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Semana de 22: clubes negros mostraram um Brasil além de A Negra, de Tarsila

Cordão carnavalesco Fica Ahí Prá Ir Dizendo. (Foto: Acervo do C. C. Fica Ahí Prá Ir Dizendo)

O mês de fevereiro de 1922 foi bastante agitado em São Paulo por conta do início daquele que viria a ser o marco do movimento modernista no Brasil, inserido na onda de vanguardas artísticas e literárias nas Américas, a saber, a Semana de Arte Moderna.

No sul do país, um ano antes, em decorrência da já tradicional festa de carnaval, outro evento inovador acontecia. Podia ser efêmero, mas não foi assim como não foi único, pois se inseriu em um costume. Refiro-me a experiências que pessoas negras vivenciaram em cidades do estado de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e do outro lado da fronteira, no Uruguai. Trata-se dos Clubes Negros, sobretudo urbanos, presentes no Brasil, no Uruguai e em outros países da América Latina.

A experiência anteriormente citada faz jus a cidade de Pelotas, localizada no extremo sul do Brasil, na região de fronteira com o Uruguai. E ocorreu em 27 de fevereiro de 1921, quando um grupo de jovens negros criou o cordão carnavalesco Fica Ahí Prá Ir Dizendo. O cenário da cidade, apesar de localizada no interior, diferenciava-se pouco daquelas que também experimentaram o auge econômico em decorrência de atividades vinculadas direta ou indiretamente à escravidão no século XIX e que no início do século XX via sua composição populacional alterar-se devido à imigração europeia.

O sul do Brasil, assim como São Paulo, que, também era sul naquele momento, presenciou o surgimento de clubes negros no final do século XIX. Na primeira metade do século XX, eles alcançaram seu pico de existências simultâneas, chegando a uma centena. Era por meio desses espaços que se ocupavam as ruas de forma organizada, mas também se reservava um espaço privado para a sua própria coletividade, por vezes nomeada como classe dos homens de cor. Ou seja, tratava-se de um espaço de pessoas negras.

É sabido que desde a 1ª Constituição republicana, de 1891, não há lei explícita de segregação racial no Brasil. Porém, havia outros subterfúgios para dissimular a exclusão de pessoas negras, como evidenciado no decreto n. 528, de 28 de junho de 1890, que barrava a livre entrada de africanos e asiáticos, enquanto a entrada de europeus, ou seja, pessoas brancas, era facilitada.

Com o fim da escravidão, o que vemos é a efetiva construção de uma estrutura estatal atravessada pelo racismo antinegro. Dentre tantos outros exemplos é esse entendimento que está na base do incentivo às políticas públicas de imigração europeia no país no pós-abolição, e mesmo antes da abolição.

As narrativas oficiais enquadravam os sujeitos negros no passado escravista. A experiência cotidiana os impunha espaços delimitados, tanto em termos de trabalho, quanto de lazer e de cultura. Não eram raras nas páginas da imprensa negra – jornais editados por pessoas negras desde o século XIX – denúncias de discriminação e efetivo racismo que impedia a entrada e permanência de pessoas negras em alguns espaços em decorrência da cor da pele.

Os clubes negros configuram-se num primeiro momento como uma resposta reativa à ideia de raça – racialização – e ao racismo que operava na sociedade brasileira. Ao desenvolver atividades que extrapolavam a festa e o lazer adquiriam a nomenclatura inicialmente popular e posteriormente oficial de clubes e foram muito além de uma reação à racialização e ao racismo. Fizeram de suas sedes espaço de circulação de culturas negras, que transbordavam os limites da nação e evidenciam que esses espaços não estavam isolados.

A experiência do racismo vivenciado nas Américas permitiu vínculos entre os sujeitos negros que faziam dos clubes espaços de luta política em prol da efetiva cidadania, que não fora simplesmente concedida com a abolição. É observando a história desses espaços hoje centenários que encontramos os indícios de como buscaram integrar-se à nacionalidade também em construção, demonstrando uma diferenciação em relação aos outros não nacionais tão presentes nessas terras marcadas pela imigração.

No Brasil, reivindicavam a pátria brasileira como sua e negavam qualquer exterioridade imposta, como por exemplo, ser identificados como africanos. Tratava-se de pessoas que nasceram no Brasil e entendiam-se como negros brasileiros. No Uruguai, o primeiro clube negro criado no país no século XX tem um nome e data de fundação elucidativos: Centro Uruguay, criado em 25 de agosto de 1923, a saber Dia da Independência do Uruguai. E, até o início dos anos 1940, teve como sua principal demanda frente ao Estado nacional a identificação de uma rua em cada cidade da nação com o nome de Ansina, fiel companheiro do herói da independência nacional, Artigas.

Foi ainda dentro desses clubes que se forjaram auto-referenciações positivas e distanciamentos dos enquadramentos externos. No Brasil os associados dos clubes negros referiam-se como coirmãos, frequentavam as festas nos clubes negros da mesma cidade e das vizinhas. No Centro Uruguay, localizado na cidade de Melo, próximo da fronteira com o Brasil, referiam-se por conrazaneos, ou seja, pessoas que compartilhavam a raça.

A saber a raça negra, positivada pelos próprios sujeitos principalmente a partir dos anos 30, o que deu base para fortalecer a iniciativa levada a cabo pela Frente Negra Brasileira (1931-1937) que teve uma filial em Pelotas, a qual junto da localizada na cidade de São Carlos, no interior de São Paulo, foram as únicas representantes interioranas da iniciativa, e que tinha nos clubes negros de Pelotas as associações protetoras da Frente Negra Pelotense.

Em período aproximado, mas no Uruguai, o clube de Melo era fiel apoiador do Partido Autóctono Negro (1936-1944). Circulavam ainda referências de culturas negras, com artistas e intelectuais, algo que se manteve ao longo dos anos e encontrou seu auge no final dos anos 40 e nos anos 50, com o lançamento de Piel Negra (1947), do poeta uruguaio Pilar Barrios, fiel colaborador do Centro Uruguay, do periodista cubano Nicolás Guillén, com uma vasta produção literária negra nas Américas, recepções à cantora Angela Maria e cantor Blackout, para determo-nos em alguns exemplos.

Tais exemplos, de tantos outros oriundos de pesquisas sistemáticas com os clubes negros, permitem que se afirme que homens e mulheres negras contemporâneos do movimento modernista à despeito da exclusão imposta e dos tantos enquadramentos forjaram uma inclusão a um só tempo política, cultural e ideológica em seus próprios termos.

No entanto, ainda assim, as imagens artísticas e literárias construídas tanto pela Semana de Arte Moderna de 1922 quanto pelo movimento modernista como um todo, fez a escolha pelo enquadramento naquele Brasil do passado, reforçando o mito da Negra (1923) que Tarsila do Amaral pintou: exótica, primitiva, sexualizada, robusta e disforme.

Parafraseando o samba enredo campeão da Estação Primeira de Mangueira (2019), não se trata de criticar a Semana de Arte Moderna ou o movimento modernista, mas sim de convidar a quem chegou até aqui a conhecer histórias que são “O avesso do mesmo lugar”, repletas de imagens com enquadramentos, cores e narrativas diversas evocadas por gentes que, desde um mesmo centenário, reivindicam outra história, construída por si. Que ainda não podem comemorá-la, pois a urgência da vida segue lhes imputando racismo e dores que fazem com que muitos desses clubes centenários estejam em vias de perder suas sedes. Mas isso é outro capítulo…desse mesmo avesso.

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