Taxação dos super-ricos tem que ser encarada de frente, diz Neca Setubal

Aos 73 anos, educadora e bilionária lança autobiografia, revisita bastidores da campanha de Marina Silva em 2014 e cobra debate sobre desigualdade por parte da elite

FONTEFolha de São Paulo, por Bianka Vieira
Neca Setubal na sede da Fundação Tide Setubal, em São Paulo Karime Xavier/Folhapress

Maria Alice Setubal diz que não saiu ilesa daquele 2014. O ano era de eleição presidencial, e Neca, como é conhecida, integrava o núcleo duro da campanha da então candidata Marina Silva. Juntas, varavam madrugadas discutindo estratégias e percorriam o país encampando o projeto político colocado à prova nas urnas.

Não foram poucos os reveses, e muitos deles são conhecidos publicamente. O acidente aéreo que matou Eduardo Campos (PSB), que tinha Marina como vice, e a campanha negativa do PT que culminou no derretimento dela nas pesquisas talvez sejam os mais emblemáticos. O que Neca traz à luz, agora, é o custo pessoal daquele pleito.

Passados dez anos, a educadora, presidente do conselho da Fundação Tide Setubal e integrante de uma das famílias controladoras do banco Itaú revisita bastidores inéditos da corrida eleitoral em “Minha Escolha pela Ação Social: Sobre Legados, Territórios e Democracia” (Tinta-da-China Brasil), autobiografia que será lançada por ela na próxima terça-feira (11).

Em uma das passagens, Neca conta que foi parar no hospital antes do primeiro turno de 2014. O diagnóstico? Estafa. “Dizer que foi fácil, não foi. Fiz terapia em 2015 e tudo”, afirma, aos risos, à coluna. Daquela época, diz não nutrir ressentimentos contra o partido de Lula (PT), a quem apoiou em 2022. “Depois que superei, sou página virada. De verdade.”

Neca Setubal na sede da Fundação Tide Setubal, em São Paulo – Karime Xavier/Folhapress

Neca conversou com a coluna no restaurante Oscar do Brasília Palace Hotel, durante uma visita à capital federal. Embora não fosse o caso naquela quinta-feira, ela conta que suas passagens por Brasília costumam incluir uma parada na sede do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, onde pode almoçar a sós com Marina, hoje chefe da pasta.

A relação com a amiga e a turbulenta campanha de 2014 são algumas das tantas histórias contadas por Neca nas 184 páginas que compõem sua autobiografia.

Sua reconhecida trajetória como educadora é esmiuçada cronologicamente, passando pela criação da pré‑escola Dominó, em São Paulo, pela fundação e consolidação do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária) e pelo extenso trabalho da Fundação Tide Setubal, iniciado em 2006 em São Miguel Paulista, na zona leste da capital, e depois ampliado.

Ao falar sobre seus laços familiares, Neca descreve o banqueiro Olavo Setubal como um pai severo e instigante, e a mãe, Tide Setubal, como uma mulher à frente de seu tempo e fiadora da educação dos sete filhos.

Da figura paterna, traz histórias como os encontros improváveis que doutor Olavo, como era conhecido, costumava promover entre executivos do Itaú e figuras à esquerda, a exemplo de Luiza Erundina, ex-prefeita de São Paulo e hoje deputada federal pelo PSOL, e João Pedro Stedile, dirigente do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).

“É um lado do meu pai que eu também redescobri. Ele trazia todas essas pessoas para almoçar, e sempre falava que, no banco, as pessoas precisavam abrir a cabeça, que o mundo era muito maior do que o Itaú. A política fez com que ele tivesse uma visão muito mais alargada do mundo. Ele queria que os executivos entendessem o Brasil.”

Além da carreira como banqueiro, empresário e engenheiro, Olavo Setubal foi prefeito biônico da cidade de São Paulo de 1975 a 1979, nomeado pela ditadura militar (1964-1985). Os laços com o regime e a Arena divergiam das preferências políticas de Neca, sua única filha mulher. Aprovada no curso de Ciências Sociais da USP (Universidade de São Paulo) menos de dois anos após a edição do AI‑5, ela aderiu a grupos ligados ao opositor MDB.

Neca diz que o período ditatorial foi “pessoalmente e emocionalmente difícil”, mas contemporiza ao falar de Olavo Setubal. “Meu pai sempre teve esse jeito de gostar das ideias diferentes, de entender o que o outro está pensando.”

Ela se recorda do dia em que foi à missa de sétimo dia de Vladimir Herzog, assassinado pelos militares em 1975. O então prefeito foi avisado por seguranças da presença de sua filha no local, ao que teria respondido: “Deixem ela”. “Ele era aquele conservador liberal. Acreditava muito no Brasil, no desenvolvimento, no espaço público. Hoje em dia, acho que quase acabou esse conservador liberal. Foi engolido, se radicalizou.”

Hoje uma septuagenária de 73 anos, Neca perdeu a mãe aos 26, em decorrência de um câncer. A educadora tinha dado à luz seu primeiro filho havia apenas 15 dias quando o óbito ocorreu. Tide tinha 52 anos.

