Apesar da polícia, há vida e amor em Osasco

Estive nesta terça, 19/08, em um encontro com estudantes de Comunicação da faculdade Cásper Líbero, na Avenida Paulista, em São Paulo. Em determinado momento perguntei para a plateia de cerca de 100 estudantes, quem havia assistido o episódio do programa Profissão Repórter, da Rede Globo, que no dia anterior mostrou as dores dos familiares de vítimas da chacina – ocorrida há poucos dias – na região de Osasco e Barueri, grande São Paulo. Menos de 10 pessoas disseram ter assistido e a maioria pareceu ter conhecimento superficial do assunto.

por Andressa Badu e Douglas Belchior no Negrobelchior

Chacinas são comuns no Brasil. Estão naturalizadas. Notícia batida. Tão comum quanto culpar os mortos por esse tipo de tragédia.

Recupero aqui o vídeo do programa, pela força de seu conteúdo e junto trago o texto profundo e dorido de Andressa Badu, mulher, preta, ativista, capoeirista e moradora do bairro onde a gloriosa força militar – ao que tudo indica – lavou a honra da corporação com o sangue de gente pobre, negra e trabalhadora.

Onde será a próxima chacina?

quebrada

 

Na quebrada

Por Andressa Badu

Posso até dizer que isso é comum por aqui.

Que quase sempre, alguém sonha e morre com ele.

O asfalto já está marcado.

E não é um irmão de sangue, mais sinto que uma parte minha se foi…

No olhar de pêsames, na reza coreografada, no desespero que arde quando a Dona Maria grita:

-Não! Meu filho, Não.  Ouço pedidos de ódio, justiça e Amor.

Eu os respondo: Como posso ajudá-los? Quem pode me ajudar a defendê-los? Quem pode me ouvir, se sou como vocês? Sou fruto de outra dona Maria. Quem ouvirá a minha voz se o meu grito é seco?!

Quem ouvirá a voz de quem chora sussurrando, de quem é oprimida pelos “protetores” ?

Que outro alguém olhará nossa terra rosada? Ensanguentada com a nossa pele, com nossa aspereza, com nossa fome, com nossa pobreza, com nosso sangue?

Quem nos ajudará, sem arrancar nossa identidade? Sem se apropriar do que somos? Não dá! Eles perceberão que sou como vocês. Eles esbravejam que nossa carne é barata.

Lembram-se do Gustavo? Ele ficou 12 horas e meia sendo vigiado pelos urubus, só não foi devorado porque a dona Maria estava velando seu corpo e derramando seu manto através dos olhos.

Sinto muito Jé, Alê, Zóio, Sombrinha, Pequeno, Zé, não posso ampará-los! Aliás, cadê os outros? Eles não foram anunciados pelos jornais. A mídia sensacionalista esqueceu deles, esqueceu do Antônio, que todos os dias ao pegar o ônibus me desejava “bom dia Preta”. Antônio não sabia o meu nome, mas eu sentia uma alegria incrível naqueles sorrisos.

Tenho medo dos “fardas”. Eles entram na calada da noite assim como um anjo do mal e nos roubam o direito de viver, de sonhar, de sorrir quando apenas vencemos no fliperama. Eu sei! Vocês também não sabiam, mas eles estão nos culpando por não ter paz. Eles estão nos culpando porque não termos dinheiro para o caixão. Eles estão nos culpando porque ainda estamos vivos.

Não me façam lutar por vocês. Não farei isso.

O cruel fardado cuspiu na calçada lavada com nosso sangue. Calafrios dominaram meu ser. Perdi o ar suplicando um anjo do bem. Ninguém olhou para mim. De repente suspirei, era um sonho…

Quando uma lágrima de alívio percorreu meu rosto, percebi que transformei minha dor numa nova canção. Meu sonho era a voz consentida da minha quebrada. Aqui é assim todos os dias. Morremos para provar que somos reais, Rainhas e Reis de pele escura feito o clarão da lua que ilumina o riso de meros mortais. Aqui é um mundo. Aqui tem regras, tem moral, tem amor e esperança. Ainda não encontramos alguém que revogue por nós. Recriamos os nossos, inspiramos outra salvação, sobrevivemos.

Chorei porque minha vidalogia ressuscitou. Sou Rainha. Minha paz reinou por um instante.

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