bell hooks: O legado da maior pensadora do feminismo do século 21

A escritora, ensaísta, professora, teórica feminista e ativista antirracista afro-americana bell hooks faleceu aos 69 anos no última semana, deixando para trás um volume impressionante de obras imprescindíveis e milhares de vidas femininas para sempre transformadas por seus textos

FONTEPor Sabrina Fidalgo, da Vogue
A escritora e ativista bell hooks (Foto: Divulgação)

Nós, mulheres negras, que defendemos a ideologia feminista, somos pioneiras.  Estamos abrindo um caminho para nós e para nossas irmãs.  Esperamos que, conforme elas nos virem alcançar nossos objetivos – agora não mais vitimizadas, não mais não reconhecidas, não mais com medo – elas também tenham coragem e nos sigam.

bell hooks, em E eu não sou uma mulher? – Mulheres negras e feminismo (editora Rosa dos Ventos).

A bisavó de Gloria Jean Watkins se chamava Bell Hooks. Nascida em 1952 na cidade de Hopkinsville, no segregado estado de Kentucky e filha de Rosa Bell, uma empregada doméstica e de Veodis Watkins, um zelador. Glória saiu de casa para estudar na Universidade de Stanford onde se formou bacharel em língua inglesa. Posteriormente, fez seu doutorado em literatura pela Universidade da Califórnia para, em seguida, escrever mais de 30 obras assinando com seu pseudônimo, inspirado no nome de sua bisavó, a verdadeira  “Bell Hooks”.

Sua prolífica escrita abrangeu poesia, ensaios, críticas de arte, cinema e livros infantis, examinando a intersecção de raça, política e gênero, e assim tornando-se uma das feministas negras mais influentes do último meio século.

Fato é, que bell hooks (assim mesmo, escrita em minúscula) reordenou e realinhou o universo para meninas e mulheres de cor nos quatro cantos do globo, nos presenteando com a linguagem e as teorias certas para entender quem éramos em uma sociedade muitas vezes hostil e alienante.

Ela sempre deixou claro que, como mulheres negras, não pertencemos a ninguém além de nós mesmas. Uma “feminista ruim” desde o início, como se autodefiniu uma vez, bell hooks estava claramente desinteressada em ser “segura, respeitável ou aceitável”. Para isso, traçou uma carreira em seus próprios termos. Nela, implorou em seus maravilhosos textos que transgredissemos e lutássemos, mas que o fizéssemos com amor e destemor. Suas palavras corajosas, ousadas e lindas não apenas falaram a verdade ao poder, mas, sobretudo, aos nossos amados ícones culturais.

Não contente em esperar que os críticos de sempre se dessem ao trabalho de comentar sobre o que acontecia no mundo da arte “não-branca”, hooks se encarregou de se adiantar e passou a escrever ela mesma sobre os artistas que acreditava serem importantes na cena.

Entre seus estudos, ela publicou sua primeira coleção de poesia e seu primeiro trabalho de não ficção, Ain’t I a Woman: Black Women and Feminism (o já citado E eu Não Sou Uma Mulher – Mulheres Negras e Feminismo) no qual descreve os efeitos prolongados da escravidão e do sexismo sobre as mulheres negras, onde até mesmo homens revolucionários procuraram nos apagar e marginalizar. E muito antes que a interseccionalidade entrasse no léxico dominante, bell hooks nos mostrou com precisão cirúrgica como nossas identidades estão diretamente interligadas em raça, classe e gênero o tempo todo, tudo de uma vez, tudo junto e misturado.

Decolonizando a crítica de arte

Alguns pensadores engolem o mundo e o regurgitam, de volta, deixando o leitor navegar pelos muitos significados de sua linguagem dura e argumentos profundos, porém tortuosos. Mas bell hooks resistiu a esse tipo de jargão acadêmico, preferindo uma investigação mais direta. Ela olhou para o mundo, para o amor e a ternura, tudo enredado na supremacia branca e no patriarcado, e tentou entender isso com a clareza única de sua caneta. Embora seja mais conhecida por clamar por um feminismo que centrasse nas experiências particulares das mulheres negras, ela também pediu novos tipos de crítica que levassem o trabalho de artistas negros – particularmente no campo das artes visuais – a sério”, escreveu Zoe Guy para o portal estadunidense Hyperallergic, logo após o anúncio da morte da escritora.

