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Pesquisa nos EUA mostra que gerente branco cobra juros maiores de minorias raciais

Clientes em caixas eletrônicos de banco no centro de Ribeirão Preto - Márcia Ribeiro

Nos Estados Unidos, um gerente branco oferece um empréstimo imobiliário a um cliente também branco, e outro empréstimo imobiliário a um cliente negro (ou hispânico, asiático, ou de outra minoria racial). Ambos os clientes têm o mesmo perfil de crédito, ou seja, rendas e históricos de crédito parecidos. Um artigo que acabou de ser publicado na prestigiosa revista acadêmica The Review of Financial Studies mostra que o gerente branco cobra juros de 3% a 5% maiores do cliente pertencente a alguma minoria.

O banco de dados utilizado no artigo é inédito e traz informações sobre raça e etnia das duas partes envolvidas no empréstimo, o gerente e o tomador, em 300 mil negociações. Os autores, então, documentam a existência dessas diferenças nas taxas de juros, que têm toda a cara de discriminação.

Como dito no exemplo do primeiro parágrafo, eles mostram que quando o gerente é branco, ele cobra de negros, hispânicos e asiáticos juros mais altos do que os cobrados de clientes brancos. É importante salientar que os pares de clientes são sempre comparáveis em termos de um extenso conjunto de variáveis socioeconômicas. Ou seja, a diferença parece vir apenas de questões raciais.

Os autores também investigam se há diferenças nas taxas de juros cobradas por gerentes não brancos. Os resultados são heterogêneos. Gerentes hispânicos também cobram juros maiores de clientes hispânicos se comparados aos de clientes brancos. Gerentes negros, por sua vez, parecem não cobrar taxas de juros diferentes de clientes de grupos diferentes. Por último, gerentes asiáticos parecem favorecer clientes asiáticos.

Em todas essas comparações, os pesquisadores tomam o cuidado de utilizar um instrumental estatístico (chamado de “efeito fixo”) que permite comparar os empréstimos originados pelo mesmo gerente. Isso ajuda a dar maior credibilidade aos resultados.

Os fatos documentados pelo artigo são intrigantes e devem servir de insumo para discussões de políticas públicas e leis. Obviamente, a discriminação está presente em muitos aspectos do nosso dia a dia e tem impacto real nas oportunidades das pessoas. Documentar com rigor científico situações discriminatórias é muito importante. Quando vemos evidências escancaradas assim, o mal-estar é grande, e a chance de tomarmos uma atitude é maior.

 

Bruno Giovannetti
Professor da Escola de Economia da FGV, possui Ph.D. pela Columbia University e mestrado pela USP

 

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