Os desafios educacionais das meninas negras exigem compromissos nas políticas públicas

FONTEPor Tânia Portella

Programa Educação e Pesquisa – Geledés Instituto da Mulher Negra

Março é um mês marcado por agendas relevantes para o enfrentamento às desigualdades: Dia Internacional das Mulheres (08), dia Internacional para Eliminação da Discriminação Racial (21) e dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Escravos (25), agendas que explicitam e interseccionam fatores como raça e gênero na construção de discriminações e desigualdades.

No início de março, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) lançou o 3º boletim Estatísticas de Gênero – Indicadores Sociais das Mulheres no Brasil, informando que em 2022 meninas e mulheres dedicaram quase o dobro de tempo em afazeres domésticos e cuidados de outras pessoas que os homens. E quando os dados são desagregados por cor, esse tempo é 1,6 maior para meninas e mulheres negras.

Podemos refletir que esse dado está totalmente relacionado a outra informação do boletim, os dados desagregados revelam que além das mulheres negras apresentarem a segunda taxa mais baixa de frequência escolar, (a mais baixa é do homem negro) a distância da taxa de frequência entre mulheres brancas (39,7) e de mulheres negras (27,9) foi de 11,8 p.p. em 2022. 

Esse é apenas um dos dados que indicam como o racismo impacta fortemente a educação de meninas e mulheres negras. Nesse sentido, desde 2022 Geledés realiza diálogos com estudantes negras, a princípio com turmas do Ensino Fundamental II e em 2023 se estendeu para as estudantes do Ensino Médio. 

As conversas têm por objetivos acompanhar o contexto educacional das estudantes após o período de pandemia e estabelecer um espaço para trocas de informação e conhecimentos sobre a importância do direito à educação de qualidade, mas vai além, pois ao incluir abordagens sobre gênero e raça provoca reflexões sobre o impacto das desigualdades, do sexismo, do racismo e de várias violências na vida das jovens negras. 

As problematizações das jovens, nos momentos de diálogos, traduzem a gravidade de no mínimo duas dimensões: a dos resultados divulgados pelo IBGE, sobre desigualdades de raça e gênero na educação; e as situações violentas de racismo nos ambientes educacionais relacionados a cor da pele e cabelos, como o crime ocorrido com uma adolescente negra que foi xingada, pisoteada por estudantes que frequentam a mesma escola que ela, em cidade no interior de São Paulo1.

Nos relatos das jovens em nossas conversas, elas reconhecem e indicam essas e outras questões que precisam ser observadas por dificultarem a permanência no ambiente escolar. E ainda reforçam a importância de evitar o silenciamento, discutir o racismo e o sexismo na educação e na sociedade, e se verem representadas no currículo escolar. 

As percepções expostas pelas estudantes nos encontros, de um lado demonstram os obstáculos que comprometem a redução das desigualdades no campo da educação, e que deixam meninas e mulheres negras em situações de desvantagens nos indicadores de acesso e permanência apresentados no início do texto, cujos impactos podem ser percebidos no quadro de maiores percentuais para mulheres negras no mercado de trabalho em funções com menor remuneração, baixa valorização e reconhecimento profissional. 

Por outro lado, quando as jovens problematizam o currículo escolar e a representatividade, elas dialogam com a relevância da implementação de políticas educacionais específicas para o enfrentamento do racismo e das desigualdades de gênero e raça na educação.

Uma agenda que Geledés Instituto da Mulher Negra acompanha e aponta a urgência e necessidade de provimento e monitoramento para redução das desigualdades no Brasil.


  1.  Disponível em https://g1.globo.com/sp/sao-jose-do-rio-preto-aracatuba/noticia/2024/03/21/menina-e-pisoteada-e-xingada-de-macaca-e-cabelo-de-bombril-por-alunos-em-escola-municipal-diz-mae.ghtml 
    ↩︎

*Tânia Portella, consultora, sócia e representante de Geledés,

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