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Spike Lee: “Estou apenas a quatro gerações da escravatura”

Nova-iorquino volta a abordar as questões raciais,recordando em “O milagre em Sant’Anna”, que estreia hoje, quinta-feira, o papel dos soldados negros na II Guerra Mundial.

por JOÃO ANTUNES, do Jornal de Notícais 

Foto: Reuters

Spike Lee assina, em “O milagre em Sant’Anna”, o seu primeiro filme de guerra, homenageando os negros que participaram na Segunda Guerra Mundial, ao seguir quatro soldados da 92ª Divisão de Infantaria norte-americana que ficaram encurralados nos arredores da aldeia que dá o nome ao filme, depois de um deles ter arriscado a vida para salvar um miúdo. A história fictícia ancora-se no episódio verídico do massacre de Sant’Anna di Stazzema, cometido em Agosto de 1944 pelas SS, como retaliação pelas actividades da resistência italiana.

Por que razão colocou uma criança no centro da história fictícia?

Se olharmos para os filmes italianos da época, como “Roma, cidade aberta” ou “Libertação”, o tema central é o efeito da guerra numa criança. Quisemos fazer justiça a esses filmes.

Além desses filmes italianos, que influências teve?

Vi imensos filmes. Na realidade, o filme começa como “O dia mais longo”. Mas também vi “Os doze indomáveis patifes”, o “Último comboio”, do John Frankenheimer, o “Paris já está a arder?” Não me consigo lembrar de todos.

Mostrou esses filmes aos actores?

Vou contar-lhe uma história. Pusemos os actores num campo de treino a sério. Vieram 50 alemães para um campo, para fazerem de soldados nazis e 50 negros de Nova Iorque, para outro campo ao lado. Na primeira noite, juntámos todos e mostrámos “O triunfo da vontade”, da Leni Riefenstahl. Foi muito estranho, porque os alemães chegaram mais tarde e quando ouvi as botas deles no chão até me arrepiei…

Como foi a recepção ao filme?

O que me lembro é que, quando o filme acabou, não havia luz nas imediações e tive de ir às escuras para o meu quarto… Percebemos todos que aquela suástica não tinha sido uma brincadeira, foi mesmo a sério.

O filme é uma ferramenta que usa para mostrar o que os negros sofreram durante a Segunda Guerra Mundial?

É mais ou menos isso, mas não só. Houve cerca de um milhão de homens e mulheres afro-americanos envolvidos no esforço de guerra. E o cinema não tem reflectido isso. Lembro-me de, quando era pequeno, ter ficado felicíssimo quando vi os feitos do Jim Brown nos “Doze indomáveis patifes”.

Quando esteve em Itália, sentiu que essa memória estava viva?

Muitos idosos lembravam-se de cenas de guerra com soldados negros. Uma mulher confessou-me mesmo que se estava viva era graças a um soldado negro que a tirou dos braços da mãe e lhe deu uma injecção de penicilina. É uma história muito comovente.

Como se sentiu a filmar em Itália?

Foi muito comovente. Uma grande parte do filme foi rodada nos locais onde os episódios ocorreram. Reconstituir o massacre de Sant’ Anna, no próprio local onde ocorreu…Pode imaginar os fantasmas que estiveram presentes nos dois dias de filmagens.

Há um filme francês, o “Dias de glória”, que faz o mesmo que o seu filme, mas em relação aos árabes que lutaram pela França na Segunda Guerra Mundial.

Uma coisa boa que esse filme fez foi levar o Governo francês a reparar algumas situações, compensando algumas pessoas que tinham lutado pela França e não tinham sido reconhecidas. Mas estes filmes não são apenas para isso. O James McBride, que escreveu o romance, apresentou-me a vários soldados negros que ainda estão vivos.

Como é que eles estão? Ainda se sente marcas do passado?

Muitos deles, apesar de serem patriotas e amarem o seu país, ainda têm um travo amargo na boca. É preciso dizer isto: enquanto aqueles soldados estavam em Itália a lutar contra o fascismo, nos Estados Unidos, ainda havia segregação no exército. É um paradoxo. Ainda eram cidadãos de segunda classe no seu país.

Perguntou-lhes porque lutaram pela América?

Porque amavam a América. Os negros sempre se bateram pela América. É um facto histórico que o primeiro soldado a morrer na Guerra Revolucionária contra os ingleses era negro. E, ao mesmo tempo, muitos alemães que foram enviados para campos de prisioneiros nos EUA tinham melhores condições de vida, de saúde e de alimentação do que os negros que estavam a ser treinados para os matar. É de loucos.

Há alguma comparação que queira estabelecer em relação aos dias de hoje, às guerras de hoje?

Não há comparação entre a guerra no Iraque e a Segunda Guerra Mundial. Naquela altura, era a democracia ou o fascismo no Mundo. A porcaria que se fez no Iraque é outra história muito diferente. Foi a Segunda Guerra Mundial que fez o Mundo olhar para a América como o patrono da democracia. E desde então foi o que se viu. Todas as guerras em que estivemos envolvidas foram erradas. Tornámo-nos gananciosos, o dinheiro passou à frente de tudo. O poder corrompe.

Mas agora há um presidente negro nos Estados Unidos…

Ainda não se percebeu exactamente a importância desse facto. A minha avó morreu com 100 anos. Foi ela que me deu dinheiro para ir para a universidade. Nunca sonhou que a América podia ter um presidente negro. A mãe dela nasceu escrava. A escravatura acabou nos Estados Unidos em 1865. Não foi assim há tanto tempo. Estou apenas a quatro gerações de distância da escravatura.

De cada vez que faz um filme sobre este tema, há sempre alguma controvérsia que se gera…

Sempre que se faz um filme sobre um tema mais ou menos delicado, há alguém que tem uma opinião diferente. A vila do título chama-se Sant’ Anna. A 12 de Agosto de 1944, 500 civis italianos inocentes foram mortos pelos SS. Mesmo antes de começar a filmar, já havia uma pessoa que tinha um comentário a fazer sobre a forma como nós íamos mostrar esse episódio. Mas tenho de respeitar a opinião dele.

Também se pegou recentemente com o Clint Eastwood…

Não é nada pessoal. O Clint Eastwood é um grande realizador. Respeito muito o trabalho dele. Mas fez dois filmes sobre Iwo Jima e não há nenhum negro em nenhum dos dois. Não se vê nenhum em quatro horas de filme. Muitos veteranos de guerra negros que sobreviveram a Iwo Jima ficaram muito magoados com isso. O Clint Eastwood preferiu não os mostrar. Na visão dele, não existiram. Tenho uma versão diferente dos factos. E sei que ele tinha essa informação. Foi uma decisão consciente da parte dele.

Nos Estados Unidos, na televisão e no cinema, há quotas para mulheres, para negros, para homossexuais. Não é isso também um sintoma de segregação?

Não creio que Portugal tenha a mesma dinâmica do que a sociedade americana. Os problemas são diferentes. E eu sou daquelas pessoas que acreditam que é preciso fazer alguma coisa…

 

 

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