Seqüestro à luz do meio-dia (ou como ser mãe em tempos de intolerância racial)

Meio dia de Sábado. É aquele dia dedicado às compras de super mercado, sobretudo para as mulheres que trabalham fora. Saí de casa com minha filha de quatro anos recém feitos e minha mãe, uma senhora aposentada por tempo de serviço que agora me presta valoroso favor de cuidar da neta. Sentia-me particularmente bem por estar entre duas gerações. Conversávamos sem muito compromisso de conclusão, comentávamos coisas gerais sobre o bairro, nada muito profundo, apenas observávamos que o comércio tem tomado as casas e quintais que antes pertenciam à famílias amigas. Afinal, minha família vive no bairro há 92 anos. Mantemos uma memória privilegiada – herança de muitas gerações.

por: Wania Sant’Anna*

Repentinamente, veio em nossa direção uma jovem trazendo pela mão um bebê de ano e meio, por aí. Uma gracinha de menina, daquele tipo de bebê que se quer apertar as bochechas: banho tomado, talco no pescoço, cabelo penteado com um rabo de cavalo que fazia um pequeno cacho no alto da cabeça. Ao passarmos por ela, parei e fiz um comentário com Flora, minha filha, sobre a pequena. “Que bebê bonitinho! Olha, ela não é bonitinha?” A este comentário, Flora respondeu com um silêncio de gelar o sol do meio-dia. Não dei muita importância. Crianças, com freqüência, reagem sem muito entusiasmo a esses comentários quando não dirigidos a elas. Como agravante, eu estava falando positivamente de outra criança.

Fiz um comentário com a mãe do bebê e avancei no meu caminho. Minha mãe silenciosa ao lado. Voltei ao assunto com Flora. “Ela não era bonitinha?” Flora saiu de seu silêncio excepcional para um comentário cortante. “Ela não é bonita. Ela é preta!” O sol gelou o meu coração.

Agachei até ela e a abracei, a abracei como meu bebê. Senti o peso de ficar calada quando a situação exige o máximo cuidado sem silêncio. Trouxe-a aos meus braços e dei alguns passos até perguntar qual era a cor dela, Flora. Ela respondeu: “Preta”. Em seguida perguntei: “A Flora é bonita?” Minha filha, criada em um meio em que todos dizem “minha pretinha linda” havia sido seqüestrada pela intolerância.

Não desisti e fui lembrando a ela, docemente, cada membro da família, nome a nome, e, ao mesmo tempo, perguntando se eles eram bonitos. Muito antes de a lista terminar, ela disse
que estava com sono. Isto sob o sol do meio-dia. Ah, um detalhe: ela havia acordado há menos de duas horas.

Se há algo do qual me orgulho é poder viver em uma família que possui uma positiva imagem do ser negro. Em casa falamos abertamente das nossas conquistas e do muito que temos por conquistar. Somos particularmente felizes por nos considerarmos bonitos. Algo mais que a beleza física, pois sobre esta temos consciência da perenidade, mas o contexto que reivindica a beleza negra. Sabemos que adquirimos auto-estima e respeito pelo que somos. Aprendemos a respeitar os nossos semelhantes.

Sendo assim, essa experiência pessoal veio negar a conduta familiar que continuo acreditando ser necessária: elevar a auto-estima é uma ação necessária. De qualquer maneira, Flora demonstrou ao menos duas outras questões. Primeiro, as ações no interior da casa precisam ser devidamente observadas. Talvez adequada aos limites que, como seres humanos, todos nós possuímos. Inclusive, os ativistas da chamada questão racial. Nada de fazer vale o ditado popular que diz: “casa de ferreiro, espeto de pau.”

A segunda, mais profunda e intimamente ligada a primeira, diz respeito ao fato de minha filha viver em uma sociedade que nega-lhe a possibilidade de observar o belo que nela existe. Com apenas quatro anos, ela já aprendeu uma face da intolerância: a racial.

