Guest Post »
Zumbi e o revisionismo nada histórico

Zumbi e o revisionismo nada histórico

Venho já há algum tempo pensando em escrever sobre Zumbi e a polêmica que o cerca. Relutei por crer haver um nível de discussão mais elevado onde que eu um jovem professor e historiador não teria tanta relevância no que escrevesse. Entretanto notei em vários blogs e sites a predominância da tese do escritor Leandro Narloch presente em seu livro Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil. Inclusive sites mais digamos famosos citam Narloch além de historiadores dando respaldo para seu escrito. Como é de praxe eu desconfiei até onde Narloch tinha razão em suas postulações, uma vez que ele é jornalista. Trouxe alguns pontos para a discussão.

Por Rafael José Nogueira para o Portal Geledes

1. Algumas inconsistências

Logo no início do capitulo Zumbi tinha escravos temos a seguinte afirmação de Narloch:
“Zumbi, o maior herói negro do Brasil, o homem em cuja data de morte se comemora em muitas cidades do país o Dia da Consciência Negra, mandava capturar escravos de fazendas vizinhas para que eles trabalhassem forçados no Quilombo dos Palmares. Também sequestrava mulheres, raras nas primeiras décadas do Brasil, e executava aqueles que quisessem fugir do quilombo. Essa informação parece ofender algumas pessoas hoje em dia, a ponto de preferirem omiti-la ou censurá-la, mas na verdade trata-se de um dado óbvio. É claro que Zumbi tinha escravos. Sabe-se muito pouco sobre ele – cogita-se até que o nome mais correto seja Zambi -, mas é certo que viveu no século 17. E quem viveu próximo do poder no século 17 tinha escravos, sobretudo quem liderava algum povo de influência africana” (p. 45)

Narloch pensa ter descoberto a “verdadeira história” de Zumbi dizendo que o mesmo possuía escravos. Chega ao ponto de declarar que é algo obvio que muitos negam. Entretanto ao mesmo reconhece que sabe-se muito pouco sobre a figura de Zumbi, apenas que o personagem viveu no século XVII. Só por isso ele já deveria ter cautela ao postular afirmações categóricas sobre Zumbi. Faltam dados históricos e autores para sustentar essa tese. Parece-me mais suposições sem muito fundamento. Mais um entendimento pessoal do autor, do que uma hipótese sustentada em fontes. Depois tenta relacionar Zumbi com os senhores de escravos afinal quem estava próximo ao “poder no século XVII tinha escravos” para ele. Tenta igualar Zumbi a um senhor de engenho do século XVII, com o “argumento” de que se Zumbi estava na sociedade escravocrata e era normal ter escravos e ele também deveria ter os seus. Não é necessário ser especialista em história africana para saber que a vida de um senhor de escravos era bem antagônica de um Quilombo e sobretudo de Zumbi. Um queria escravizar para atender os seus interesses econômicos e o sujeito que era submetido a escravidão queria sua liberdade. Se Zumbi fosse de fato um escravocrata era muito mais vantagem trazer ele para o lado dos escravocratas como aliado do que como inimigo. Combater ele e o Quilombo onerava demais a coroa. Nunca é demais lembrar que no sistema escravista o negro só tinha um lugar: o de escravo. É tradição de deturpadores usar casos isolados de negros ricos para dizer que na escravidão nem todos estavam submetidos a escravidão. É muita ingenuidade pensar que o negro escravizado sairia do jugo de um senhor para outro.

Seguindo com a análise, Narloch tenta mais à frente fazer uma análise da mentalidade de Zumbi:
Os abolicionistas apareceram um século depois de Zumbi e a 7 mil quilômetros da região onde o
Quilombo dos Palmares foi construído. É difícil acreditar que, no meio das matas de Alagoas, Zumbi tenha se adiantado ao espírito humanista europeu ou previsto os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução Francesa. É ainda mais difícil quando consultamos os poucos relatos de testemunhas que conheceram Palmares. Elas indicam o esperado: o quilombo se parecia com um povoado africano, com hierarquia rígida entre reis e servos. Os moradores chamavam o lugar de Ngola Janga, em referência aos reinos que já existiam na região do Congo e de Angola. Significa ”novo reino” ou ”novo sobado”. (p. 46)

