O que são Blackfaces e por que eles são racistas?

FONTEPor Juliana Pereira, enviado ao Portal Geledés

No ano de 2020, ao navegar pela internet, me deparei com dois casos que pouco barulho fizeram na imprensa, mas que movimentaram as redes sociais. O primeiro foi a entrevista da Xuxa ao programa do Bial, quando a artista foi questionada sobre o uso de blackface em uma apresentação que fez, na década de 1990, com o artista negro Grande Otelo. O outro caso, que aconteceu meses depois, foi a utilização da mesma “técnica” por um dos ex-integrantes do programa Pânico em um reality show rural. Mas o que a apresentação da Xuxa da década de 1990 e o episódio do humorista em 2020 têm em comum?

De fato, quando observamos a produção de entretenimento brasileiro fica evidente que os blackfaces estão em todo lugar. Não são raros os casos de artistas que atuaram em blackface: Xuxa, Carioca, Marco Nanini, Tom Cavalcanti e até Paulo Gustavo, entre muitos outros, já representaram homens e mulheres negros utilizando essa técnica extremamente caricata.

Todavia, essa é uma história que não começa na década de 1990, suas raízes são antigas e há muito tempo estão presentes nas comédias brasileiras. O que essas práticas têm em comum não é apenas a ridicularização da população negra, mas também a falta de reconhecimento de que os blackfaces são efetivamente racistas.

Como muitas coisas no Brasil, ainda se insiste em varrer para debaixo do tapete o racismo que estrutura nossa produção cultural e que quando denunciado ainda é visto como radicalismo, ‘mimimi’ ou disfarçado de “homenagem” à população negra. Assim, cotidianamente, ainda assistimos a cenas de racismo explícito mascarado de comédia.

     O racismo nas comédias teatrais.

Foi no século XIX, nos minstrels shows norte-americanos, onde se originaram os blackfaces. Essas representações foram adotadas por atores brancos que retratavam de maneira caricatural e zombeteira personagens afro-americanos através da dança, da comédia e das apresentações musicais. Os blackfaces eram, assim, imitações estereotipadas dos estilos dos escravizados e libertos. Com o rosto pintado de preto, os lábios eram desenhados de grosso modo e os trejeitos físicos feitos de forma exagerada. Além da pintura da pele e dos lábios, também existia a adoção de vários sinais sutis, como o olhar e sorriso infantilizados, que tinham por objetivo a ridicularização da população negra que seria retratada nos palcos. O modo como essas representações eram construídas dialogava com as teorias raciais do período, defensoras da inferioridade dos não-brancos. 

A utilização de blackfaces era algo muito comum nos teatros norte-americanos, mas também podemos encontrá-los na produção cultural brasileira. Falar sobre o uso de blackface no Brasil remonta ao teatro de revista carioca, um gênero teatral que em meados do século XIX fez sucesso entre os autores e empresários teatrais do período.

O uso da “técnica” era recorrente e são inúmeros os exemplos de peças teatrais em que os personagens eram representados desse modo. Uma das peças que mais me chamou a atenção foi Adão e Eva, de Avelino de Andrade e José Nunes, encenada no teatro São José, em maio de 1917. Nela, a artista Dolores Lopes, uma mulher branca, atuou como “África”. 

[Imagem 1: Personagens da peça “Adão e Eva”. Jornal de Teatro e Sports, 12 de maio de 1917, p.9. (Fonte: Biblioteca Nacional)

Toda de preto e com contas em volta do pescoço, a artista Dolores Lopes surge na imagem caracterizada como “África”. Uma África que não era elegante, mas que partia de um imaginário de primitivismo baseado em estereótipos de uma história única sobre o continente africano e que na peça foi compartilhado pelos autores. 

[imagem 2: Manuel Durães em “Flor Tapuya”. Rio de Janeiro, 1922. (Fonte: Cedoc Funarte)

Em outra revista do ano de 1922, a Flor Tapuya escrita por Alberto Deodato e Danton Vampré, o artista pernambucano Manoel Durães na personagem “cabo meu nego” era representado de modo completamente grotesco. Além da pele pintada com tinta preta e dos lábios ressaltados, o artista usa uma peruca para marcar os cabelos crespos, os dentes estragados e o olhar arregalado em uma expressão infantilizada que certamente se conectava com o gestual do ator no palco.

