (e sigilosamente escondidos ou destruídos) em algum momento da história recente. Deste modo, o que foi tornado público nos Estados Unidos nos últimos anos nos induz a pensar em outras possibilidades de leitura histórica sobre as dinâmicas desse contexto envolvendo o BPP.

Assim, em vista dessa breve incursão documental e das discussões aqui apresentadas, tornou-se evidente, para mim, que uma investigação futura – e inédita – sobre as atividades dos Panteras Negras na Argélia pode apresentar elementos importantes para entender, por um lado, certa hesitação das esquerdas brasileiras e, por outro, as conexões transnacionais do ativismo negro na segunda metade do século XX. Então, minha pergunta permanece: o que aconteceu, de fato, na cidade de Argel em 1970? Assim, mais do que uma não-conclusão, a sentença e seus questionamentos são um convite (e uma provocação) para novas pesquisas e reflexões sobre a participação política e movimentações negras em lutas anti-imperialistas no contexto da Guerra Fria, conectando e correlacionando tais processos de enfrentamento contra os regimes ditatoriais na América Latina, no Caribe e em África no mesmo período.

Assista ao vídeo do historiador Marcelo José Domingos no Acervo Cultne sobre este artigo:

Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC): 

Ensino Fundamental: EF09HI19 (9º ano: Identificar e compreender o processo que resultou na ditadura civil-militar no Brasil e discutir a emergência de questões relacionadas à memória e à justiça sobre os casos de violação dos direitos humanos); EF09HI20 (9º ano: Discutir os processos de resistência e as propostas de reorganização da sociedade brasileira durante a ditadura civil-militar); EF09HI28 (9º ano: Identificar e analisar aspectos da Guerra Fria, seus principais conflitos e as tensões geopolíticas no interior dos blocos liderados por soviéticos e estadunidenses); EF09HI29 (9º ano: Descrever e analisar as experiências ditatoriais na América Latina, seus procedimentos e vínculos com o poder, em nível nacional e internacional, e a atuação de movimentos de contestação às ditaduras); EF09HI30 (9º ano: Comparar as características dos regimes ditatoriais latino-americanos, com especial atenção para a censura política, a opressão e o uso da força, bem como para as reformas econômicas e sociais e seus impactos).

Ensino Médio: EM13CHS602 (Identificar e caracterizar a presença do paternalismo, do autoritarismo e do populismo na política, na sociedade e nas culturas brasileira e latino-americana, em períodos ditatoriais e democráticos, relacionando-os com as formas de organização e de articulação das sociedades em defesa da autonomia, da liberdade, do diálogo e da promoção da democracia, da cidadania e dos direitos humanos na sociedade atual).

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