Obviamente Zumbi não tinha exatamente o mesmo pensamento europeu até por que não tinha contato com europeus ou viveu algum período no continente europeu. Isso não impede ele de ter tido ideias libertarias frente ao que o negro sofria nesse momento. Os negros pensavam em formas de liberdade desde o seu aprisionamento nos navios negreiros. Palmares era uma alternativa plausível. Repito é ingenuidade pensar que um negro escravizado iria correr todo o risco que envolve uma fuga para chegar Palmares e novamente ser escravo de outro senhor. Aliás é um estereotipo que leva a pensar que os negros não passavam de simples indivíduos passivos e amorfos. Talvez um pouco de eurocentrismo guie esse pensamento. Novamente Narloch cai em contradição quando diz haver poucos relatos de testemunhas que chegaram a conhecer Palmares. Para tentar dar sustentação a sua ideia de que era impossível Zumbi ter um pensamento avançado fala que o Quilombo se assemelhava a um povoado africano. Antes de tudo não temos nada fora do comum. É extremamente normal que os negros trouxessem sua cultura e uma vez organizados em um espaço reproduzissem seu modo de vida. Assim como com os imigrantes europeus. Narloch só não se atentou a um pequeno detalhe: existe uma grande diferença entre um negro vivendo no continente africano e um negro que foi escravizado e vislumbrou o Quilombo como alternativa de liberdade.

No parágrafo seguinte Narloch traz para a discussão Ganga Zumba, vamos ver o que fala:
Ganga Zumba, tio de Zumbi e o primeiro líder do maior quilombo do Brasil, provavelmente descendia de imbangalas, os ”senhores da guerra” da África Centro-Ocidental. Os imbangalas viviam de um modo similar ao dos moradores do Quilombo dos Palmares. Guerreiros temidos, eles habitavam vilarejos fortificados, de onde partiam para saques e sequestros dos camponeses de regiões próximas. Durante o ataque a comunidades vizinhas, recrutavam garotos, que depois transformariam em guerreiros, e adultos para trocar por ferramentas e armas com os europeus. (p. 46)

Aqui o autor apresenta um pouco sobre o tio de Zumbi. A estratégia é atrelar as ações de Ganga com Zumbi. É buscado inferir que a personalidade do tio era seguida por Zumbi. Reparem que o autor não mostra certeza sobre a linhagem de Ganga ao usar o termo “provavelmente”. Típico de quem se ancora em conjecturas.

Vamos agora para a parte que seja talvez a que mais gere discussão:
Para obter escravos, os quilombolas faziam pequenos ataques a povoados próximos. ‘Os escravos que, por sua própria indústria e valor, conseguiam chegar aos Palmares, eram considerados livres, mas os escravos raptados ou trazidos à força das vilas vizinhas continuavam escravos’, afirma Edison Carneiro no livro O Quilombo dos Palmares, de 1947”. (p. 47)

Seguindo uma linha de raciocino se os negros escravizados vindos pela força ou pela captura eles eram escravos dentro do Quilombo. Contudo eram escravos do seu senhor e não do Quilombo. É um erro tentar ver negros sendo escravizados em Palmares da mesma forma que era nas fazendas dos senhores de engenho. Todavia era normal que tivessem escravos roubados desses senhores no Quilombo. Diante da situação que muitos se encontravam, ser raptado era uma salvação. Como se resolvia a questão? Os que vinham pela força eram recrutados para os combates e não escravizados novamente como Narloch tenta nos induzir a pensar. Edison Carneiro em seu livro “O Quilombo dos Palmares” – referência usada por Narloch – apresenta o meio usado para resolver a questão que funcionava da seguinte forma: o negro escravo que foi roubado caso trouxessem um negro também escravizado ao Quilombo ganhava a alforria. Foi uma maneira inteligente para fortalecer a luta contra a escravidão e ter mais negros libertados. Era um sistema de interdependência, onde cada um dos negros cativos trabalhava para garantir a liberdade de seu companheiro. Assim enfraquecendo o inimigo que objetivava destruir o Quilombo.

Claro que havia punição conforme alguns autores nos falam para desertores. Entre eles Mario Martins Freitas:
Foi criada a justiça (em Palmares), com um ministro, e tribunais julgadores em todas as cidades, e ninguém era morto impunemente antes de ser julgado. Havia pena de morte para os desertores secundários, e pena de escravidão para os primários; a mesma pena de morte era aplicada àqueles que atentassem contra a moral social e o defloramento. (Mario Freitas em “Reino Negro de Palmares”)

Como podemos entender os desertores pela segunda vez eram mortos depois de um julgamento. E a escravidão para os desertores primários. É importante dizer que essa escravidão não era nos moldes dos senhores de engenho. Era uma punição pelo crime de desistência para preservar a ordem. Nesse ponto Narloch pode afirmar que o Quilombo estava inserido dentro de um contexto e não fugia a regra.