“Foi um momento muito, muito difícil. Ela estava morrendo, e eu estava aprendendo a ser mãe, vivenciando o nascimento do meu primeiro filho. Era um pouco aquela sensação de que ela esperou ele nascer para morrer.”

A educadora diz que sua relação com a mãe, um pouco conturbada na juventude, foi ressignificada com o passar do tempo. “Ela tinha um lado muito artístico, era uma pessoa muito carismática, que lia muito, gostava de música, de artes plásticas. E era, ao mesmo tempo, muito vaidosa e muito bonita. Ela queria que eu me vestisse super bem. Comprava um monte de roupa e eu não gostava, não queria”, relembra, aos risos.

“Eu ficava brava. Na época, fazia Ciências Sociais, andava com calça jeans, lia todo ‘O Capital’ [de Marx]. Tinha esse tipo de conflito super bobo”, acrescenta.

“Ela foi uma mulher muito à frente [do tempo]. Eu não tive uma mãe submissa, embora ela tenha tido um marido muito forte. Ela sempre se posicionava, tinha as opiniões dela —que, muitas vezes, não eram as mesmas do meu pai. Na época, eu não tinha consciência de como isso foi importante para eu buscar o meu caminho.”

Ao se debruçar sobre a sua própria história, Neca deixa claro o incômodo que sente por seu nome ser comumente precedido pela alcunha de “herdeira”. Ela, que é bilionária, ainda questiona supostos rótulos associados à elite econômica.

“Sempre chegava primeiro o Setubal para depois chegar a Neca”, diz, ao falar sobre o peso de seu sobrenome e como ele ofuscava sua trajetória profissional. “Eu sempre tive que provar que era uma pessoa competente, que tinha conteúdo, que entendia de educação, que não era uma socialite metida a besta. Com os anos, isso deixou de ser uma questão.”

“As editorias [jornalísticas] me colocam como ‘a herdeira’. Às vezes, não põem nem meu nome [no título das reportagens]. Por ser mulher, eu apareço como herdeira. Mas os homens, não. Meu irmão José Luiz, que tem uma fundação, é médico, tem a filantropia, nunca foi herdeiro. Só eu que sou herdeira”, ironiza, rindo mais uma vez.

Ao comentar o fato de bilionários serem também um emblema da profunda desigualdade social, a educadora pondera que é da elite, mas que se responsabilizou, a vida inteira, por trabalhos de ação social dedicados ao desenvolvimento da sociedade.

Neca Setubal na sede da Fundação Tide Setubal, em São Paulo – Karime Xavier/Folhapress

“Eu sou a pessoa que está falando em justiça social e em, por exemplo, taxação de riqueza. A gente tem que ter um tributo progressivo, isso tem que ser encarado de frente. A filantropia é importante, [debater] a questão da pobreza é importante, mas isso não basta num país com as desigualdades que a gente tem.”

Neca afirma que se reunirá neste mês com a economista francesa Esther Duflo, vencedora do Nobel de Economia de 2019, autora de uma proposta de taxação dos super-ricos a nível global. A agenda é defendida pelo presidente Lula e pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e deve ser levada à cúpula do G20, em novembro.

“Isso é uma causa que eu estou querendo puxar. Eu não fico em um discurso vazio. Acho que a gente [da elite] tem que ser consequente nos discursos. Só assim vamos conseguir avançar e começar a mudar a cara da sociedade brasileira.”

Ao olhar para o Brasil de hoje com os olhos de quem viveu a redemocratização e participou do debate sobre políticas públicas para a educação, Neca diz ver o copo “meio cheio, meio vazio”. Se por um lado houve uma melhora notável na educação, diz, por outro o país teria estagnado em um patamar mediano.

“O lado vazio do copo é que ainda tem muito a ser feito em termos de qualidade. A gente avançou com o Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica], mas ele marca a média. E você consegue melhorar a média melhorando os melhores. Quem fica para baixo, continua para baixo.”

“Para você dar esse salto de qualidade, precisa ter classes menores, professores melhores, material didático específico, um grande esforço político. O país não vai dar o salto só com os melhores, com as Tabatas da vida que furaram a bolha [em referência à deputada federal Tabata Amaral, do PSB-SP]. É perverso. Você vai melhorando os melhores e vai deixando para trás os de sempre, que, em geral, são os pretos e pardos, na sua maioria.”

Neca se diz apreensiva com a proximidade do lançamento da autobiografia, mas afirma estar satisfeita por ter encarado a empreitada, que compara a uma sessão de psicanálise no divã. Depois de revisitar toda a sua história, diz não sentir nostalgia.

“Acho que eu tenho essa coisa de construção, sabe? De ver que a gente tem a responsabilidade de construir um país melhor. Parece um clichê, mas eu acredito nisso. Aquele país ‘certinho’ [do passado] não incluía as pessoas negras, não estava colocando todo mundo na escola. Não era um país de verdade. Nunca existiu.”

“Eu tenho 73 anos, e claro que gostaria de ter menos, mas não sinto saudades do tempo anterior. Nostalgia eu não tenho mesmo. Eu me gosto com a experiência que eu tenho hoje.”

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