Sem acesso no AC, homem trans arrecada dinheiro para retirar mama e continuar transição fora do estado: ‘existência digna’

Rede pública de Saúde do Acre não dispõe do tratamento especializado para trans e travestis oferecido pelo SUS. Psicólogo Dom Lopes Amurúz, de 30 anos, quer se mudar para Goiânia em busca de tratamento.

FONTEG1, por Aline Nascimento
Dom Lopes Amurúz busca tratamento de hormônioterapia e mastectomia para transição de gênero — Foto: Arquivo pessoal

O psicólogo Dom Lopes Amurúz, de 30 anos, iniciou há seis meses a transição de gênero e busca o tratamento especializado de mudança de sexo oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para pessoas trans e travestis. Porém, ele viu o processo ser adiado pela falta de profissionais capacitados para o atendimento na Saúde do Acre.

Dom busca fazer o tratamento de hormonioterapia, que adequa à aparência, e uma mastectomia para retirada das mamas. Sem os serviços disponibilizados na rede pública do estado, o psicólogo quer se mudar de Rio Branco, capital acreana, para Goiânia (GO), onde tem um hospital especializado no tratamento para o público LGBTQIA+ pela rede pública.

Para isso, Dom começou uma vaquinha virtual e vende rifas para conseguir R$ 6 mil e se mudar. A vaquinha virtual está aberta desde o mês de setembro de 2021 e, até o início de janeiro desse ano, arrecadou pouco mais de R$ 1,7 mil.

“Infelizmente, muitas pessoas trans no estado fazem uso de hormônio sem avaliação médica, de forma que põe em risco à saúde, justamente por não ter profissionais de referência. Isso é um problema de saúde gravíssimo, falta de políticas públicas de saúde e, principalmente, de governantes que abracem a causa trans e travesti”, criticou.

Ao g1, o Núcleo de Saúde das Populações Populações Prioritárias e Vulneráveis afirmou que o Estado faz uma ‘discussão para, junto aos municípios e atenção primária, implantar o serviço nas redes de assistência à saúde, sendo que, neste momento, o Estado ainda não dispõe do fornecimento dos hormônios pelo Sistema Único de Saúde’. Segundo a gestão, a ideia é implantar o serviço ainda em 2022.

Mudança

Dom se prepara para se mudar com a mulher para o estado goiano, preferencialmente em fevereiro deste ano. Atualmente desempregado, ele pretende vender móveis e outros objetos pessoais para arrecadar dinheiro e se manter fora do Acre.

Como o tratamento pode demorar quase dois anos, o psicólogo decidiu fixar moradia em Goiânia para não ter que gastar mais viajando entre os estados durante a continuação da transição.

“Não tenho condições de ir lá em Goiânia passar um tempo, fazer os exames e voltar. Como é um tratamento de hormonioterapia de quase dois anos, não tenho como custear essas idas para lá. A solução que encontrei é me mudar. Vou vender todas as coisas que tenho em Rio Branco e, somado a isso, a gente vai embora”, destacou.

O tratamento para mulheres e homens trans e travestis conta com uma equipe multidisciplinar de especialistas: psicólogos, psiquiatras, endocrinologista, fonoaudióloga, nutricionista, entre outros. O SUS passou a incluir pessoas transexuais masculinos na rede de atendimento, incluindo mudança de sexo, em 2013. O grupo não estava incluído na portaria que regia o processo de mudança de sexo pelo sistema.

Dom Amurúz vai se mudar com a esposa Jana para Goiânia em fevereiro — Foto: Arquivo pessoal


“Importante ressaltar que nem todas as pessoas trans vão fazer esse tipo de tratamento, mas pessoas trans sofrem de disforia de gênero, que é uma ansiedade por conta de estar no corpo que não se sente à vontade, que não se identifica, porque quando nós nascemos somos educados conforme nosso sexo biológico de nascença. Pessoas trans não se identificam com o sexo o qual lhe foi designado”, explicou.

Disforia de gênero

Dom conta que sempre sentia algo estranho com o corpo feminino desde a infância. Na adolescência, ele recorda que se identificava mais com roupas, brinquedos e objetos masculinos, mas era obrigado a continuar se vestindo com roupas femininas e agindo como uma menina, o que causava sofrimento.

Há seis anos, o psicólogo começou a fazer terapia e, durante o processo, foi se redescobrindo e entendendo sentimentos que sentia desde criança. Foi aí que Dom entendeu que não se identificava no corpo com o qual tinha nascido e sofria de disforia de gênero, quando a pessoa sente um desconforto e não se identifica com o sexo biológico.

“Na adolescência já estava mais no masculino e quando as pessoas foram percebendo e me reprimindo. Como nessa época não fazia terapia, eu deixei de me ouvir, de ouvir meu desejo e comecei nesse processo bem mais forçado do feminino. Isso me causava sofrimento e foi quando entrei na terapia e me identifiquei como homem trans, consegui nomear o que sentia, que não sabia o nome. A transição é um processo de muita desconstrução para depois se reconstruir. É muito subjetivo para quem vivencia”, relatou.

Há seis meses a vida de Dom ganhou um novo significado e direção. Ele decidiu fazer o tratamento com hormônio para reforçar a aparência masculina, retirar os seios e já pediu o registro profissional no nome social e até doou as roupas femininas que tinha.

