Sheron Menezzes: “Hoje as crianças negras têm em quem se espelhar”

Manusear panelas cheias de vatapá, caruru e camarão seco – recheios do acarajé, tradicional bolinho baiano de feijão-fradinho – já é fácil para Sheron Menezzes, nos bastidores da novela Lado a Lado. A atriz gaúcha de 28 anos também não se intimida quando precisa fritar a iguaria baiana no azeite de dendê, no papel da invejosa Berenice, uma vendedora de acarajé da Favela da Providência na novela das 6 da TV Globo. Sheron ainda serve acarajé aos colegas nos intervalos das gravações. A convite de QUEM, ela foi ao quiosque Oke Ka Baiana Tem, na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, para mostrar que sabe mesmo fazer o quitute. Atenta, mas já cheia de experiência, ouviu as orientações da baiana Raquel Santos, cozinheira do local. A atriz admite que aprendeu a gostar de acarajé com a novela. “Sou uma gaúcha que mora no Rio. Já tem toda uma diferença cultural, mas adoro a Bahia e muitas comidas de lá.”

A intimidade de Sheron com a culinária não é resultado de pesquisa, mas de um talento que desenvolveu por necessidade. A atriz mora sozinha no Rio desde os 18 anos, quando fez sua primeira personagem, a Júlia da novela Esperança (2002). “Sei cozinhar, gosto, mas não cozinho muito porque não tenho tempo”, diz Sheron, que tem como especialidades o churrasco, arroz de carreteiro, costelinha de porco e massas.

A mudança de Porto Alegre para o Rio foi a realização de um sonho que tinha desde os 15 anos. Não foi fácil. Depois que terminou seu primeiro contrato, havia guardado dinheiro para se sustentar até o próximo trabalho, mas acabou sendo vítima de um golpe. “Aluguei um apartamento e depois descobri que era um estelionatário. Adiantei todos os meses para o cara e fiquei sem dinheiro”, lembra a atriz, que precisou morar seis meses na casa de uma amiga. Passado o susto, a vida na Cidade Maravilhosa correspondeu às expectativas. “Eu amo o Rio. Domingo preciso andar na praia com meus cachorros, senão não é domingo.” Sheron sempre é vista andando de bicicleta, praticando slackline (espécie de corda bamba) em Ipanema, ou caminhando pelo Arpoador com o namorado, o empresário Saulo Bernard, 30 anos, e com os cachorros Batata Frida e Fidel Castrado. A atriz ainda tem um gato, o Tripé, que só tem três pernas. Com a vida e a carreira organizadas, Sheron ainda não faz planos para casamento, tampouco para filhos. “Sou tia. A Manuela tem 2 anos, mora em Porto Alegre, mas é um grude comigo. Aí dá para segurar um pouco a vontade de ser mãe. O relógio biológico bate e volta a ficar quieto.”

Senso de humor

Aos 10 anos de carreira, Sheron hoje admite estar mais à vontade com seu trabalho, em sua oitava novela, depois de ter passado por sucessos como Belíssima (2005), Duas Caras (2007) e Caras e Bocas (2009). Da época de colégio, quando era uma CDF assumida, manteve o alto grau de exigência, mas hoje já consegue relaxar um pouco mais. “Eu me vejo muito. Antes eu misturava atriz e personagem. Essa é a segunda novela que consigo separar. Assisto e falo ‘a Berenice é demais’. Só vejo a personagem.” Da Berenice, Sheron diz ter o jeito irônico de encarar as situações. A atriz, aliás, entende que o senso de humor nem sempre é bem interpretado. “Acho que tenho um jeito que incomoda as pessoas, mas é meu jeito de ser, de falar. Sou sincera, falo as coisas, não penso muito. É um defeito e uma qualidade.”

O jeito muito sincero também funciona como uma forma de proteção de sua timidez. A autoestima foi construída sob o olhar atento da mãe, a funcionária pública Vera, 55, que a preparou para enfrentar a vida. Em casa, sempre teve uma grande torcida: o pai, o contador Haroldo, 57, os irmãos Draiton, 23, e Drayson, 21, e a irmã caçula, Schena, 12. Vera sempre acreditou que a filha seria artista e a matriculou em um curso de modelo aos 14 anos. “Foi quando eu soltei o cabelo. Antes, usava trança. Parece que o cabelo me deu uma força. Soltei e passaram a me notar.”

Sheron, que chama a atenção pela beleza e o estilo – foi rainha da bateria da Portela por dois anos (2011 e 2012) –, na adolescência só usava moletom. Hoje, exibe um corpo escultural. “Sou uma pessoa completamente ativa, me perguntavam se eu malhava para o Carnaval, mas malho o ano inteiro porque gosto.” A rotina de atividades inclui musculação, corrida, ioga, pilates, e kickboxing. Já com a alimentação Sheron não é rigorosa. “Tenho uma vida saudável. Como muito e de tudo. Não faço dieta.”

Princesa Violeta

Dona de uma beleza tipicamente brasileira, neta de negro, índio e branco, Sheron conta nunca ter sofrido preconceito racial. “Sei que, antes de mim, Milton Gonçalves, Zezé Mota, Chica Xavier, Léa Garcia, Ruth de Souza lutaram e conquistaram o espaço para que eu possa dizer que não sofro preconceito.” Mesmo assim, ela sentiu a diferença racial ainda criança, pois não tinha uma princesa para tentar se espelhar. “Eu nunca podia ser nenhuma. Ouvia ‘ah não, a Branca de Neve não é negra. A Cinderela não é negra’. A criança fala, sem preconceito”.

Consciente de que podia ajudar outras meninas que viviam a mesma história, Sheron, então, decidiu desenvolver com a mãe o projeto Princesa Violeta, que hoje é apresentado em escolas do país. O livro, criado por Vera, conta a história de uma jovem guerreira negra e seu pai, mas não ressalta as diferenças raciais. A cor da pele é apenas um detalhe. “Agora é ainda mais fácil. As meninas de hoje podem não querer ser princesas, mas querer ser a Taís Araújo. Hoje, as crianças negras têm em quem se espelhar.”

 

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