Interessantemente se o leitor notar que nos últimos parágrafos falamos de Palmares e não de Zumbi. É preciso portanto separar na discussão o que pertence a Zumbi e o que é relacionado ao Quilombo dos Palmares. Por isso Narloch erra em misturar tudo para de forma forçada insistir que Zumbi era escravocrata. No mais Narloch faz algumas afirmações sem fundamento e não merecem que sejam apresentadas. Ele admite mais uma vez que não tem subsídios para bater o martelo sobre Zumbi: “Não dá para ter certeza de que a vida no quilombo era assim mesmo, mas os vestígios e o pensamento da época levam a crer que sim.” (p. 48). Desnecessário eu comentar essa fala, não quero me tornar repetitivo. Veja leitor novamente está se falando do Quilombo e não de Zumbi.

2. A Armadilha ideológica

Eu admiro a tentativa do autor em buscar fazer uma discussão teórica da historiografia sobre Zumbi e Palmares. Infelizmente falta muito para ele, vejamos:
Não dá para ter certeza de que a vida no quilombo era assim mesmo, mas os vestígios e o pensamento da época levam a crer que sim. Apesar disso, Zumbi ganhou (um retrato muito diferente por historiadores marxistas das décadas de 1950 a 1980. Décio Freitas, Joel Rufino dos Santos e Clóvis Moura fizeram do líder negro do século 17 um representante comunista que dirigia uma sociedade igualitária. Para eles, enquanto fora do quilombo predominava a monocultura de cana-de-açúcar para exportação, faltava comida e havia classes sociais oprimidas e opressoras (tudo de ruim), em Palmares não existiam desníveis sociais, plantavam-se alimentos diversos e por isso havia abundância de comida (tudo de bom). (p. 48)

Bom, reduzir a figura de Zumbi apenas como mera construção de intelectuais marxistas precisa ser repensado. O leitor desavisado pode concluir que não existem outros autores e que os três citados no trecho resumem todas as referências sobre Zumbi, Palmares e outros temas envolvendo a escravidão no Brasil. Na era da pós-verdade pode-se questionar tudo menos que havia uma classe que era explorada e outra que se servia dessa exploração. Isso é admitido tanto por marxistas como por liberalistas. Não é invenção de militantes da esquerda.

Desesperado e sem muito material para acusar Zumbi de senhor de escravos ele tenta focar na chance de seu nome cristão Francisco ter sido inventado por Décio Freitas, bem como seu local de nascimento:
A imaginação sobre Zumbi foi mais criativa na obra do jornalista gaúcho Décio Freitas, amigo de Leonel Brizola e do ex-presidente João Goulart. No livro Palmares: A Guerra dos Escravos, Décio afirma ter encontrado cartas mostrando que o herói cresceu num convento de Alagoas, onde recebeu o nome de Francisco e aprendeu a falar latim e português. Aos 15 anos, Atendendo ao chamado do seu povo, teria partido para o quilombo. As cartas sobre a infância de Zumbi teriam sido enviadas pelo padre Antônio Melo, da vila alagoana de Porto Calvo, para um padre de Portugal, onde Décio as teria encontrado. Ele nunca mostrou as mensagens para os historiadores que insistiram em ver o material. (p. 48)

Caso Narloch fale a verdade no trecho o nome do Zumbi e o local de seu nascimento podem ter sido inventados. Nada mais do que isso. Dessas supostas alterações da história de Zumbi Narloch tenta de forma infeliz enfiar goela abaixo que ele tinha escravos e para não perder a viagem desmerecer o líder negro e o Quilombo. Como é comum de pessoas não ligadas a história analisa-se as fontes isoladas e não no seu conjunto. Em outras palavras generaliza-se a partir de um vestígio.

