No carnaval da resistência, brilhou a excelência. Laroyê Exu. Exu Mojubá!

No carnaval da resistência, brilhou a excelência. Laroyê Exu. Exu Mojubá!

Grande Rio chegou escancarando sua beleza - Foto: Gabriel Monteiro/Riotur

Carnaval ressurge pós pandemia trazendo beleza e nossa matriz africana

No mundo de tantos muros, tantas distâncias, preconceitos e intolerâncias, o maior show da terra, trouxe como tema principal as tradições de matriz africana, a história e a homenagem aos negros e negras esquecidos e esquecidas pela história oficial. Das 26 Escolas de Samba do Rio de Janeiro e de São Paulo, que compõem o grupo especial 15 destas, trouxeram para a avenida e homenagearam a cultura, a tradição e a história afro brasileira.

Num momento tão grave de nossa história, com uma agenda de grandes retrocessos políticos e sociais; de violência e desprezo a liberdade e a democracia, foi maravilhoso ver Exu, sendo desmistificado na avenida. Exu, que é nosso mercúrio, nosso ícone da comunicação e dos caminhos, foi o grande vencedor do carnaval da resistência de 2022, e o melhor, sem falar mal, sem desprezar ou vilipendiar nenhuma outra forma e maneira de rezar e não rezar.

A Grande Rio chegou escancarando sua beleza, seus ardis e suas nuances, surpreendendo a sociedade com uma história que reflete a beleza, a alegria, de um dos maiores ícones das tradições de matriz africana. Aquele a quem dedicamos o início de todas as nossas celebrações. Pois é de Exu, nossos caminhos e estradas, nossa comunicação e nossa certeza de que nunca foi sorte, sempre foi ele, Exu.

Um espaço onde seremos nós mesmos protagonistas de nossas histórias

2022, é um ano desafiador, um ano de superação e de grandes possibilidades de transformações, um ano em que temos a possibilidade de construirmos uma outra história a partir de nossa própria encruzilhada, terra onde mora Exu. Encruzilhada esta que para nós, não significa o fim, ao contrário é nesta que encontramos as possibilidades de mudanças, de transformações e recomeços.

O carnaval, ressurge pós pandemia trazendo, a riqueza, a beleza e o olhar da cultura e das tradições de matriz africana, reacendendo em todas e todos os nós a esperança de fazer como Exu: transformar o caos em miríades de possibilidades; de vida, de liberdade, alegria e democracia. Reconstruir a partir do que tentaram nos tirar e negar, a vida.

A força da cultura popular, mais uma vez, nos traz a possibilidade desse olhar para além dos preconceitos, do racismo, do machismo, da LGBTfobia e a partir do respeito ao outro.

Nos sambas enredos, cantados nos quatro cantos desse país, entendemos mais de história do que em qualquer banco escolar de uma escola que não nos acolhe, que não nos conta a verdade sobre nossos heróis e heroínas.

De forma lúdica entendemos que Exu não é o capeta que querem nos impor os racistas. E nem nesse momento, usamos da fé do outro, que tanto nos criminaliza e discrimina, para poder falar que esse não é um problema nosso de forma agressiva, desrespeitosa e prepotente. Ao contrário, contamos essa história nossa, esse prazer e felicidade, esse reconhecimento de Exú ancestral de forma lúdica, bonita, colorida e generosa.

Num país onde o que mais se vê na atualidade é o crescimento do nazifascismo, da intolerância, do racismo e da negação da vida e da ciência, a cultura nos traz num desfile histórico nos sambódromos do Rio e de São Paulo, de forma debochada e irreverente vimos a figura de um presidente que ao ser vacinado, vira um Jacaré. Outro desfile trouxe a reflexão do que estamos fazendo com nossa Casa Comum, o planeta água.

Vimos desfilar diante de nossos olhos mestres da cultura popular e a história dos marginalizados e esquecidos da história oficial de nosso país.

Os desfiles das Escolas de Samba se aprimoram cada vez mais em pesquisas, para a partir da história, trazer até nós a crítica e as denúncias das mazelas sociais. Nos desfiles do maior show da terra, aprendemos através da cultura popular o quão igual todas e todos somos. E quão importante é a democracia, a liberdade, a verdade e a vida.

Se 2022, por ora nos apresenta como sendo um ano desafiador, também nos apresenta como sendo o ano da quebra de paradigmas. Da não aceitação das notícias falsas, do ódio, da intolerância, da LGBTfobia e do racismo.

2022 é ano de esperançar

Estamos numa encruzilhada, casa de Exu, que favorece o diálogo, a comunicação, a criação de pontes e a negação dos muros. Esta encruzilhada é a possibilidade de nossa mobilização e revolução.

2022, é o ano de colocarmos em prática a lição número um, que nos foi deixada pelo mestre da educação popular Paulo Freire: é ano de esperançar.

E esperança sempre vem acompanhada de transformações, sonhos e desejos. Nossa tarefa é simplesmente a de acreditar que podemos, que devemos e que vamos transformar e retomar os rumos de nosso Brasil. Por isso, estamos construindo o II EGBE – PARTE DE NÓS, um espaço onde seremos nós mesmos protagonistas de nossas histórias e caminhos.

Assim quer Exu, que veio na frente abrindo os caminhos, limpando as mazelas do racismo e dizendo: “Boa noite, moça, boa noite, moço. Aqui na terra é o nosso templo de fé”…


Makota Celinha Gonçalves é jornalista, empreendedora social da Rede Ashoka e coordenadora nacional do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (CENARAB).