Semente de Marielle

A escritora e ativista Ana Paula Lisboa (Foto: Ana Branco / Agência O Globo)

No último dia 14 de setembro completaram-se 30 meses desde o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Não bastasse as dores da injustiça e maldade que se renovam todo dia 14, neste, as redes sociais me lembraram que no mesmo dia, há 4 anos, eu escrevia uma coluna de apoio à candidatura da Mari. Dizia o quanto era importante a sua decisão de concorrer ao cargo, de como a própria campanha já se mostrava diferente e de como me enchia de esperanças.

Dia desses acordei com uma mensagem da Mayara Donaria, um vídeo de Marielle na plenária, já eleita, citando meu nome e uma coluna que escrevi para o 20 de novembro de 2017. Em uma verdadeira aula que dura 5 minutos e 41 segundos, ela rebate o comentário do na época secretário de Educação, César Benjamin, que chamou de “idiotice racial” a luta do povo preto pelo reconhecimento da nossa história e por reivindicação de direitos. Eu fiquei honrada e emocionada porque ela começa me chamando de companheira, conterrânea, amiga.

Não é fácil assistir. Não é fácil pensar o que poderiam ter sido os quatro anos completos do mandato da Mari e o que seria do agora.

O que sabemos é o que o mostra o documentário “Sementes: Mulheres pretas no poder”, dirigido por Éthel Oliveira e Júlia Mariano. O filme que estreou no YouTube, acompanha e narra em 104 minutos as campanhas eleitorais de Mônica Francisco, Rose Cipriano, Renata Souza, Jaqueline de Jesus, Tainá de Paula e Talíria Petrone, todas mulheres negras candidatas a deputadas federais ou estaduais na última eleição, sete meses após o assassinato de Marielle. Mari levou outras mulheres para a política, não só para a candidatura, mas também para as outras camadas, antes mesmo de morrer. Seu gabinete, sua voz, seu trabalho inspiraram e inspiram tantas a ocupar esse espaço que incide diretamente sobre os nossos corpos. Sobre nossa saúde, mobilidade, expectativa de vida, educação.

Nos últimos meses assisti a vários filmes sobre política em países africanos, campanhas eleitorais, golpes, independências. De alguma forma, mesmo sendo documentários, é um pouco como assistir de longe a contação de uma história. Assistir a “Sementes: Mulheres pretas no poder” é ver minhas amigas e minhas irmãs, é sentir saudades da laje da Maré onde é gravada uma entrevista com Renata. É chorar com o encontro de Rose com Artur na porta da PUC, de ouvi-lo dizer “eu também sou de Caxias, sou bolsista aqui, eu votei em você”. É ouvir Tainá dizer que política é sobre encantar as pessoas. É me sentir contemplada pela percepção da responsabilidade coletiva que Mônica cita. É ver outra política acontecendo e saber que faço parte dela, dessas mulheres que levam a esquerda para a esquerda. Minhas conterrâneas.

Quatro anos se passaram, eu sigo escrevendo aqui esta coluna, sigo apoiando candidaturas pretas de mulheres, sigo confiando que estamos a criar uma forma para que deixemos de ser uma ocupação na política, mas uma permanência. Sigo acreditando na possibilidade, porque eu já fui um corpo impossível, que se tornou possível no meu acreditar e de outras e outros que vieram junto. Nossos corpos são possíveis em outros espaços, em outras cadeiras que não as cadeiras encostadas num canto da cozinha. É possível!

Eu sigo também com saudades da Mari, lamentando que, como semente, “tem que morrer pra germinar”. E sigo perguntando: quem mandou matar Marielle e Anderson?

 

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