W.E.B Du Bois: da luta pelos direitos civis à alma pan-africana

(Foto: Wikimedia Commons)

“A escravidão nunca foi abolida do modo de pensar dos EUA.”

Nina Simone

William Edward Burghardt Du Bois (W.E.B. Du Bois) – nasceu em 23 de fevereiro de 1868, Massachusetts, EUA. Anos após o término da Guerra Civil Americana (1861-1865), também conhecida como Guerra da Secessão. Aliás, a guerra foi o confronto entre os estados do Norte − industrializados e favoráveis à abolição da escravidão −, e os estados do sul, autoproclamados Estados Confederados da América − economia agrária e dependente da mão de obra escravizada. 

Os estados do Norte venceram e as consequências foram nefastas para os estados sulistas. Diante dessa situação, a população negra encontrou novos desafios na condição de libertos e sem indenização, procuravam modos de sobrevivência em meio à hostilidade dos brancos inconformados com a abolição da escravidão. W.E.B. Du Bois, testemunhando esses contextos que tomaram conta da atmosfera estadunidense, colocou-se como liderança na luta de seu povo. Para tanto, desenvolveu múltiplas atividades: editor, poeta, educador, sociólogo, historiador, pan-africanista.

No ambiente acadêmico, desenvolveu vasta experiência como aluno e docente, sendo o primeiro negro a obter o título de Doctor of Philosophy (Ph.D) na Harvard University (1895). Estudou na Fisk University, na instituição alemã Friedrich Wilhelm Universität, e lecionou nas universidades americanas Wilberforce e Atlanta. A relação estreita com a construção do conhecimento o possibilitou compreender a educação, desde os níveis iniciais até o superior, como instrumento necessário para a emancipação dos negros. Essa compreensão foi inegociável em toda a sua trajetória, causando divergência com o pensamento difundido pelo seu adversário político – Booker T. Washington − que priorizava o ensino técnico e não dava importância à luta por direitos. 

Como liderança política, atuou em várias frentes: denunciou as barreiras impostas pelo preconceito racial, o colonialismo, o sistema capitalista e a postura negativa de algumas lideranças afro-americanas. Escreveu editorial em favor do sufrágio feminino, condenou a intervenção americana no Haiti, a exploração econômica na Libéria e criticou o racismo nas forças armadas. Colaborou na organização do Niagara Movement (1905) e foi um dos fundadores da Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor – NAACP (1909). Criou a revista The Crisis (1910) e o grupo teatral Krigwa Players (1926) que tinha como foco a cultura negra. Dentre as obras publicadas, As Almas da Gente Negra (1903) o tornou conhecido nacionalmente e provocou efervescência na comunidade negra. 

Esse livro desnudou algumas faces do pensamento do afro-americano, partindo da própria experiência do autor. Em uma das passagens, W.E.B. Du Bois narra à primeira experiência como vítima do preconceito racial.  Na escola houve uma troca de cartões entre as crianças, e durante a brincadeira uma menina recusou o cartão que ele a entregara “então me ocorreu, com uma certa urgência, que eu era diferente dos outros; ou talvez semelhante no coração, na vida e nos anseios, mas isolado do mundo deles por um imenso véu” (DU BOIS, 1999, p. 53). O “véu”, utilizado como metáfora, passou a ser utilizado para explicar os dois mundos que separavam as pessoas negras das pessoas brancas. Os negros nasciam sob a sombra do véu, impedidos de construir uma identidade própria que não houvesse subjacente a vontade dos brancos, assim um “mundo que não lhe concede uma verdadeira consciência de si, mas que apenas lhe permite ver-se por meio da revelação do outro mundo”.(DU BOIS, 1999, p.54). Nesse sentido, W.E.B. Du Bois desenvolveu a idéia de “consciência dupla” acerca da complexidade da fusão do ser negro e ser americano, duas individualidades – duas almas – conflitando na autoidentificação.

É uma sensação estranha essa consciência dupla, essa sensação de estar sempre a se olhar com os olhos dos outros, de medir sua própria alma pela medida de um mundo que continua a mirá-lo com divertido desprezo e piedade. (DU BOIS, 1999, p. 54)

W.E.B Du Bois foi considerado o pai do Pan-africanismo e organizou o primeiro Pan-African Congress (1919), em Paris; outras edições ocorreram, também, sob a sua organização. Em 1961, solicitou admissão no Partido Comunista Americano, e nesse mesmo ano, a convite do Presidente gânes − Kwame Nkrumah  (1909-1972) − mudou-se para Gana. 

Em se tratando de pan-africanista, de origem norte-americana e que dedicou a vida na luta por direitos civis dos afro-americanos, foi simbólico a morte de W.E.B. Du Bois ocorrer no dia 27 de agosto de 1963. Afinal, era véspera da Marcha Pelos Direitos Civis, em Washington, liderada por Martin Luther King Jr. (1929-1968). Além disso, já havia se tornado cidadão de Gana, pavimentando caminhos para o encontro com os ancestrais, como declarou em 1961 “Meu bisavô, atado a correntes, foi arrancado do Golfo da Guiné. Eu voltei, para que o meu pó se misture ao pó dos meus ancestrais”. 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

DU BOIS, W.E.B. As Almas da Gente Negra. Tradução de Heloisa Toller Gomes. Rio de Janeiro: Lacerda, 1999.

GARVEY, Marcus. A estrela preta. S.l: Eu&Eu Realidade Rasta, 2013.

SILVA, J. C. S. da. Duas nações dentro de uma. Relações Internacionais, Lisboa , n. 41, p.155-159. Disponível: <http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_ arttext&p

id=S1645-91992014000100011>. Acesso em 23 ago. 2020


¹ Booker Washington: o ex-escravo da cara branca e defensor da meritocracia Disponível em: <https://www.almapreta.com/editorias/o-quilombo/booker-washington-o-ex-escravo-da-cara-branca-e-defensor-da-meritocracia>.  Acesso em: 24 ago. 2020

²  “(…) movimento social, anticolonialista como também nacionalismo Negro, destinado ao progresso, autoconhecimento e orgulho racial das populações africanas e afro-descendentes espalhados pelo mundo.”(GARVEY, 2013, p. 53) 

³ Shirley Graham Du Bois. A Pictorial Biography, Chicago: Johnson Publishing Company, 1978, p. 155.

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