Imagens, idéias e sentimentos

Somos assinantes do jornal O Globo. O jornal, a TV, as revistas, os livros didáticos, as frases populares, os ditados fazem parte da nossa vida. Lembro-me do espanto de Flora diante de uma foto que exibia o resultado do conflito político em Ruanda, no ano passado, onde os mortos eram coletados por uma enorme escavadeira. Ela me perguntou se “aquilo” eram pessoas. Sim, um dia foram vidas, embora, hoje, na foto, parecesse lixo. Eu vivi uma experiência difícil. Não sei como pode ter sido para ela. Pesou em mim o dado de serem corpos negros. Alguns diriam que há muitos brancos sendo exibidos nas manchetes. Na Bósnia, por exemplo. É verdade. Mas ali também está em jogo a intolerância e a total falta de respeito pelo ser humano.

Em janeiro e maio tivemos que conviver com outras fotos, aí brasileiras, cariocas para ser mais precisa. Nas operações de “repressão aos excessos da marginalidade” levada a cabo em zonas carentes do Rio de Janeiro (maioria negra), duas outras fotos. Duas jovens sendo revistadas, por baixo das mini-saias, por duas policiais igualmente negras. Segunda foto, mês de maio: um homem negro de costas, agachado e com a calça arriada. Sem preconceito moralista, sua nudez me imobilizou. Senti-me humilhada diante das duas fotos. Os corpos transgredidos – feminino e masculino- tocaram fundo. Não deixei de me perguntar o quão perto passei desta situação e o quanto ainda estou, realmente, “fora de risco”.

Vicentinho

Por outro lado, neste mesmo mês de maio, alegrei-me com Vicentinho. Ele raspou a cabeça (um ritual tão caro para os afros) em sinal de lembrança à figura mítica de Zumbi dos Palmares. Estamos comemorando os 300 anos de sua morte. Marketing? Um marketing estupendo para aqueles que querem diminuir o ato do incisivo e simbólico de Vicentinho. De 13 de Maio aos 20 de Novembro (Dia da Consciência Negra) ele manterá sua cabeça quase raspada. Nos jornais procurei afoita mais uma meia dúzia de palavras de Vicentinho sobre a sua atitude corajosa. Nada. Si-lên-cio! O que foi publicado secamente parece ter sido suficiente. Talvez não por acaso. Afinal, um ato como este praticado pelo presidente da maior central sindical do país, no meu entendimento, valeria uma manchete.

Enfim, tudo indica que esses fatos (não isolados) exigem reflexão. Aliás, Moacir Werneck de Castro, articulista político do Jornal do Brasil, lembrou indignado, em artigo recente (03/06/95), de um companheiro de profissão. Este teria manifestado, a pretexto de uma análise sobre a greve de petroleiros, o desejo de “meter a mão na cabeça raspada do Vicentinho”. Prosseguindo: “Eu daria uma chicotada para ver se ele reage docilmente como escravo.” Moacir Werneck, com muito bom senso, nos chama à razão, sugerindo que tenhamos menos saudade da escravidão, que recusemos de maneira fácil e sinistra a desmoralização do ser humano.

Se o que acontece com a população negra – na sua inequívoca posição de excluída – é resquício da escravidão, deve ser verdadeiro afirmar que a atitude da população branca em relação aos negros, lembrando-lhes o pior do regime colonial, se deve a sua vontade de se manter senhor. Se as formas utilizadas para manter uma soberania quase divina continuam sendo criar imagens e idéias que fazem uma menina de quatro anos solapar o carinho que seus iguais têm por ela, isto é grave, perverso e deve ser tratado com seriedade.

Suspeitos

Não me venham falar de sentimentos persecutórios de minha parte. Afinal, são freqüentemente os negros que são identificados como suspeitos. Mas é verdade que o fato de sermos considerados suspeitos privilegiados acaba nos deixando “espertos”, ou seja, questionadores de uma ordem que nos aponta, preferencialmente, como pólo negativo. A idéia de alma branca sugere problemas com a alma negra. A coisa estar preta, identificando dificuldades, sugere que o seu oposto seja a resolução ou a ausência de dificuldade. Alguns dirão: isso são detalhes. Mas a vida é feita de pequenos detalhes: festa de aniversário, bolas de gude, um bolo (para quem gosta), uma boa refeição. Pequenos detalhes. Os negativos pequenos detalhes são excelentes alicerces para a falta de ética e compromisso.

