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“Ser a primeira trans paraibana a pisar no tapete vermelho de Cannes foi marcante”

Por Kátia Mello

O filme Bacurau, premiado em maio pelo júri no Festival de Cannes (França), Festival de Cinema de Munique (Alemanha) e Festival de Lima (Peru), chegou finalmente às telas brasileiras e por muito pouco não entrou para a lista do Oscar como melhor longa estrangeiro. A película é dirigida pelos cineastas pernambucanos Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, este último também diretor de “Aquarius”, que se tornou conhecido internacionalmente após um protesto em Cannes contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

“Bacurau” se passa num pequeno vilarejo do sertão nordestino, em que após a perda da matriarca, os moradores se dão conta que a cidade desapareceu do mapa. Sônia Braga é mais uma vez a protagonista do filme de Mendonça Filho que essencialmente fala sobre resistência. Como parte do elenco, está a primeira atriz trans paraibana que pela primeira vez pisou em Cannes: Danny Barbosa. Em conversa com a coluna Geledés no debate , Danny conta como foi contracenar com a atriz premiada Sônia Braga e o ator Silvério Pereira, ativista das causas LGBT+.

Danny Barbosa – Foto Instagram (arquivo pessoal)

Geledés – Você é a primeira atriz transexual paraibana a pisar no tapete vermelho do prestigiado festival de Cannes, com o filme Bacurau.  Como foi essa experiência e o que ela significa para atrizes negras e trans como você?

Ser a primeira atriz trans paraibana a pisar no tapete vermelho foi uma experiência marcante. Por ser negra, trans, nordestina, paraibana, e também professora do ensino básico, naquele momento, até inconscientemente, várias bandeiras estavam sendo erguidas naquele cenário. Isso foi de uma importância muito grande porque outras bandeiras, outras pessoas, outras histórias se vêem e se sentiram representadas.

Geledés – Como foram as filmagens de “Bacurau” e contracenar com grandes artistas do cinema brasileiro, como Sonia Braga?

O set de Bacurau foi maravilhoso, composto por uma equipe muito humana, sensível, delicada, atenciosa. Todos os adjetivos do mundo são poucos para qualificar a equipe do filme. Tivemos também o apoio da população da cidade de Parelhas e do distrito de Barra. Eles foram a cereja do bolo dessa coisa toda: pessoas delicadas, determinadas, disciplinadas com uma concentração e um respeito pelo trabalho que eles estavam ajudando a produzir. Conhecer e estar ao lado de Sônia Braga foi mais um sonho realizado. Sônia foi a primeira pessoa que vi no cinema, então era estar do lado de um ídolo e, ao mesmo tempo, de uma pessoa extremamente humana, acessível e doce.

Geledés – Como fez a preparação de seu personagem?

A preparação foi feita coletivamente e, em dois dias, com leituras e conversas com os diretores e roteiristas. Foi bacana porque nós estávamos entendendo as personagens, o universo em que elas vivem, nos compreendendo enquanto artistas que cara e que cor a gente poderia dar a essas personagens, e ao mesmo tempo, criando laços de afetividade entre os artistas. Depois que Bacurau voar, essas amizades serão mantidas, como estamos fazendo até agora. Virou uma coisa de irmandade.

Bacurau – Poster Divulgação

Geledés – Na mesma película, está o ator Silvério Pereira, um militante da causa LGBT. Como entende a participação dessa comunidade nas artes em um momento que a violência contra ela é crescente?

Contar com Silvério Pereira no elenco para mim também foi uma honra tão grande como ter Sônia Braga, Udo Kier, Buda Lira, Suzi Lopes. Já o tinha conhecido em 2015 com seu espetáculo BR Trans; senti por ele um carinho e respeito enorme. Vale salientar que Silvério não é um ator trans, mas é uma figura que milita. Não precisa ser trans para defender a causa trans. Silvério Pereira faz isso com seus trabalhos, quando divulga a sua imagem. Tê-lo ali, naquele momento, em um trabalho em que havia sido convidado a participar, foi importantíssimo para a causa LGBT+, tendo em vista que nós estamos no país que mais mata essa população. É mais uma mão para hastear o mastro dessa bandeira.

Geledés – O cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho se projetou internacionalmente ao realizar um protesto contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, durante apresentação de seu longa “Aquarius”, em Cannes.  Como vê a atuação do diretor no mundo do cinema?

