A ética da outra

A terceira pessoa que surge na vida de um casal tem suas responsabilidades (Darko Vojinovic/Associated Press)

A terceira pessoa que surge na vida de um casal tem suas responsabilidades (Darko Vojinovic/Associated Press)

A humanidade é tão esperta, conta com alguns milhares de anos de história, informação sobre tudo e conhecimentos de toda ordem, mas, apesar disso, o homem civilizado não sabe desempenhar certos papeis básicos e fundamentais ao bom relacionamento humano e, de quebra, à saúde mental – dele próprio e das pessoas que lhe são queridas.

por Bell Kranz no Casar, Descasar, Recasar

Por exemplo: a gente aprende a ser pai, filho, aluno, cidadão, mas ninguém ensina a gente a ser sogra, nora (desconfio que padrinho e madrinha de afilhado grande também não), nem ex-mulher ou ex-marido. O papel da outra, então, nem se fala. O tema é tabu! Ninguém discute, por exemplo, a ética dessa terceira pessoa que surge na vida de um casal, mas ela (a ética) existe.

Quando a “outra” passa de companheira oficiosa a oficial (namorada assumida ou esposa), adquire uma megaresponsabilidade, a qual só aumenta quando há  filhos na jogada – dela com o ex-marido ou dele com a ex. Em geral, a outra (oficiosa ou oficial) não tem noção da importância que exerce para a felicidade da sua família e da dele, até, é claro, ela se ver no papel de ex, mas esse assunto – quando a outra vira ex – fica para outro dia.

Segue abaixo parte do manual da ética da outra, que vale para o homem, claro, quando ele encarna o papel do “outro” na vida da mulher casada, vale também para homossexuais e pessoas de qualquer orientação sexual e também é indicado às mulheres em geral. Mais do que nunca, nesse momento delicado de rompimentos e recasamentos, a solidariedade feminina deve mostrar a que veio. Todas as figuras femininas envolvidas na história (filhas, amigas, sogra e, claro, a outra) devem cultivar o respeito à mulher que está vivendo a dissolução do seu casamento – difícil para ela até quando já nem quer mais manter a relação.

E atenção mães: coloquem esse assunto na mesa para as suas filhas. Tudo bem, você já aconselhou as meninas a não entrarem nessa barca furada de se envolver com homem casado. Mas elas podem se enrolar, sim, com infidelidades. Que, então, ao menos tenham consciência das responsabilidades desse papel. “Reze esse mesmo terço” com os filhos homens, que eventualmente se vejam no papel do “outro”, sem deixar de igualmente alertar a respeito da manjada “barca furada”.

Segue então o Manual.

1. Em primeiro lugar, proteja todos – você, ele e a família dele – das armadilhas das redes sociais. Se ele está cego de paixão por você e é do tipo que faz qualquer coisa para mostrar seu amor, até colocar no Facebook que está num relacionamento sério antes mesmo de se separar legalmente da mulher, ajude-o a perceber que ele pode demonstrar seu amor sem destruir a saúde mental da família, que ainda está de luto com a saída do pai e do ex-marido e que tal exposição só vai aumentar o sofrimento da família dele. Sem contar que ele corre o risco de se expor publicamente no papel de um adolescente irresponsável.

2. Jamais fale mal da ex-mulher dele para os outros ou mesmo para ele. Não pega nada bem para você, que inclusive está com o homem que ama ao seu lado. Por menos que ele admire a ex-mulher, convenhamos que não é agradável ouvir críticas que desmerecem a pessoa com quem se compartilhou parte da vida e, muitas vezes, é a mãe dos próprios filhos.

3. Respeite os amigos antigos dele, que faziam parte do seu círculo quando era casado. São pessoas de quem o seu marido gosta, com quem tem uma história e em quem confia. Não imagine que eles se tornarão seus amigos de um dia para o outro. Eles precisam de tempo para se acostumar à nova realidade do amigo. Se quiser ser aceita, colabore e, muito provavelmente, eles passarão a ser também seu amigos, já que você é a mulher que o amigo escolheu.

4. Os filhos dele e da ex-mulher continuam sendo filhos dele e da ex-mulher. Isso você não pode mudar nunca, mas pode construir uma relação saudável com os filhos – crianças ou adultos ­–, que envolva respeito, carinho e até cumplicidade. Mas, pelo amor de deus, fuja do clichê “segunda mãe“. Se esse papel vier a ser seu, só após algumas décadas de dedicação verdadeira à relação – e por escolha deles. Contente-se com o papel de “mulher do pai”, porque é é o nome dado pelo filhos e é exatamente isso o que você é para eles.

5. Competição entre a mulher e os filhos do parceiro são comuns. Especialmente se ela é muuuuuito mais nova que o marido a ponto de os filhos terem idade para serem os amigos de faculdade. Pode parar, isso é infantilidade, bobeira. Quando a competição se dá entre irmãos, é superada. Mas esse não é bem o caso.

6. O enteado é uma loucura de arrogante, abusado, um adolescente típico? Problema da mãe dele e do pai dele. Tente opinar apenas quando e se for chamada. Afinal, é como você gostaria se estivesse do outro lado, não? Ser a outra com ética dá muuuuito trabalho. Mas agir com consciência e integridade vale a pena sempre.

Este manual está em processo de construção. Mande a sua contribuição. Cada experiência de vida é única e o que você viveu e aprendeu pode ajudar outras mulheres que estão passando por esse momento.

E aguarde: logo mais sai do forno o Manual de Ética da Ex e do Ex!

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