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Contos inéditos revelam inclusão e exclusão no pós-abolição

Em entrevista, pesquisador que reuniu em livro textos do desconhecido escritor negro maranhense Astolfo Marques fala sobre como sua obra retrata o dia a dia no período pós-Lei Áurea sob a ótica do negro.

Pintura de meados de 1800 intitulada ‘Am Not I A Man and a Brother’ (Foto: Wikimedia Commons)

Ele é um desconhecido das aulas de literatura. Negro, pobre e fora do eixo Rio-São Paulo, o maranhense Raul Astolfo Marques (1876-1918) deixou uma obra em que, de um jeito leve e aparentemente despretensioso, registrou o cotidiano da população negra de sua cidade, São Luís, naquele contexto logo após a Lei Áurea.

Professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o sociólogo Matheus Gato deparou-se com a obra de seu conterrâneo em 2008. Desde então, passou a tentar compreender a produção e a vida de Marques. Mergulhou em arquivos da imprensa maranhense e localizou diversos contos publicados em jornais e revistas da época trazendo visões daquele período.

Astolfo Marques (Foto: Imagem retirada do site DW)

Recém-lançado pela editora Fósforo, O Treze de Maio: e outras estórias do pós-Abolição reúne 17 contos de Marques descobertas por Gato. “Ele recupera uma dimensão muito importante do 13 de Maio como uma conquista do povo brasileiro. E revela um pouco como os diferentes acessos à liberdade diferenciavam a gente negra naquele período”, afirma o pesquisador, em entrevista à DW Brasil.

Nascido liberto, Marques foi filho de uma família pobre. Sua mãe, denominada “cafuza livre”, era lavadeira. O pai não é conhecido. Era caçula de uma família de “muitos irmãos” — também é incerta a quantidade. Segundo Gato, o escritor frequentou de forma errática o sistema educacional e acabou conseguindo um emprego, aos 20 anos, como varredor e contínuo na biblioteca pública de São Luís — ali ele passou a estudar, sempre como autodidata, e se relacionar com a intelectualidade maranhense da época.

DW: De que forma, os contos de Astolfo Marques revelam esse Brasil pós-abolição, sob a ainda tão pouco difundida ótica do negro?

Matheus Gato: O que é interessante dos contos de Astolfo Marques é a complexidade que ele dá na interpretação da abolição no Brasil e para a nossa memória dela. Há duas narrativas muito importantes que marcam nossa memória coletiva hoje sobre os significados do 13 de maio no Brasil. Uma é essa narrativa da concessão, uma narrativa dos direitos sociais como dádiva, [a ideia de que] a princesa Isabel deu a abolição aos negros. Por essa narrativa, os direitos do povo brasileiro não são conquistados, são sempre uma prerrogativa da ilustração da elite de um determinado momento e da pedagogia do Estado nacional.

Outra narrativa, mais crítica, foi construída pelos movimentos sociais e pelo movimento negro no longo processo de democratização na segunda metade do século 20: a abolição como uma espécie de farsa, de engodo, na medida em que não foi suficiente para deslocar as hierarquias sociais e raciais no novo ambiente do regime, no pós-abolição e, depois, no regime republicano. […] O que é importante nos contos do Astolfo Marques é a capacidade de complexificar nosso olhar para esse processo.

No conto O Treze de Maio (recordações), ele vai mostrando a importância dos movimentos sociais, das camadas populares, das irmandades negras como a Irmandade de São Benedito, dos clubes carnavalescos… Mostra como a mobilização dos abolicionistas foi com intensa participação popular, participação negra. Ele recupera uma dimensão muito importante do 13 de Maio como uma conquista do povo brasileiro. E revela um pouco como os diferentes acessos à liberdade diferenciavam a gente negra naquele período.

Como assim diferenciavam?