Kleber Mendonça vem se destacando no cenário do audiovisual por seus trabalhos belos, bem produzidos, bem pensados, bem elaborados, bem executados. Ele é um nome de destaque pelo ser humano que é, pelo cidadão que é, pela visão de artista que tem, e pela sensibilidade em demonstrar seus trabalhos. É uma honra estar ao lado dele e vê-lo feliz por minha presença na película. Ele é o cara que projetou uma nação para o mundo. Kleber e (os cineastas) Karin Ainouz, que também esteve em Cannes e premiado com o filme “A Vida Invisível”, Tavinho Teixeira, da Paraíba e Gabriel Mascaro, de Pernambuco são nomes que estão reforçando a força e o ideal do audiovisual brasileiro, levando a arte à reflexão.

“Não precisa ser trans para defender a causa trans. Silvério Pereira faz isso com seus trabalhos, quando divulga a sua imagem. Tê-lo ali, naquele momento, em um trabalho em que havia sido convidado a participar, foi importantíssimo para a causa LGBT, tendo em vista que nós estamos no país que mais mata essa população”.

Geledés – Como foi sua trajetória até aqui?  

Até chegar ao set de Bacurau, eu passei anos ralando no teatro paraibano. Faço parte de um coletivo teatral, no qual atuo desde 2002. Desde 2001, estudo, pesquisa e tento dar o melhor de mim no palco. Estou há 18 anos no cenário teatral paraibano. Em 2016, por conta de um amigo que eu fiz graças ao teatro, fiz um teste para o curta-metragem “Hosana nas Alturas”, de Eduardo Varandas. A partir desse teste, aconteceu uma façanha. O roteirista gostou de duas atrizes e não queria perdê-las: uma delas era eu e a outra era Nika Barros, que se tornou a protagonista. Para não perder as duas atrizes, criou-se um outro roteiro e, consequentemente, uma outra personagem. Agradeço demais a Eduardo Varandas pela oportunidade. A partir daí, vieram outros trabalhos, como “Sol e Alegria”, do cineasta Tavinho Teixeira. Simultâneo a esse trabalho fui protagonista do filme de Bertrand Lira, “Seu Amor de Volta (Mesmo Que Ele Não Queira)”

Elenco de “Bacurau” (Foto: Divulgação)

Geledés – Quais cineastas admira?

Admiro o que tenho conhecido e convivido como Bertrand Lira, Tavinho Teixeira, Kleber Mendonça, Juliano Dornelles, Eduardo Mascaro, esse último um cara incrível com uma visãoavant garde. Vamos falar de Walter Salles, Cacá Diegues, Carla  Camurati. Qualquer um que respeite minha imagem, meu trabalho, minha arte e meu talento, receberei de coração se quiserem minha participação em sua obra. Toda a oportunidade que eu tiver para poder manter minha arte e o meu trabalho digno é importante, porque é muito mais simples para as pessoas medíocres da nossa sociedade verem uma travesti num ponto de esquina à noite se prostituindo, mas trabalhando não. Então, qualquer roteirista ou cineasta que componha um personagem e diga: vamos colocar Dany, Jane de Castro, vamos colocar Linda Quebrada, eles estarão nos dando visibilidade e estão dizendo: vocês são pessoas que merecem respeito, merecem trabalhar.

“Transferir para a travesti a função de prostituta como sendo a única profissão que ela deva exercer é um castigo; é torturante demais. Alguém pode dizer: travesti pode ser cabeleireira ou maquiadora. Mas e se eu quiser ser gerente de loja? E se quiser trabalhar em um banco? Ou ser professora? Essas portas precisam ser abertas”.

Geledés – Como vê seus planos futuros?

Quero seguir atuando, produzindo e aprendendo, desenvolvendo melhor meus talentos. Quero ver outras meninas trans e meninos trans inseridos no mercado de trabalho, seja no áudio visual, nas artes cênicas ou em outras áreas. O que não querem aceitar é que trans são pessoas que pagam impostos. E para pagar imposto, é preciso a gente trabalhar e não necessariamente sermos da prostituição. Podemos ser cidadãos que tenham a opção do mercado formal de trabalho. Não precisamos ser um bicho da noite, que só trabalha à noite, e só ganha dinheiro na clandestinidade. A gente quer, sim, um mercado de trabalho aberto. E ter a vida noturna para aquelas que a escolhem e não às que só tem essa opção. Transferir para a travesti a função de prostituta como sendo a única profissão que ela deva exercer é um castigo; é torturante demais. Alguém pode dizer: travesti pode ser cabeleireira ou maquiadora. Mas e se eu quiser ser gerente de loja? E se quiser trabalhar em um banco? Ou ser professora? Essas portas precisam ser abertas.

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