Apenas o registro profissional tem o nome social do psicólogo. Os demais documentos pessoais continuam com o nome de registro. Isso causou constrangimento e revolta quando ele tentou pegar um medicamento em uma unidade de saúde de Rio Branco. Ele conta que os demais documentos vão ser alterados logo que conseguir juntar uma renda.

A ausência dessa modificação causou constrangimento para Dom em uma unidade de saúde da capital acreana.

“Minha receita estava com meu nome social, que é Dom Lopes, e meu documento com o nome de registro. Fui tentar acessar para pegar a medicação e a moça do atendimento da farmácia não quis liberar porque disse que o nome da receita era um e a identidade era outra. Disse que eu tinha que decidir quem eu era. Olha o tamanho dessa violência para acessar uma medicação, que é uma coisa simples que você pega e vai embora”, lamentou.

Conforme o psicólogo, o tratamento especializado vai ajudar a mudar sua aparência e, assim, ser identificado com o sexo que se identifica. Isso, segundo ele, vai trazer mais dignidade à sua existência.

“Quero o hormônioterapia e a mastectomia masculinizadora, que é para diminuir minha disforia de gênero, que sinto muito porque ainda sou lido no feminino. As pessoas me leem no feminino, então, busco essas terapias para me sentir melhor e ter uma existência mais digna, porque transição é sobre isso, é ter uma existência digna, viver na forma que você se sente, da forma que você é, independentemente de qualquer outro fator porque sabemos que tem preconceito”, disse.

Apoio e acolhimento no CAV

Dom disse que se sentiu acolhido quando procurou o Centro de Atendimento à Vítima (CAV), do Ministério Público do Acre (MP-AC). Foi lá que ele fez o pedido para ter o registro profissional com o nome social. O órgão de articulação trabalha junto com as promotorias especializadas em busca de melhorias e o cumprimento dos direitos das mulheres e o público LGBTQIA+.

O CAV foi instalado em 2016 com apoio das equipes do Centro de Atendimento ao Cidadão (CAC), Núcleo de Apoio e Atendimento Psicossocial (Natera), Núcleo de Apoio Técnico Especializado (NAT), Centro Operacional (CAOCriminal) e promotorias de Defesa dos Direitos Humanos, Violência Doméstica e Familiar e Criminais.

No CAV, Dom recebe acompanhamento e orientação quanto a questões jurídicas.

Dom recebe apoio e acolhimento no CAV do MP-AC — Foto: Arquivo pessoal

“O CAV foi o primeiro serviço que consegui acessar. Lá fui acolhido, orientado sobre as questões do nome social. Estou sendo acompanhado por lá”, destacou.

Direito à dignidade

A procuradora de Justiça e coordenadora do CAV, Patrícia Rêgo, explicou que as equipes do centro estão em tratativas com a Sesacre para que o serviço especializado seja implantado no estado há alguns anos. Essas conversas vinham avançando, porém, com a chegada da pandemia do novo coronavírus, todas as demandas se voltaram para dar assistência e garantir o atendimento médico aos pacientes infectados.

“A gente vem conversando com a Sesacre há muito tempo. Desde que a gente vem atendendo esse público que há o diálogo, só que houve mudança de gestão no governo, veio a pandemia. O sistema de saúde ficou muito em função da pandemia. A gente precisa, de fato, retomar essa questão sensível.”

A coordenadora do CAV diz que o Centro já avançou em alguns pontos, mas que precisa ser feito mais. “Acho que avançamos muito, principalmente nessa questão do nome social, quando o CAV iniciou não tínhamos no estado nada que garantisse a essas pessoas, que é o mínimo de dignidade, que sejam tratadas pelo nome o qual se identificam no serviço público e tudo”, explicou.

A procuradora contou que a luta de Dom fez com que eles percebessem que ainda que existe uma lacuna na prestação de serviço do SUS no Acre, que é a falta do atendimento especializado para pessoas trans e travestis. A partir do caso dele, as equipes acionaram a promotoria especializada, de Saúde e de Direitos Humanos, para também dialogar com o Estado e o município e tentar, de forma extrajudicial, que o serviço seja ofertado na rede pública.

“Para que isso aconteça para todo mundo, não só para ele, e se isso não resolver, vamos judicializar, instaurar inquérito, ação civil. É dessa forma que funciona. O que a gente observa é que isso não é prioridade. Acho que essa questão do preconceito contra a população LGBTQIA+ tem ficado muito mais forte e tem aumento, vemos isso nas redes sociais, os discursos de ódio, principalmente por parte do governo federal ,isso não é prioridade mesmo. É uma dificuldade a mais”, lamentou.

Grupo de atuação

A procuradora de Justiça acrescentou que o CAV montou um grupo de atuação, junto com a Procuradoria da República dos Direitos Dos Cidadãos, que também atua em defesa da população LGBTQIA+, para buscar no SUS as melhorias necessárias para garantir o atendimento para esse público.

“Ajustamos que primeiro vamos fazer um diagnóstico, vamos visitar com a equipe multidisciplinar do CAV que já tem expertise e já fez isso outras vezes, por exemplo, com a violência obstétrica, fizemos na maternidade uma inspeção. A ideia é que a gente possa gerar um diagnóstico para daí, então, estabelecermos um diálogo. Se não houver esse diálogo, vamos buscar isso via judicial, o que espero que não seja necessário”, concluiu.

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