Relato de uma mãe preta

@NappyStock

Você tem cor de merda; Sabia que você tem mão de traficante?; Minha mãe falou mesmo que não era pra eu brincar com pessoas da sua cor…; como você aguenta ser preto? Você fede…; eu não gosto de brincar com amiguinhos marrons…

Essas foram algumas das frases que meus três filhos ouviram quase todos os dias, desde que entraram na escola, ou melhor, desde que começaram a se relacionar com outras crianças na escola.

E eu como mãe, tive que conviver com esses relatos a vida toda, indo à escola, procurando professores e diretoras brancas que já chegaram a me perguntar se realmente o racismo existe.

Antes de mais nada, preciso me apresentar para que vocês entendam um pouco mais sobre essa história. Meu nome é Talita, sou jornalista, tenho 41 anos, sou negra e me casei com um homem negro. Tenho três filhos negros, dois meninos e uma menina, que hoje estão com 15, 12 e 10 anos.

Sempre procurei ensinar a eles que racismo é crime e que todas as vezes que eles fossem agredidos com frases ou atitudes desse tipo, deveriam me contar. Ensinei que essas crianças ouviram ou aprenderam isso de alguém, mas que era errado e que nós temos que procurar sim a escola e os pais para que essas crianças não façam isso com outros negros.

Eu e meu esposo também ensinamos nossos filhos a se imporem diante de tais situações e a dizerem na hora que isso era crime e que os pais dessas crianças poderiam ser penalizados por tal atitude.

Nós somos de São Paulo, porém mudamos para Maringá no Paraná, onde os nossos filhos nasceram e foram criados. Sempre trabalhamos muito para dar uma educação de qualidade pra eles e nessas escolas que eles frequentaram, que sempre eram particulares, haviam poucos negros. Dava pra contar nos dedos quantos alunos negros eram matriculados em todos os períodos e todos os anos escolares.

Hoje, um pouco maiores, nossos filhos começam a entender melhor seus valores, sua beleza e estão construindo sua autoestima, diante de uma história de tantas palavras cruéis que eram faladas em um lugar onde eles não se viam representados. Não haviam amigos negros, nem professores, tão pouco supervisores e diretores.
Agora eles começam a construir uma identidade, pautada em tudo o que eles já viveram e eu tenho acompanhado essa construção e visto o quanto ela é dolorosa, principalmente como mãe, que não posso viver isso por eles, mas simplesmente encorajar, ensinar e orientar. Sei que tudo isso tem deixado eles mais fortes e de certa forma, já os preparam para o mundo e muito do que ainda vão viver, mas mesmo assim dói.

Deixo aqui apenas meu relato e a solidariedade a outras mães de crianças pretas que também passam por isso na esperança que um dia isso acabe. Mas por hora, sinto em dizer que a nossa luta ainda é longa. Sigo agora na fase da adolescência, quando eles querem sair e curtir seus amigos, mas sempre serão vistos com olhos suspeitos. E nós, mães, vamos ter que ficar em casa clamando a Deus para que eles não sejam confundidos com bandidos e que essa história não acabe com um fim trágico.

O que me conforta é saber que essa é uma geração mais empoderada, que enfrenta esse preconceito e luta com todas as forças, bem diferente da minha, onde esse assunto nem era comentado dentro de casa ou era falado muito pouco. Me orgulho de ver que hoje eles têm acesso a uma literatura que fala sobre os negros e aos poucos são mais representados na mídia, na política e na sociedade em geral.

Minha luta continua pela educação porque esse é o caminho para que homens e mulheres pretas ocupem lugares que também é de direito deles.

Talita Amaral, jornalista
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