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Sommeliers de movimento social

Epicentro da tragédia brasileira, qualquer pessoa de boa-fé tem de admitir, é a escravidão

Foto: Adams Carvalho

Já contei aqui. Em quase três décadas participando de eventos literários, raras foram as vezes em que não me perguntaram: “O que você acha da patrulha do politicamente correto?”. Até poucos anos atrás, nem uma única vez haviam me perguntado “o que você acha de piadas racistas/machistas/homofóbicas?”.

O que isso revela sobre o Brasil? Que, mesmo na bolha supostamente mais progressista –ou, ao menos, mais letrada–, considera-se que fazer reparos aos repúdios das minorias contra a discriminação é mais importante do que repudiar a discriminação. Seria eu, escritor branco, nascido numa família de classe média alta, educado em escolas particulares, quem estaria em apuros? Quem leu na última semana os textos do Antonio Risério, do Hélio Schwartsman e lê as recorrentes colunas do Demétrio Magnoli sobre questões raciais, aqui na Folha, fica com a impressão de que sim.

O epicentro da tragédia brasileira, qualquer pessoa de boa-fé tem de admitir, é a escravidão. Nenhum outro país sequestrou, escravizou, vendeu e comprou seres humanos na mesma escala. Ao longo de quase quatro séculos, cerca de cinco milhões de pessoas chegaram aqui acorrentadas e aqui morreram: 46% de todos os escravizados trazidos para as Américas. Para piorar: enquanto em 1865 os Estados Unidos juntaram à abolição a reforma agrária, o Brasil deu as costas para os ex-cativos. Ou as encostas: a diferença de melanina entre o morro e o asfalto, até hoje, é prova de que o racismo segue firme e forte entre nós.

“Uma nação bipartida entre ‘brancos’ e ‘negros’” não é, como afirmou Magnoli em sua coluna, uma invenção importada dos movimentos identitários norte-americanos. A divisão racial chegou aqui pelo Cais do Valongo e segue viva no olhar do segurança do shopping. É verdade que houve entre nós muito mais mistura do que nos EUA, mas ela não atenuou o racismo. Quando o Bope sobe o morro, sabe muito bem quem são os alvos (com duplo sentido).

Nas últimas décadas a luta antirracista brasileira foi influenciada, sim, pelo modelo americano. Não por modismo, mas porque as falácias paralisantes da mestiçagem redentora e da democracia racial dificultaram muitíssimo avanços contra o preconceito e a desigualdade. Se eu fosse negro e tivesse um filho, um irmão, uma mãe morta pelo Estado, como acontece todo dia com mais de dez famílias afrodescendentes, também iria recorrer ao Malcom X e não aos afro-sambas do Baden Powell com o Vinícius de Moraes.

Neste país forjado na escravidão, ferida que permanece aberta, afirmar que fazemos “vistas grossas ao racismo negro, ao mesmo tempo em que esquadrinhamos o racismo branco com microscópios implacáveis”, como fez Risério no último fim de semana é mais do que desonestidade intelectual: é vandalismo.

Sintoma do estágio primário do debate racial brasileiro é que tantos colunistas usem o espaço para defender a liberdade de expressão do vândalo (que jamais esteve ameaçada) e não para refletir sobre as consequências de textos desonestos como o de Risério na vida de metade da população que ainda está mais próxima da senzala do que da casa grande. Em vez de debatermos quais as formas de combater esta chaga, muitos de nós acham mais pertinente se portar como sommeliers de movimento social.

Do domingo passado até este sábado, caso os números do Fórum Brasileiro de Segurança Pública de 2020 tenham se mantido em 2022, enquanto se gastava papel, saliva e tempo discutindo esta imbecilidade de “racismo reverso”, 84 negros foram assassinados pelo Estado. Precisa de microscópio?

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