Racismo em série: quatro casos seguidos no Rio jogam luz sobre o tamanho do problema (que é crime)

Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), em 2022 houve 322 registros de preconceito por raça, cor, etnia, religião, procedência nacional ou homofobia

FONTEO Globo, por Carmelio Dias, Geraldo Ribeiro e Mayra Castro
Portal Geledés

Quatro casos de racismo vieram à tona, no Rio, nas últimas duas semanas. Além do trabalho que a polícia tem pela frente — na investigação de crime previsto por lei —, servem de alerta. São histórias cotidianas, cada qual com suas características, mas que ilustram realidade incontornável: práticas racistas ainda são comuns e demandam vigilância e ação de todos.

Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), em 2022 houve 322 registros de preconceito por raça, cor, etnia, religião, procedência nacional ou homofobia no Rio. O número representa um aumento de 92% em relação a 2021 e supera a soma dos casos que chegaram à polícia em 2020 e 2021. A maior parte das vítimas (51%) é do sexo feminino, e quase 65% são pretas ou pardas.

— Hoje a gente vê mais casos porque há uma reação maior dos atingidos. Antigamente as pessoas eram vítimas de racismo, iam para casa e ficavam quietas, absorviam aquilo. Tinha um conformismo dos mais velhos em relação a isso. Havia uma noção de que aquilo não dava em nada, que era melhor ficar calado. Isso mudou muito. Então não é que há mais casos hoje. É que agora as pessoas denunciam, a imprensa dá destaque, e os casos são expostos. É assim que tem que ser — explica o babalawô Ivanir dos Santos, professor do programa de pós-graduação em História Comparada da UFRJ.

Durante uma consulta, a ginecologista Helena Malzac Franco, que atende na Zona Sul do Rio, fez considerações sobre o odor na genitália de uma paciente. Segundo a médica, a causa teria relação com características de sua “cor e do pelo”. A vítima, uma jovem de 20 anos que prefere não se identificar, ficou insegura de voltar a um consultório médico. O caso, identificado como “racismo científico”, aconteceu em fevereiro do ano passado e foi imediatamente denunciado à polícia e encaminhado à Justiça, mas só se tornou público a partir de reportagem veiculada anteontem pelo Fantástico, da TV Globo.

— Tenho muito receio de acontecer de novo. Minha madrinha me ajudou, e estou fazendo acompanhamento com uma terapeuta, que me ajudou a entender e a não me sentir insegura. Foi tudo muito violento. Não esperava ouvir aquilo — disse a vítima.

O Ministério Público do Rio denunciou Helena Malzac pelo crime de racismo, por entender que a médica se referiu ao conjunto de mulheres negras. Ela se tornou ré e, em 31 de maio, foi interrogada na ação a que responde no Tribunal de Justiça do Rio. Durante a audiência, a ginecologista defendeu-se dizendo ter estudado sobre o tema na faculdade e pesquisado sobre o assunto.

Outros dois casos foram registrados neste fim de semana, também na Zona Sul. Num deles, o segurança Lucas Rodrigues Neves, do restaurante Babbo Osteria, em Ipanema, afirma ser vítima de ataques racistas por parte de Aloísio Augusto da Costa, de 83 anos, e de seu filho. O motivo: um banco colocado em frente ao prédio do agressor. Em vídeo, o idoso aparece chamando-o de “neguinho” durante uma discussão.

Elia Schramm, chef e proprietário do restaurante, afirma que dois registros de ocorrência foram feitos denunciando o crime. Um no último sábado e outro em 15 de maio.

— É um sentimento muito ruim. Meu pai passou por isso, meu avô passou por isso. Eu sou pai e estou lutando para que meu filho não passe. A única coisa que eu quero é justiça, que não seja um caso esquecido, mais um caso isolado onde nada acontece — disse Lucas, em entrevista ao Jornal Hoje, da TV Globo.

Segundo a vítima, os ataques vêm se repetindo há meses. Ontem, Aloísio era esperado na 14ª DP (Leblon) para prestar depoimento, mas alegou questões de saúde e pediu adiamento para amanhã.

Não muito longe dali, em Copacabana, a empacotadora Talita do Nascimento Ramos, de 31 anos passou por situação semelhante, no sábado, durante expediente no supermercado Mundial da Rua Siqueira Campos. Ela conta que, ao pedir passagem a uma cliente, encostou no seu ombro. A reação surpreendeu os presentes. De acordo com Talita, a mulher começou a gritar e dizer coisas como “não encosta em mim, tira a mão de mim, não tem nada que me tocar”. A empacotadora começou a chorar. Na sequência, a mulher disse, em tom de deboche: “só porque é pretinha?”

— Meus colegas e superiores vieram em minha defesa na hora. Nunca tinha passado por nada parecido. A gente não pode deixar para trás. Tem que denunciar mesmo, se não as coisas nunca vão mudar — disse Talita.

Procurada, a rede Mundial não se posicionou sobre o fato.

No quarto episódio rumoroso e recente de racismo, as influencers Kérollen Cunha e Nancy Gonçalves, denunciadas no fim de maio, foram ouvidas ontem por mais de quatro horas na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), no Centro. As duas são investigadas por causa de vídeos publicados em suas redes sociais — onde acumulam mais de 1 milhão de seguidores — nos quais humilham duas crianças e uma mulher negra oferecendo “presentes surpresa” como bananas e um macaco de pelúcia. Os três casos aconteceram no bairro Jardim Catarina, em São Gonçalo. A “brincadeira” começou a ser investigada pela polícia depois que a advogada Fayda Belo denunciou a dupla, revelando a prática de racismo recreativo.

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