Sabemos hoje pela historiografia que muito pouca gente foi libertada no 13 de Maio, porque a maioria dessa população já havia adquirido direitos civis [anteriormente, com leis como a do Ventre Livre]. Isso é importante porque diferenciava aquela gente. Uma coisa é você ser escravizado, outra ser um homem negro nascido livre, outra ter sido alforriado, outra ser um “13 de Maio” propriamente, ou seja, alguém que foi libertado no 13 de Maio. Um dos contos mais interessantes do Astolfo Marques é o que se chama “Ser Treze”. É sobre o significado de ser libertado exatamente no dia 13 de maio. O conto lida com duas mulheres que saem pela cidade em busca das festas de comemoração. Elas não encontram mais essas festas porque as pessoas que foram libertadas no 13 de Maio já não querem mais ser apontadas como tendo vivido a escravidão até os últimos dias. […] No novo quadro republicano, essa honra de ter sido libertado [pela monarquia] se tornou um signo da escravidão mais tardia, um dos estigmas da identidade racial. […] [Em outro conto,] a dimensão da exclusão social aparece de forma muito forte. O conto narra a história de um alforriado que acha que foi convidado para um baile de gala que vai comemorar a abolição, mas ele descobre que nesse baile ele não pode entrar, ou seja, aparece o jogo aí da inclusão e da exclusão social que se armava no pós-abolição. Essa complexidade e esse conjunto de matizes é o que Astolfo Marques agrega ao nosso olhar contemporâneo sobre o que foi a abolição e a pós-abolição no Brasil.

Os contos de Marques mostram um papel importantes das mulheres negras nesse período. Estamos falando de uma época em que à mulher eram relegados papéis secundários na sociedade brasileira. Em sua visão, essa maneira que Marques traz a mulher negra correspondia à realidade? Se sim, por que a mulher negra tinha um papel de maior protagonismo, então?

Os contos de Astolfo Marques trazem a mulher negra e a mulher popular como agente relevante na cidade de São Luís. Acho que muito dessa visão que ele traz tem a ver com sua experiência familiar, de ter a direção de sua casa nas mãos de sua mãe e de suas irmãs. Essa experiência social deu a ele um olhar que a gente pode chamar de feminino para as dinâmicas urbanas da cidade. Ele tem razão. Quando a gente olha para a São Luís daquele tempo, a gente vai ver as mulheres como uma importante força operária da cidade, nas fábricas têxteis.

Há um conto em que ele problematiza a desigualdade dos salários entre homens e mulheres. […] Muito do modo como ele constrói o ambiente popular tem a ver com a tagarelice, a fofoca, os rumores que são narrados entre mulheres que se encontram e debatem os mais diversos assuntos, inclusive a política. Esse lugar da mulher negra no espaço público, que é uma das faces do que era a vida nas cidades urbanas do Brasil, [tem a ver com o fato] de as mulheres negras não estarem em casa, aprisionadas no mundo doméstico. Elas eram trabalhadoras, portanto, alguém que estava no espaço do mercado de trabalho, no espaço público. Sem dúvida essa centralidade da mulher é um dos aspectos mais contemporâneos [da obra] de Astolfo Marques.

Machado de Assis (1839-1908), muitas vezes, é criticado por não se posicionar de forma contundente em sua obra como um autor negro. Como você vê a importância de autores como Marques de assumir o “lugar de fala” de uma população tantas vezes menosprezada pela historiografia brasileira?

Lugar de fala talvez seja uma categoria muito contemporânea para interpretar o entendimento literário de Astolfo Marques. Ele estava muito distante, no seu tempo, de ser aquilo que a gente chama de militante das causas negras. Foi, em toda a sua vida, uma pessoa muito discreta no tocante às polêmicas políticas do seu tempo, porque ocupava posições muito subordinadas, no terceiro, quarto, quinto escalão do funcionalismo público. Mas, sem dúvida, o tipo de representação que ele constrói é um ponto de partida muito interessante. […] Até hoje o perfil do romancista brasileiro é o homem branco, morador do sudeste do país. E o mesmo se passa com os personagens. Trazer os contos do Astolfo Marques à tona tem um efeito contemporâneo bastante produtivo para todos aqueles que querem mover sua criatividade literária no sentido de mostrar a complexidade do país — e sua enorme diversidade.

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