O isolamento é um fantasma constante e contínuo: a escrita colaborativa versus a repressão acadêmica e o confinamento emocional na vida de estudantes negras

FONTEPor Antônia Gabriela Pereira de Araújo, enviado para o Portal Geledés
Alina Rosanova/ Adobe

Compartilhar minha experiência como estudante de doutorado em Campo em meio ao confinamento social provocado pela epidemia do Coronavírus me leva diretamente a compartilhar essa experiência a partir da encruzilhada com a minha situação como imigrante nos EUA, como doutoranda negra, pobre, mãe ou qualquer outro identificador social que existisse nesse contexto de Pandemia. Se é verdade que a situação de isolamento social provoca efeitos sobre a escrita e a experiência da pesquisa de Campo que estamos vivendo, a Pandemia é apenas mais um marcador para estudantes não-brancos ficarem cada vez mais vistos como o “Outro”; a “Minoria” ou “Deficiente”.

Trago breves vinhetas sobre minha experiência como estudante negra de doutorado em Campo e em processo de escrita da tese em meio a Pandemia. Enfatizo de antemão como o relacionamento com um grupo de mulheres negras de pós graduação me forneceu o apoio logístico, emocional e psicológico necessário para avançar em etapas da escrita e da pesquisa em Austin, uma vez que, antes mesmo da Pandemia, lidar com vários empecilhos e um ambiente adverso já era parte integrante da minha adaptação à cultura oculta existente nos programas de pós-graduação, que está cada vez mais se transformando num complexo industrial acadêmicoAgora, trata-se de lidar com uma educação corporativa acrescida de um novo cenário caótico: o da Pandemia.

Para mim esse cenário só se tornou menos drástico, principalmente, quando elaborei um modelo de escrita em grupo na casa que estou residindo. Vim finalizar minha pesquisa de doutorado em Austin, a intenção de vir para os EUA foi, além de usufruir da infra-estrutura de bibliotecas e participar de congressos acadêmicos, foi experienciar o intercâmbio de inglês do Programa English & Social Justice, um programa de inglês para negros, artistas e estudantes militantes.

Estou em confinamento social em uma casa com duas estudantes negras, uma em processo de pós-doutoramento, idealizadora do referido programa de inglês e a outra em fase de doutorado.  Com uma semana que havia chegado em Austin a disciplina de escrita que havia elaborado foi interrompida pelo fechamento das bibliotecas. Com isso reorganizamos a pequena casa para ficarmos bem acomodadas. Compramos mais uma mesa, alteramos lugares de dormida e refeições e estamos dividindo esse pequeno espaço entre nós.

As conversas e trocas de ideias sobre a futuridade da vida, escritas poéticas, danças e rituais de baforar ervas na panela são algumas práticas que estamos fazendo como parte do processo de escrita nesse cenário de Confinamento Social. Os cabos e fios conectores dos eletrônicos emaranha mais ainda nossas orientações mútuas e a parceria, principalmente, quando estamos todas em vídeo-chamadas com familiares e nos vemos apresentando as famílias de umas às outras.

Somos todas imigrantes em território norte-americano; uma piauiense, uma paulista e uma cearense entre máquinas de escrever e robôs vivos, afinal compartilhar sentimento e intimidade com celulares e computadores se tornou a regra nesses dias de isolamento. A reciprocidade entre nós aumenta e compartilhamos a sensação de que já estávamos em isolamento devido ao ritmo de escrita e leituras intensivas e ao cenário muitas vezes castrador da academia. Perceber que não estávamos preparadas nem para o isolamento da escrita de tese nem para o isolamento generalizado causado pela Pandemia tornou a nossa escrita colaborativa e o nosso apoio mútuo de orientação o projeto mais eficaz contra a tortura do isolamento emocional e pandêmico.

A sensação é de sempre nos equilibrar e de estar nas margens, afinal quando se ingressa num programa de pós graduação e não se tem o mesmo conhecimento cultural ou social que os outros estudantes para evitar as armadilhas que atrasam o processo de formação e nem se tem outros recursos para facilitar o acesso a bolsas de estudos, publicações e programas de intercâmbio a tendência ao isolamento é um fantasma constante e contínuo na vida de estudantes negras.

Sentimos nos primeiros dias de confinamento ao sair para o mercado e em caminhadas nos parques como a pandemia estava se tornando o bode expiatório de mais racismos e opressões sobre os corpos de imigrantes e negros. Olhares e distanciamentos antes camuflados agora estão mais explícitos sobre nós. Aqui ninguém anda pela mesma calçada com pelo menos 3 metros de distância, aqui três pessoas não podem ficar na mesma sessão do mercado, e se essas pessoas forem imigrantes e negras a distância se tornou um critério que precede a regra do distanciamento social. O transporte público se transformou no transporte exclusivo de negres, sem tetos e imigrantes. Tanto porque, para evitar o contato com o motorista, não há mais necessidade de pagar, quanto porque a maioria dos norte americanos possuem carros particulares.

Se antes do Confinamento social os ônibus eram usados mais por pessoas negras e imigrantes das zonas mais pobres, agora se tornou um transporte exclusivo dessas pessoas que estão vagando em número expressivo das zonas pobres para as zonas ricas e usando o transporte público como meio de vagar. Para essas pessoas a condição de Outdoorsness, ou seja, de serem lançados ao ar livre, na rua, no exterior é a única condição que é possível de existir neste momento. Elas estão andarilhando na condição de terem sido lançadas para fora, “do Estado norte americano” ; “de casa”; “da família”. Com algumas lembranças dos escritos de Toni Morrison na sua obra “The bluest Eye” (1970) a sensação que fica é que o confinamento social tem um verso e um reverso; para que algumas pessoas possam voltar a viver “being outdoors”, isto é, sendo livres, num estado de viver ao ar livre outras precisam ser “being put outdoors”, isto é, são colocadas, expulsas e empurradas para fora, precisam ser postas para fora, seja de casa, do território estado e da condição de humano.

Aqui é primavera e as flores brotam no asfalto. Era um dia de domingo, um domingo de páscoa, e decidimos caminhar pelas ruas de Ride Park, um bairro rico com casas históricas de Austin e aonde residimos. Paramos em frente a um terreno sem nenhuma construção e que por isso havia uma grande mata e um extenso campo de flores nativas lá dentro. Estávamos encantadas e decidimos tirar uma foto pegando todo o campo de flores. Uma senhora que passava do outro lado da rua exclama com um tom ameaçador: “Vocês sabiam que isso é uma propriedade particular? O dono não deve está muito feliz com o que vocês estão fazendo, cuidado”. Naquele dia, ironizamos aquela fala bem como o mal humor da senhora, para usar de pleonasmos. Seguimos.  Continuamos seguindo a caminhada diária “no place to go”, na sensação de que está ao ar livre nem sempre nos garante viver “a liberdade”, mas estamos confiantes e otimistas de que o alecrim que colhemos nos quintais particulares para fazermos nossas baforadas, bem como as flores brancas que estão sendo usadas para nossos rituais de banhos nos permite um estado de desobediência e rebelião plena.  

Leia Também:

O isolamento é um fantasma presente: mulheres mães negras e formas de insurgência na Pandemia

       

 

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 
-+=
Sair da versão mobile