Sobre apropriação cultural e 10 rappers negras que você provavelmente não conhece

A apropriação cultural está aí e não é de hoje. Vem lá do passado, com a preferência pelo Elvis Presley, a “simpatia” pelos Beastie Boys, Eminem, Iggy Azalea, Miley Cyrus, Macklemore, e por aí vai.  Digo simpatia entre aspas pra realmente problematizar a questão: as pessoas querem consumir a cultura negra, elas querem ouvir música negra, mas não na voz dos negros. Elas querem ouvir na voz dos brancos. Isso fica mais em evidência quando se analisa os fatos. Por exemplo, o favorito pelo público para ganhar o Grammy desse ano era Kendrick Lamar com o disco “Good Kid, M.A.A.D City”, porém quem acabou levando foi Macklemore com “The Heist”. E hoje a rapper que está mais em evidência é Iggy Azalea, uma branca loira.

Por Maria Cláudia Reis, do Na Fumaça 

mileycyrus

Mas esse fenômeno não é tão recente assim. Em 2013 Miley Cyrus levou a situação a outro patamar com o single “We Can’t Stop” e suas diversas performances polêmicas. No vídeo, Miley aparece usando os negros como acessórios pra deixar o clipe com mais autenticidade. Muitas pessoas, inclusive, chegam a afirmar que ela foi a responsável por criar a dança “twerk”, que na verdade foi introduzida à cultura do hip-hop em Nova Orleans na década de 90. Cyrus também declarou que queria atingir “um som negro” na produção do disco Bangerz, e quando se escuta o disco, você nota as referências às drogas, e esse projeto de dentadura de dentes de ouro (grillz). Não fica difícil perceber como é problemática a visão dela sobre que é o negro norte-americano

Falando em estereótipos e a visão sobre os negros, temos também o novo clipe de Taylor Swift “Shake it Off”, que chegou a ser criticado pelo rapper membro da OFWGKTA, Earl Sweatshirt. No clipe, alguns negros estão sempre em segundo plano, e a visão de estereótipos é clara. A mulher negra, mais uma vez, é colocada como objeto sexual, rebolando sua bunda em frente à câmera, close no rosto quase inexistente. Ao contrário das bailarinas brancas. Inclusive, na cena das bailarinas, não encontrei uma negra.  Será que o diretor pensa que o negro não é sofisticado o bastante pra dançar balé?  A reprodução desses estereótipos resultam em consequências alarmantes na sociedade e colabora com a opressão.

Voltando para Iggy Azalea: “Fancy”, uma parceria dela com Charli XCX, é outro exemplo. Se você mora no planeta terra, certamente já deve ter ouvido essa música em alguma festa, no supermercado, no rádio… Iggy, inclusive, tem se tornado a rapper feminina “queridinha” de muito branco (a) que eu conheço, por ser “cool”, por ser… Branca. Ela também tem sido a líder de indicações em disputas de prêmios.

Sempre vejo brancos se vestindo como na cultura negra, porém a conotação é diferente dependendo de quem vem, assim como na música também. Tendo como exemplo as correntes de ouro enormes que rappers negros fazem questão de ostentar nos vídeos e nas letras, Questlove, membro do The Roots declarou: “quando os escravos foram libertados, eles passaram a existir politicamente, mas também economicamente. Possuir coisas era uma maneira de provar que você existia –desta forma, possuir muitas coisas, provaria que você realmente existe. O hip-hop, com sua obsessão por possuir, tenta renegar a ideia de que você é tão nulo economicamente que não existe na sociedade”.  E é sobre isso que se trata o hip-hop, história, cultura, opressão.

Às vezes fico imaginando quantas bandas com membros negros, cantores que não tiveram o seu trabalho reconhecido no passado só pelo fato de eles serem negros. Levando em consideração toda essa apropriação cultural desenfreada e o desinteresse por boa parte do público envolvendo esse assunto, fiz um apanhado de rappers negras que merecem credibilidade e reconhecimento. Sim, sim, a Nicki Minaj é importante, a M.I.A. também, mas elas já são reconhecidas, hoje falarei de outras.

ANGEL HAZE:

Tem 22 dois anos, nasceu em Michigan. Começou a escrever aos 11 anos e a ideia de que suas anotações poderiam ser letras só ocorreu-lhe recentemente, quando um amigo abriu seus olhos para a possibilidade de transformar seus poemas em raps. Ela lançou seu primeiro EP “Reservation” em 2012 e tem sido destaque em vários blogs e sites de música, incluindo onUrbanSteez, Unsigned Hype, HotNewHipHop, Pound Magazine, e The Fader.

Influências: “Eu realmente não tenho muitas. Só fui inspirada pela destruição, tristeza, experimentando o que é sofrer.”