Narloch ao citar Andressa Barbosa dos Reis para tentar caracterizar a influência marxista na construção da imagem de Palmares, não percebe ou finge não perceber que a mesma autora coloca nesse rol Edison Carneiro, um dos autores usados por ele para dar embasamento sobre sua afirmação de terem escravos no Quilombo. Nas palavras de Andressa:
No início da historiografia marxista estariam seus escritores muito próximos aos membros dos Institutos Históricos. Como foi o caso do alagoano Alfredo Brandão, que teria presidido o Instituto de Alagoas e depois passou a explorar o episódio do Quilombo ao lado dos autores Arthur Ramos e Edison Carneiro, precursores do marxismo na historiografia de Palmares. (REIS, 2004, p. 73)

Se há uma lógica no texto de Narloch ele com certeza não usaria um escritor marxista que inventou um Zumbi e um Quilombo. Poderíamos terminar aqui tamanho paradoxo. Prefiro explorar mais um pouco sobre o trabalho da pesquisadora Andressa que merece respeito.

Se o autor tivesse lido com mais atenção a dissertação quem sabe chegasse até o capitulo 3 que trata justamente da historiografia de Zumbi e dos Quilombos. Vou transcrever na integra um trecho sintomático das condições de produção dos historiadores:
Nas décadas de 1930 e 1940 verificou-se a emergência dos estudos que privilegiavam a investigação da cultura negra na sociedade brasileira. Os estudiosos Arthur Ramos e Edison Carneiro foram os autores que mais utilizaram a temática palmarina, como objeto de análise das discussões que vinham sendo desenvolvidas em torno do conceito de aculturação. Este conceito abarcaria o processo de desagregação e assimilação cultural, que o negro vivenciava desde a sua partida da África, até o cativeiro no continente americano. Deste modo, os quilombos eram considerados um local privilegiado para convivência de práticas culturais diferentes, pois, segundo Arthur Ramos e Edison Carneiro, a população de Palmares seria caracterizada pela variedade de raças. Contudo, estes estudos foram prejudicados pelo cenário político de meados do século XX, como muitos destes pesquisadores eram comunistas estiveram por muito tempo sob a vigilância do Estado Novo, o qual proibira a manifestação de ideais marxistas a partir de 1935. (REIS, 2004, p. 101)

Nesse ponto podemos perceber que a época esses estudiosos tiveram suas pesquisas colocadas diante de barreiras impostas pela vigilância do Estado Novo. Todavia que fique claro não houve novas descobertas ancoradas num corpo documental consistentes ou surgiram novos dados, apenas a restrição de seus estudos por conta de suas ideologias.

Andressa no mesmo capítulo comenta sobre o livro “O quilombo dos Palmares” de Edison Carneiro que como foi dito, é usado por Narloch:
Foi através desta obra que a imagem de Zumbi consolidou-se na historiografia. Edison Carneiro canalizou todas as alterações que vinham ocorrendo desde o início do século XX, visto que neste primeiro momento ainda era posta em dúvida a existência de Zumbi. No presente texto, o autor congregou as informações dispersas sobre Zumbi na historiografia e na cultura popular. (REIS, 2004, p. 110)

Dito de outra forma, Edison Carneiro mesmo sendo marxista não inventou nada. Ele apenas juntou as fontes que estavam desorganizadas sobre o tema e sintetizou a história, provando que Zumbi existia.

3. Considerações finais

O capitulo é o estupro da verdade histórica do início ao fim. Leandro Narloch não mostra consistência em seus argumentos, muito menos um corpus documental que dê base para suas afirmações. Mistura a história do Quilombo dos Palmares com a história de Zumbi ou ainda tenta projetar no líder negro a personalidade de seu tio. Desesperado esforça-se para criticar a historiografia marxista e cai na armadilha de citar exatamente o autor considerado precursor do marxismo.

Se eu como historiador tenho alguma autoridade digo sem meias palavras que o capitulo analisado é uma busca tola e fracassada de desconstruir a figura de Zumbi. Não há evidência concretas que Zumbi tinha escravos a seu dispor. Caso tenha ocorrido não foi nos moldes europeus como já foi mencionado e finalmente foi um sistema do Quilombo e não de Zumbi. Ao contrário de que alguns possam pensar não sou contra que o livro seja lido. Acredito que é lendo e analisando podemos acabar com essa farsa de um autor contaminado pelo ódio a uma ideologia.

4. Referências

Andressa Barbosa dos Reis. Zumbi: historiografia e imagens. 2004.

Edison Carneiro. O Quilombo dos Palmares. 1958.

Leandro Narloch. Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil. 2009.

Mario Freitas. Reino Negro de Palmares. 1988.

Related posts