Um negacionista no avião

Eu cochilei e acordei com os gritos, quatro comissários cercavam o passageiro, a loira falava bem alto e rápido, meu bad english só entendia ‘safety of the flight’

A escritora e ativista Ana Paula Lisboa (Foto: Ana Branco / Agência O Globo)

Parece um filme trash de uma realidade absurda.

A primeira cena é na fila do aeroporto, o Protagonista naquele estilo empresário do agronegócio: calça jeans apertada e blazer, sapato de couro de cobra. Parece que esse pessoal se agarrou nos looks do personagem do Fábio Assunção em “Rei do gado” em 1996 e nunca mais largou. Negacionista não tem cara, não tem roupa específica, corte de cabelo ou marca de sapato. Então o que me fez perceber foi quando o atendente da companhia aérea precisou sair do balcão para dizer:

— Senhor, por favor, coloque sua máscara.

Também tinha o fato de o Protagonista ter um amigo, o Escada, aquele que dá força, que não tem graça mas serve para que o outro possa aparecer.

Eu já havia perdido um voo, tinha fome e sede e só queria chegar em casa. Queria sentar no meu assento na janela e esperar que as 15 horas de voo até Dubai passassem bem rápido.

Mas não, os tais senhores estavam surpreendentemente no mesmo voo que eu e, pasmem, sentados na fileira da frente. Fizeram amizade com um outro brasileiro e seguiam falando alto como se fossem os donos do avião.

Sempre que acontece algo ruim, depois de praguejar, eu penso se deveria aprender algo com aquela situação, o que tem ali que eu preciso ver? Uma pista para o futuro? O único motivo plausível naquele momento era que eu precisaria escrever uma coluna esta semana.

Veio a primeira comissária, loira, bem magra, com uma aparência até frágil.

— Sir, wear your face mask.

O sir deu de ombros. Ela repetiu, desta vez com um olhar ameaçador. Ele sentou-se calmamente, colocou a máscara e deixou o nariz de fora. Ela virou os olhos e foi para o fundo do avião, eu tive a certeza de que ela voltaria com um porrete.

O voo atrasou, os senhores pediram uma cerveja ao comissário português, que fazia o personagem do policial bom, que sabia como lidar com brasileiros mal-educados. Deu a dica de que, se eles bebessem devagar, podiam dar a desculpa de estar sem máscara por causa disso.

Beberam rápido e continuavam sem máscara. Quer dizer, os outros dois acompanhavam com a máscara no queixo, enquanto o Protagonista nem sabia onde ela estava. Antes de decolarmos veio mais uma comissária, desta vez negra e com o olhar sorridente.

— Sir, wear your face mask.

— Give me a mask!

Lá veio a comissária loira novamente e entregou com sangue nos olhos a máscara ao passageiro, que a usou por dez minutos. Depois do jantar e outras bebidas, o clima esquentou. Eu cochilei e acordei com os gritos, quatro comissários cercavam o passageiro, a loira falava bem alto e rápido, meu bad english só entendia “safety of the flight”.

Os amigos, para acalmar o Protagonista, mudaram de poltrona e o deixaram sozinho, esparramado e bêbado nos três assentos, dormiu o resto do voo. Sem máscara.

Faltando uma hora para chegar, a comissária chefe veio falar com o Escada. Eu estava de fones e não quis parecer tão fofoqueira a ponto de tirá-los, por isso só captei as partes principais da conversa e as expressões desesperadas do amigo. Ele seria levado às autoridades de Dubai e possivelmente seria enviado de volta para o Brasil, por ter colocado o voo em risco.

Eu tive vontade de gargalhar, mas me segurei. O Protagonista acordou do seu sono de beleza, recebeu a notícia, colocou sua máscara e tentou disfarçar a aflição. Nesta hora pude ver que enquanto dormia ele ouviu no repeat o álbum “Dark side of the moon”, nada mais ficcional.

A última cena sou eu descendo e deixando os personagens para trás. Ouço Escada dizer ao Protagonista:

— Bota uma coisa na tua cabeça, teu santo é forte.

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