RAPSODY:

Tem 26 anos, começou sua carreira musical em sua cidade natal de Snow Hill, Carolina do Norte. Ela já lançou cinco mixtapes e esse ano lançou o EP “Beauty And The Beast”. Sua presença de palco explosiva lhe rendeu elogios de alguns veículos da mídia como Vibe, XXL e HipHopDX . Suas rimas são melódicas e contagiantes.

Influências: Michael Jackson, Jay-Z, Lauryn Hill, e 9th Wonder.

FM SUPREME:

Ou Jessica Disu, é uma ativista da paz de 25 anos bem conhecida em sua cidade natal, Chicago. A mina já dividiu o palco com a Lupe Fiasco, MC Lyte, e Common. Nas suas músicas ela aborda uma série de problemas sociais crescentes em Chicago. Suas rimas são inspiradoras.

DOMINIQUE YOUNG UNIQUE:

A ex-modelo tem 23 anos, virou rapper e lançou seu primeiro EP “Hot Girl” em 2009, seguido por três mixtapes em 2010 e 2011. Seu estilo é um rap com batida eletrônica perfeito pra dançar. Já foi elogiada pela Dazed and Confused, Pitchfork  e NME. Atualmente assinou contrato com a Sony Records.

HONEY THE HIPPIE:

A rapper de 19 anos nasceu em Detroit, foi criada em Central Florida, e atualmente está em Houston.  Depois de ganhar um punhado de competições de poesia até 12 anos, ela decidiu levar isso a outro nível e então começou a escrever rap. Sua mixtape lançada em 2013, intitulada “Peace of Mind”, estreou entre as mais populares em todo o mundo no Datpiff.

Tem como influência: Kanye West, Tupac Shakur, Fleetwood Mac, Amy Winehouse, Jimi Hendrix, Lauryn Hill e Missy Elliot.

NONAME GYPSY:

Tem 22 anos, nasceu em Chicago, cresceu ouvindo Muddy Waters, Michael Jackson, Marvin Gaye e Tina Turner. Já fez uma parceria musical com Chancer The Rapper pro álbum “Acid Rap”, o nome da faixa é “Lost”. Segundo ela, seu objetivo no hip-hop é “Curar e inspirar as pessoas. Ser uma voz importante para as mulheres jovens no hip hop, artista que ajuda a empurrar a cultura para a frente. Rapper que escreve algo que muda alguém. Ou algo assim.” A moça já lançou uma mixtape e agora tá gravando um EP. Confere aí que vale a pena!

CHIN CHILLA MEEK:

A rapper de 25 anos nasceu em Santa Mônica, na California. Juntamente com sua mãe, ela se mudou para Harvey IL, onde entrou na Thornton Township High School. Além de enfrentar as lutas cotidianas da vida, os pontos fortes da Chimeka foram testados pela perda de sua mãe em uma idade precoce. Ela se familiarizou com as ruas de Harvey, e adaptou sua força de vontade que está presente com muita força em sua música.

AZEALIA BANKS

Azealia Amanda Banks (Harlem, Nova Iorque, Estados Unidos) é uma cantora e compositora americana de 23 anos, anteriormente conhecida pelo pseudônimo Miss Bank$. Após sair da XL Recordings, onde estava desde 2009, decidiu adotar como nome artístico apenas Azealia Banks e passou a gravar músicas sozinha. Usando o Youtube, liberou demos como L8R e Slow Hands, e um cover da banda Interpol e Ladytron. Em Setembro de 2011, Banks lança seu single debut, 212 (feat. Lazy Jay), para download gratuito em seu site e acabou recebendo elogios. Foi nomeada para o BBC Sound of 2012, no qual acabou terminando em 3º lugar. Lançou um EP (1991) e uma mixtape (Fantasea) e hoje está em processo de gravação do seu CD de estreia Broke With Expensive Taste.

Bônus:

Essas não são rappers, mas são mulheres poderosíssimas e não tem como negar.

THE INTERNET:

The Internet é formado pelos membros da OFWGKTA Syd Tha Kid, o vocal, a engenheira de som do grupo, mixadora de audio e DJ em performances ao vivo, e Matt Martians. A mocinha é bem talentosa e está na faixa “Answer” do disco “Wolf” de Tyler, The Creator.

FKA TWIGS:

Tahliah Barnett mais conhecida como FKA Twigs, é uma cantora,compositora, produtora musical e dançarina. Ela tem descendência jamaicana e espanhola, porém cresceu em uma zona rural de Gloucestershire, Reino Unido. Foi aclamada pela crítica se tornando uma das revelações mais interessantes de 2013.

FKA também te ensina como pegar um microfone:

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