Não me venham falar da “questão de classe” e nem me citem o Pelé. Pois não se estabelece mudança de padrões e hábitos a partir da aquisição de bens e status. Estamos falando de direito, de acesso aos meios que até podem resultar em uma melhor posição social. Afinal, seria vergonhoso reivindicar apenas a ascensão social para uma mudança de atitude em relação à população negra. Assim, a noção de direito é mais exemplar porque vislumbra uma coletividade. Mas qual coletividade estaríamos nos referindo, dado o alto grau de miscigenação da população brasileira? É certo que sabemos exatamente identificar uma pessoa como negra ou quase. Não chega a ser difícil identificar onde se amontoam as carências e os carentes de direito no país. Não é preciso, neste caso, ter tanto palavrório para ter-se a coragem de criar uma ação afirmativa que de fato promova, do ponto de vista social e cultural, os descendente, negativamente atingidos, do regime escravocrata.

Se existe disposição para promover medidas irrestritas de constrangimento e suspeição, deve haver um meio para criar o seu antídoto. Falar sobre essas questões é um caminho. Neste sentido, as experiências pessoais podem, sim, ajudar em uma reflexão coletiva de pro parte de brancos e negros. Quero crer que isto se deva à democracia e às ações da população negra organizada, em seus movimentos específicos, ou não, que, ao denunciarem a farsa da democracia racial brasileira, reivindicam para o conjunto da sociedade uma atitude mais honesta e, portanto, menos hipócrita, quando ao seu passado e o seu presente.

Auto-estima

Sim, auto-estima é importante. Ela é importante desde quando se está no útero. Não é admissível nascer sob rótulos. Campanhas que identificam a maternidade das mulheres negras como problema nacional deveriam ser responsabilizadas, materialmente, dado a pobreza de seu argumento.

Os propagandistas que estigmatizam o valor intrínseco das pessoas de origem africana deveriam ser chamados à responsabilidade por não estarem promovendo o valor intelectual e cultural dessas pessoas. Não é digno aceitar que imagens e idéias intolerantes sejam preservadas em nome da liberdade quando estas limitam o potencial racional e emocional de milhões.

E minha filha, a Flora? Seguramente, sobreviverá. Reconheço o seu “desejo” de querer dormir. “Sim, nós iremos dormir, mas antes vamos falar um pouquinho das pessoas que te amam e te acham bonitinha.” Aliás, voltei a falar com ela sobre isto e lembrei-lhe o ocorrido. Ela reagiu bem, dizendo que o bebê da nossa história pessoal era bem “fofinha”. Parece que deste “seqüestro” à luz do meio-dia iremos todos nos salvar.

***

“A hora da visita acabou. Os pais beijaram Uana, prometeram vir buscá-la bem cedinho no dia seguinte e foram embora. A menina mais que depressa escondeu sua boneca embaixo do lençol, disfarçou, tentou brincar com outras coisas. Mas a sua cabeça não parava de pensar: ‘Não vou poder levar esta boneca na escola. Vão ficar gozando da minha cara. Vão chamar de boneca de piche que nem fizeram com a boneca de pano, bem pretinha, que a Rosa levou. Pior ainda: só vão deixar minha boneca ser a empregada na brincadeira de casinha. Nunca vão deixar ser a mãe ou a filha ou a avó.” Quanto mais Uana pensava, mais ficava com raiva: ‘Por que minha boneca só pode ser empregada, hem? Por que não pode ser também mãe ou filha ou prima ou tia, hem?

De Lia Zatz “Unna e Marrom de Terra” em “Salve 13 de maio? Escola, espaço de luta contra a discriminação”. Grupo de Trabalho para Assuntos Afro-brasileiros. São Paulo, Secretaria Estadual de Educação, 1988, pág. 9
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* Historiadora, à época assistente de direção da FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional). Este artigo foi originalmente publicado na revista Proposta, Ano 23, Junho de 1995, Nº 65, pp. 50-52

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