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Santa Bakhita: mulher, negra e lutadora contra a escravidão e o tráfico de pessoas

O horror e brutalidade dos traficantes a vez esquecer o próprio nome. Passou a ser chamada por seus raptores de Bahkita, que quer dizer afortunada

Josefina Bakhita nasceu em Darfur, no Sudão em 1869 (Foto: Domínio público)

Josefina Bakhita nasceu em Darfur, no Sudão em 1869. Seu pai era irmão de um chefe tribal. Ainda na infância foi raptada e escravizada. O horror e brutalidade dos traficantes a vez esquecer o próprio nome. Passou a ser chamada por seus raptores de Bahkita, que quer dizer afortunada. A menina de 9 anos foi exposta como mercadoria, torturada, chicoteada, acorrentada e escravizada. Experimentou ainda criança todo tipo de sofrimento e dor.

Certa ocasião o filho de seu senhor espancou-a tanto que ela passou um mês sem conseguir levantar-se de seu colchão de palha. A mais aterrorizante lembrança foi a de seu quarto senhor, oficial do exército otomano, que mandou marcá-la como sua propriedade. Em suas memórias, ela evoca o momento em que um prato com farinha, um prato com sal e uma navalha foram trazidos por uma mulher, que fez desenhos em sua pele e fez cortes profundos, seguindo as linhas traçadas, aplicando nas feridas sal e farinha para cicatrizar. Mais de sessenta desenhos foram cortados em seu peito, barriga e braços.

Depois de ser vendida por várias vezes como objeto, foi dada de presente a uma família que vivia na Itália, onde passou a ser babá. Durante uma viagem do casal ela e a criança de quem cuidava, foram deixadas sob responsabilidades das Filhas de Santa Madalena de Canossa (Canossianas), na Itália. Ali, Bakhita conheceu o Evangelho. Foi batizada em 1890 com o nome de Josefina e tornou-se uma religiosa.

Em Schio, onde viveu muitos anos, todos a chamam a ‘nossa Irmã Morena’. Bakhita viveu a caridade, a humildade, a esperança e a fé. Como Cristo, perdoou seus torturadores. Doente reviveu a agonia dos anos de sua escravidão e suplicava à enfermeira que a assistia: “Solta-me as correntes … pesam muito!”. Faleceu em 1947.

Muitas são as graças alcançadas por sua intercessão. Uma delas, na cidade de Santos, conferiu a ela o título de santa. Em 1976, Eva Onishi recebeu diagnóstico de diabetes melito. Em 1991, devida a complicações da doença, deveria amputar uma das pernas. No ano seguinte recebeu a visita de uma religiosa canossiana que lhe apresentou a vida de Bakhita. Em 27 de maio do mesmo ano, rezou por sua cura. Sete dias depois estava curada.

Bakhita foi proclamada santa em 2000, a primeira africana. Durante a canonização João Paulo II declarou: “Na Santa Josefina Bakhita encontramos uma luminosa advogada da emancipação autêntica. A história da sua vida não inspira a aceitação passiva, mas a firme determinação para realizar uma obra eficaz, a fim de libertar jovens e mulheres da opressão e da violência e restituir-lhes a liberdade no exercício total dos seus direitos”.

A realidade de Santa Bahkita é semelhante a realidade de milhares de mulheres e crianças. Estima-se que o tráfico de seres humanos faça mais de 25 mil vítimas por ano no mundo e movimente cerca de 32 bilhões de dólares. Segundo a ONU, 72% das vítimas são mulheres e crianças, como Bakhita. No Brasil, em 18 meses o disque 100 registrou 301 casos: 50,1% de crianças e adolescentes.

08 de fevereiro, dia em que Bakhita faleceu, foi instituído por Papa Francisco como Dia Mundial de Oração e Reflexão Contra o Tráfico de Seres humanos. A campanha desde ano tem como tema “A força do cuidado, mulheres, economia, tráfico de pessoas”. Mulheres e meninas são as mais afetadas pela violência. Mas são elas as protagonistas na economia que propõe Papa Francisco: humana, justa, sustentável.

Situações de vulnerabilidade das mulheres e meninas favorece o tráfico de pessoas. “Esta é uma ferida profunda, provocada pela procura vergonhosa de interesses, sem respeito algum pela dignidade humana” (Papa Francisco).

Sofrimento mais do que assustador. “A violência sofrida por toda mulher e menina é uma ferida aberta no corpo de Cristo, no corpo de toda a humanidade, é uma ferida profunda que diz respeito também a cada um de nós”, ressalta o Papa.

“Reconhecer a dignidade. Cuidar faz bem a todos, a quem dá e a quem recebe, porque não é uma ação unidirecional, mas gera reciprocidade. Deus cuidou de Josefina Bakhita, a acompanhou no processo de cura das feridas causadas pela escravidão a ponto de tornar seu coração, sua mente e suas entranhas capazes de reconciliação, liberdade e ternura, acolhimento e escuta” (Papa Francisco).

A força do cuidado é único caminho possível no combate ao tráfico de pessoas e todas as formas de violência. “Convido todos a manterem viva a indignação – manter viva a indignação! […] todos os dias encontrar forças para se comprometer com determinação nesta frente. Não tenham medo diante da arrogância da violência” (Papa Francisco).

Bakhita é inspiração na luta contra todas as formas de escravidão. Basta de tantos horrores!

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