3 anos sem Miguel: ‘Eles podem ter a influência que for, mas não vou me calar’, diz mãe

Mãe de Miguel denuncia impunidade de Sarí Corte Real; luta agora é para que processo não corra em segredo de Justiça

FONTEDo Brasil de Fato
Mirtes reafirma a importância de ir às ruas para marcar a data em que se completam três anos da morte de Miguel. (Foto: Lucila Bezerra/Brasil de Fato Pernambuco)

Nesta sexta-feira (02) se completam três anos da morte do menino Miguel Otávio. A criança, que tinha cinco anos, foi abandonada em um elevador por Sarí Corte Real, ex-patroa da mãe de Miguel, que caiu do nono andar de um edifício de luxo no Recife e morreu na hora.

Em entrevista ao programa Central do Brasil, do Brasil de Fato, Mirtes Renata Santana, mãe do menino Miguel, fala sobre o andamento do caso e das mobilizações que acontecem hoje no Recife com o pedido de justiça por Miguel. Assista ou leia na íntegra:

Brasil de Fato: Mirtes, três anos depois, com as decisões da Justiça, seu sentimento hoje é de que ainda houve impunidade em relação ao crime?

Mirtes Renata: Sim, porque a real justiça só vai ser feita quando ela [Sari Corte Real] estiver atrás das grades. Enquanto ela estiver em liberdade a justiça realmente não foi feita. Então a gente está nessa luta há 3 anos, não está sendo fácil, mas estou me mantendo firme e tem muita gente de mãos dadas comigo nessa luta também. 

Mirtes, hoje você estuda Direito e está à frente do movimento de luta pedindo justiça por Miguel. Essa tragédia te levou a enxergar o funcionamento da sociedade brasileira e das questões raciais, do racismo estrutural, de outra forma?

Sim, totalmente. Logo que ocorreu isso com meu filho, eu não enxergava o racismo, mas com o tempo eu comecei a estudar, me formar, e agradeço as pessoas do grupo Curumim, da Afroresistance, pela formação política que eu tive, pois eu comecei a enxergar melhor essa questão do racismo. E hoje eu reflito e enxergo até questões do meu passado, o que eu vivi antes e o que eu vivo hoje. Atualmente eu tenho um olhar bem mais crítico com relação a isso, enxergo muito melhor as situações do racismo e estou nessa luta de combate ao racismo. Porque a gente vivem em pleno século XXI e ainda existem pessoas que vem agindo dessa forma, isso é inaceitável.

Mirtes observa imagem do filho, projetada durante um ato no Recife em memória de Miguel; família ainda luta por justiça (Foto: Bruno Campos/ Solare Produções)

Nessa sexta-feira (02), ocorre um protesto no Recife denunciando os três anos sem justiça por Miguel. Gostaria que você falasse um pouco mais sobre esse ato, sobre a importância da solidariedade.

No dia 02 completam três anos sem justiça, então a gente vai fazer esse ato, com concentração em frente às Torres Gêmeas, que é onde ocorreu o crime e sairemos em caminhada até o Tribunal de Justiça de Pernambuco, onde está o processo hoje, porque estamos aguardando o final da relatoria do desembargador para que seja passado pela revisão e depois distribuir dentro dos desembargadores para ter a votação.

Então é muito importante marcar essa data para lembrar a sociedade desse crime que ocorreu com o Miguel e também lembrar a sociedade com relação aos cuidados com as crianças, principalmente as crianças negras que são mais negligenciadas, que foi o que houve com o Miguel. Não podemos ficar calados diante desse absurdo, precisamos conscientizar a sociedade e trazê-la para próximo do caso para acompanharem. Apesar de que agora o caso foi para o segundo grau, entrou em segredo de Justiça e a gente já entrou com pedido para que fosse retirado o segredo de Justiça para que a sociedade possa acompanhar mais de perto o que vem acontecendo, o andamento do processo. Então é muito importante marcar esses três anos, a gente ir às ruas e mostrar para a sociedade que ainda não houve Justiça por Miguel.

Mirtes, Sarí Corte Real faz parte da elite pernambucana e tem vínculos com outros setores da Elite que também ocupam cargos no judiciário. Gostaria que você falasse sobre quais são as expectativas de que realmente se faça justiça, agora que o processo avança em segunda instância.

Não é uma luta fácil. Ela faz parte de uma elite pernambucana, assim como o marido dela que é de uma família tradicional na política em vários setores do Estado. Então essa luta está sendo muito difícil mesmo. Mas eu não vou abaixar a cabeça, eles podem ter a influência que for, podem ter o dinheiro que for, mas Miguel tem mãe e eu não vou me calar diante desse crime que ocorreu com meu filho. Apesar da dificuldade eu não vou parar, eu quero que a justiça seja feita. 

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