Você é racista?, por Caiubi Miranda

Você é racista?, por Caiubi Miranda

Caiubi Miranda

– Você também é nazista? Porque racista você certamente é!

Levei um baita susto quando vi que a pergunta era dirigida a mim. Na época – 2002 ou 2003 – eu era executivo de uma grande montadora de automóveis, com mais de vinte mil empregados.  Tinha, entre as minhas atribuições, a elaboração do jornal interno da empresa, dirigido aos empregados. No jargão das multinacionais, esse tipo de jornal chama-se “house organ”.

Quem me interpelava era um cidadão negro como carvão, enorme, forte… uma porta, como se diz.  Ele havia simplesmente invadido minha sala de trabalho apesar dos protestos da minha secretária. Vi, pelo uniforme, que era um operário da área de Fundição e pelo seu tamanho, pelo seu tom de voz e pela sua cara, por um momento tive certeza de que ia levar uma surra. Troquei um olhar com a olhar com a minha secretária e ela entendeu que deveria chamar a segurança.

Enquanto isso, eu ia tentar de acalmar o cidadão.  Pedi calma, convidei-o para sentar e pedi-lhe que me explicasse o que estava acontecendo, que eu não estava entendendo nada. Ele se identificou como Diretor de Igualdade de Oportunidades do sindicato dos empregados.  Então tirou do bolso um exemplar da última edição do jornal que eu editava.  “Essa edição – disse ele – tem 43 fotografias. Nenhum negro. E 54% dos operários desta fábrica são negros. Só posso deduzir que você é racista” concluiu ele. Repassamos juntos o jornal e vimos que ele estava errado: havia a foto de um único negro. Mas ele não admitiu o erro, disse que o fulano era só “moreninho” não era negro de fato.

Concordei com os argumentos dele. Não fazia sentido ter a foto de um único negro – ou de nenhum, segundo ele – entre as 43 fotos da edição. Justifiquei-me explicando como era o processo de elaboração do jornal. Tínhamos dois jornalistas na equipe. A reunião de pauta era na segunda-feira e o jornal circulava na sexta. Os dois jornalistas faziam as matérias, tiravam as fotos e traziam para minha aprovação uma a uma. Eu aprovava as matéria individualmente mas raramente tinha oportunidade de ver o jornal fechado, todas as matérias e fotografias juntas. Mesmo num jornal semanal, o ritmo é de correria.

E confesso: mesmo nas oportunidades que via o jornal pronto, jamais me atentei para o fato de haver ou não haver fotos de negros nas matérias. Eu não era racista e, portanto, não tinha nenhuma preocupação com isso.

O diretor do sindicato acreditou na minha sinceridade e absolveu-me do crime de racismo. Não sem antes combinarmos duas mudanças importantes nos procedimentos de edição do jornal. Primeiro, teríamos que garantir que tivéssemos pelo menos 50% de negros nas fotos publicadas.  Não era um número rígido, algumas variações eram aceitáveis em função das matérias.  Em segundo lugar, ele passaria a fazer parte das reuniões de pauta do jornal, na segunda-feira. Ressalve-se que ele nunca apareceu nas reuniões. Quando eu o encontrava pela fábrica e cobrava a sua presença, ele alegava estar muito atarefado. Mas nós garantimos, de nossa parte, que nunca circulasse uma edição com uma boa quantidade de empregados negros. E alguns orientais de quebra.

No final das contas, nós acabamos nos tornando amigos e ele garante que na verdade só queria me dar um susto. Conseguiu.  Nem ele nem eu trabalhamos mais na empresa mas às vezes nos encontramos para uma cerveja. E todas as vezes, nessas ocasiões,  ele faz questão de contar essa história para o resto da mesa, com seu vozeirão proporcional ao tamanho. Segundo ele, minhas mãos tremiam de medo… Puro exagero!

Um fato pitoresco é que, alguns dias depois desse evento, descobri que, na fábrica, ele tinha o apelido de “alemão”. A lição que tirei dessa história é que o racismo está tão impregnado na nossa sociedade que temos que estar atentos para não parecer racistas, mesmo que não o sejamos.

 

 

 

Fonte: Luis Nassif Online

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