A verdade é que bell hooks sempre lançou importantes questões também nesse campo; artistas negros visionários carecem do tipo de erudição e crítica rigorosa que seus colegas não negros acumulam? Existe um futuro que possamos imaginar juntos, um onde nosso trabalho possa provocar indagações intelectuais para nós e por nós? Como podemos libertar as artes do eurocentrismo e da branquitude patriarcal?

Infelizmente, os artistas e críticos brancos conservadores que controlam a produção cultural e a escrita sobre arte parecem ter muita dificuldade em aceitar que, podem estar criticamente cientes da política visual – a forma como raça, gênero e classe moldam as práticas artísticas (quem faz arte,  como ela vende, quem a valoriza, quem escreve sobre ela) – sem, ao mesmo tempo, abandonar um forte compromisso com a estética”, escreveu bell hooks. “À medida que imaginamos criticamente novas maneiras de pensar e escrever sobre as artes visuais, à medida que abrimos espaços para o diálogo além das fronteiras, nos engajamos em um processo de transformação cultural que acabará criando uma revolução na visão.”

Pois não contente em esperar por críticos para comentar sobre o que está acontecendo no mundo da arte “não-branca”, hooks se encarregou de escrever ela mesma sobre os artistas que ela acreditava serem importantes, dentre eles: Carrie Mae Weems, Alison Saar, Felix Gonzalez Torres, Lorna Simpson, Jean-Michel Basquiat e Emma Amos. Sua teoria inovadora de um olhar de oposição – ou uma maneira rebelde de olhar as imagens, filmes em particular, que centra as mulheres negras e rejeita os modos patriarcais da supremacia branca de olhar – pode ser estendida à sua crítica de arte. Ela achou Weems de particular interesse, visto que tanto o crítico quanto o artista ativamente descentraram a branquitude em seus respectivos trabalhos. “[Seus] fotógrafos criam uma cartografia da experiência em que raça, gênero e identidade de classe convergem, se fundem e se misturam de modo a romper e desconstruir noções simples de subjetividade”, escreveu ela na fotografia de Weems.

Ao longo das últimas quatro décadas, o trabalho de hooks continua sendo uma referência no panorama cultural contemporâneo. Depois de dar aulas na Universidade de Yale, no Oberlin College e no City College de Nova York, hooks se estabeleceu no Kentucky para lecionar no Berea College, onde fundou o bell hooks Institute.

Mas nem tudo foram flores…

bell hooks X Beyoncé

Embora os livros, textos e ensaios de bell hooks tenham sido fundamentais para tantas pessoas, pensadores, ativistas, acadêmicos e professores, ela às vezes era alvo de críticas, principalmente por seus comentários ásperos sobre o álbum visual de BeyoncéLemonade. Foi uma conjuntura interessante, que demonstrou como uma geração mais nova enxergava o feminismo e a posição de Beyoncé de maneira diferente da de hooks.

Foi também uma ocasião, como tantas outras em sua carreira, em que ela se envolveu plenamente com o zeitgeist e apresentou suas ideias sem medo. Olhando para trás, a crítica de bell hooks a Beyoncé foi um momento único para ser celebrado. Da mesma maneira que feministas, mais especificamente as feministas negras, celebram outros paradigmas de poder feminista.

O sentimento de vazio que acompanha a notícia da morte de bell hooks é seguido pelo pensamento reconfortante de que, apesar de sua transição prematura, suas palavras ainda ecoam amor, liberdade e verdade. As gerações vindouras encontrarão força e conforto em suas palavras e ideias, e essas palavras e ideias continuarão a viver e a respirar pela vida, mesmo se sua autora já tenha perdido seu último fôlego. E é esse o seu maior legado para todas nós.

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