São inúmeros os casos de blackface nos palcos dos teatros brasileiros. Durante todo seu auge, o teatro utilizou dessa técnica. A chegada da TV nos anos 1950 e seu boom nos anos seguintes introduziu uma nova relação do público com o entretenimento. Dentre esses, destacam-se a teledramaturgia e os programas de auditório. Ao longo dos anos, essas programações sempre apresentaram negros de forma muito similar às comédias teatrais. A maquiagem grotesca e os trejeitos risíveis ainda continuam sendo utilizados como estratégia de comicidade. 

Essas representações não eram (e continuam não sendo) homenagens à população negra. Ao contrário, elas deram corpo e voz aos estereótipos raciais que pretendiam inferiorizar homens e mulheres negras ao representá-los de forma completamente racista. Esse racismo, por sua vez, era alicerçado e legitimado por teorias pseudocientíficas, que hierarquizavam os grupos humanos. Uma imitação exagerada que sempre teve como objetivo o riso do público. E que reforçava no imaginário uma ideia de que ser negro era ser feio.

Ainda hoje, em 2022, somos confrontados por inúmeros estereótipos raciais diariamente veiculados em programas da TV aberta que alcançam públicos de várias idades, regiões e classes sociais. 

Para além dos estereótipos: reação e resistências

De acordo com pesquisadores da história do teatro, alguns artistas negros participavam ativamente das numerosas bandas e conjuntos que se apresentavam nas casas de entretenimento no Rio de Janeiro entre o final do século XIX e o início do XX. Entretanto, parecia haver uma resistência ao artista negro no palco em papéis de destaque. Mas, mesmo convivendo com imagens preconceituosas de inferiorização da população negra, esses estereótipos foram negociados, subvertidos e ressignificados por artistas negros.

Quando sujeitos negros se apropriavam de estereótipos e os levavam para o palco a partir de seus próprios termos, eles estavam acionando uma importante estratégia para conseguirem se inserir nos teatros cariocas. Essa era uma das ações possíveis na política da vida pessoal desses sujeitos. Isto é, para esses artistas o caminho de ação era por dentro da lógica que lhes era imposta. Nesse sentido, para esses artistas essa era uma das formas multifacetadas de luta antirracista.  

O campo cultural, ao veicular e estimular representações estereotipadas da população negra, se constitui como um poderoso meio de reprodução de racismo. Mas o racismo não é entretenimento, o blackface não é engraçado. Somente o reconhecimento da sociedade brasileira da estrutura racista que forja o campo cultural, e dos privilégios da branquitude no entretenimento permitirá que o blackface não seja mais uma prática realizada em teatros, programas de humor e novelas. Enquanto isso não acontece, seguimos denunciando e lutando contra o uso de blackface.

Assista ao vídeo da historiadora Juliana Pereira no Acervo Cultne sobre este artigo: 

Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC): 

Ensino Fundamental: EF09HI03 (9º ano: Identificar os mecanismos de inserção dos negros na sociedade brasileira pós-abolição e avaliar os seus resultados); e EF08HI14 (8º ano: Discutir a noção da tutela dos grupos indígenas e a participação dos negros na sociedade brasileira do final do período colonial, identificando permanências na forma de preconceitos, estereótipos e violências sobre as populações indígenas e negras no Brasil e nas Américas).

Ensino Médio: EM13CHS101 (Identificar, analisar e comparar diferentes fontes e narrativas expressas em diversas linguagens, com vistas à compreensão de ideias filosóficas e de processos e eventos históricos, geográficos, políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais).

Juliana Pereira

Doutora, Universidade Federal Fluminense (UFF).

 Integrante do Podcast Atlântico Negro; E-mail: juliana.cpereira@yahoo.com.br. Instagram: @jujubas19.


** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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