Pandemia reduz submissões de artigos acadêmicos assinados por mulheres

Imagem: Getty Images

Diversos textos têm circulado nas redes ressaltando os impactos particulares da pandemia de Covid-19 na dinâmica de vida das mulheres. Embora a doença tenha alterado drasticamente o convívio das pessoas, muitas das desigualdades observadas na conjuntura estão longe de ser novidade. O confinamento à esfera privada do lar, consequência do isolamento social, assevera os problemas usuais do âmbito doméstico, que costuma figurar como lócus privilegiado de violência contra a mulher, além de ser o espaço onde o gênero feminino enfrenta a maior sobrecarga de trabalho não remunerado de cuidado e tarefas de gestão da casa.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que as mulheres gastam quase o dobro de tempo em afazeres domésticos que os homens, predominância que não muda mesmo quando são comparados perfis de gênero em ocupações similares. Tal cenário não é singular ao país e, a despeito de todas as transformações recentes no mundo do trabalho, as desigualdades de gênero continuam a ser uma realidade global. Apesar disso, muitos sistemas de avaliação científica seguem ignorando essas desigualdades entre as condições de homens e mulheres. Para dar somente um exemplo, os concursos para docentes em universidades públicas no Brasil não adotam critérios formais para contrabalancear as diferenças de currículo dos concorrentes de acordo com aspectos como a licença maternidade. A inserção e a progressão de carreira das mulheres na academia requer a superação de uma série de barreiras, dentre as quais as extenuantes jornadas de trabalho dentro e fora de seus domicílios compõem elemento central.

A publicação de artigos ganha relevância nesse contexto por ter peso substantivo nos atuais sistemas de avaliação do desempenho de pesquisadoras/es, que influencia não só as possibilidades de se encontrar um emprego, como também de conquistar financiamento de projetos e visibilidade acadêmica. As revistas especializadas são um dos principais veículos de comunicação de resultados científicos e têm sido objeto de estudos sobre a sub-representação feminina em autoria de textos[1]. Editores/as argumentam que uma das explicações mais preponderantes dessas assimetrias consiste na menor regularidade com que mulheres submetem artigos às revistas, fator que redunda em sua menor presença entre os autores publicados. Em razão das novas rotinas durante o isolamento social, começaram a surgir estatísticas que apontam para um decréscimo ainda maior da inclusão feminina em alguns desses meios. Reportagens, como as divulgadas no Inside Higher Ed e no The Lily, ressaltam a divisão desigual de gênero do trabalho e comentam achados de periódicos em relação a alterações no fluxo editorial durante a quarentena.

É possível concluir de tais levantamentos padrões diferenciados entre as revistas: algumas detectaram quedas gerais de submissões de mulheres, outras não. Existem, por sua vez, as que demonstram tendências variadas, como a American Journal of Political Science (AJPS). Segundo relatório de Kathleen Dolan e Jennifer Lawless, editoras-chefes da AJPS, em pouco mais de um mês de isolamento, a submissão de artigos coautorados por mulheres aumentou proporcionalmente em comparação a anos anteriores, mas em contrapartida o envio de trabalhos de autoria individual feminina reduziu.

A DADOS pretende colaborar para essa discussão tornando públicas as informações sobre a participação das mulheres como autoras dos manuscritos submetidos à nossa avaliação nos últimos tempos. Para averiguar se a pandemia levou à redução das submissões de mulheres, analisamos dois dados: a quantidade relativa de mulheres nas submissões e a quantidade de artigos com a primeira autora mulher (individuais ou coletivos). É importante diferenciar esses modos de produção porque muitas pesquisas vêm indicando que as mulheres tendem a escrever mais em coautoria e menos como primeiras autoras ou sozinhas.

Os números sobre as submissões foram obtidos a partir do sistema ScholarOne, utilizado pela DADOS na administração do seu fluxo editorial. Vale lembrar que, desde 2016, a revista não aceita mais artigos por fora desse sistema, então estamos lidando com informações de todo o universo de colaboradores/as do periódico. Depois da extração dos dados, aplicamos um algoritmo disponibilizado pelo IBGE para a imputação do sexo baseado nos primeiros nomes de cada autor[2]. O algoritmo emprega a correlação entre sexo e determinados nomes da população brasileira, não funcionando apenas em 4% do universo (nomes inusuais ou estrangeiros), que terminamos por classificar manualmente.

O Gráfico 1 apresenta o percentual total de mulheres que assinaram artigos como autoras ou coautoras, independentemente da ordem de autoria, em cada um dos trimestres entre 2016 e 2020.1. Vale ponderar que o presente trimestre não terminou. Do total de textos submetidos, 40,8% tem participação de mulheres em autoria, contra 59,2% de homens. No entanto, há uma relevante variação entre 2016 e 2019, com o percentual de mulheres oscilando entre 36% (2016.1) e 55% (2017.3) por trimestre. Mais importante ainda, há uma brusca queda no atual semestre: mesmo que o ano de 2020 tenha começado com a submissão de 40% de autoras, patamar próximo à média, tivemos neste segundo trimestre o menor patamar do período analisado, com apenas 28% de autoras assinando os artigos submetidos.

Quando observamos os dados referentes a textos com a primeira autora mulher, o cenário fica ainda mais preocupante. Conforme mencionamos, mulheres tendem a escrever mais coletivamente e menos a assinar artigos como primeiras autoras em comparação com os homens. No nosso caso, a média de manuscritos com as primeiras autoras mulheres entre 2016 e 2020.1 foi de 37%, mas esse patamar caiu substantivamente para 13% neste trimestre. Além de o menor percentual histórico do período analisado, trata-se de menos da metade da média para os anos considerados.

A ordem de autoria importa não apenas por ser um índice das hierarquias internas às colaborações acadêmicas, mas também porque serve de sinal dos efeitos da pandemia na produção científica. Ela sugere que aquelas mulheres que coautoram textos ainda vêm conseguindo contornar parcialmente as pressões cotidianas e submeter seus manuscritos. Já aquelas que escrevem solitariamente ou estão à frente de uma determinada pesquisa parecem ser as mais atingidas.

Esses dados são preliminares e demandam cautela analítica. Pretendemos monitorar essas assimetrias nos próximos meses para determinar se elas se manterão ou aprofundarão. De todo modo, os números reforçam uma tendência internacional e são suficientes para ligar um alerta. É preciso abrir um debate acadêmico sobre eventuais procedimentos que incentivem a submissão de manuscritos de autoria de mulheres de modo geral e durante a pandemia especificamente. Sabemos que tal contexto reflete problemas sociais muito mais sérios e antigos. Isso não deve servir, contudo, como justificativa para aceitação automática das desigualdades de gênero constatadas. Se a ciência é uma das nossas maiores aliadas na eventual saída ou mitigação desta crise, cabe questionar continuamente os mecanismos que afastam as mulheres dos canais de intervenção e deliberação públicos.

Notas

[1] A produção sobre o tema é bastante extensa. Para dados sobre as áreas das Ciências Sociais no Brasil, ver, por exemplo: Carpiuc (2016), Campos, Feres Júnior e Guarnieri (2017), Mendes e Figueira (2019).

[2] Gostaríamos de agradecer ao mestrando em Ciência Política André Félix por nos auxiliar nesta etapa.

 

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