Você tem medo de que?

FONTEPor Graziely dos Reis Lemes, enviado ao Portal Geledés 
Foto: Enviado ao Portal Geledés

Eu tenho medo durante quase todo o tempo. Medo de não me fazer entender. Medo de ser meu próprio algoz, por outro lado sei que nada mais carrasco comigo mesma que o silêncio do qual tenho sido refém… sei que calo minhas palavras. Sei que há uma voz muito grave, clara e potente que sempre me lembra de como eu não deveria estar aqui ou que estou aqui com menos mérito que os corpos que se encontram vivões gritando sextou ou somos todos humanos, ao som daquelas coreografias amarelas que combinam bem com o tilintar de suas panelas.

Tenho medo de Trovões, tenho medo das Pilhérias e tenho muito medo dos olhares impiedosos que me comem desnudando a meu corpo como mais um pedaço de carne a ser digerido nas proximidades do Valongo ou de qualquer ribanceira onde parte da minha cor é atirada para putrefação perfurada. Tenho medo dos sorrisos que, nem sempre sob o disfarce da mão, caçoam das minhas veias, essas que não fazem questão de esconder o vermelho do qual se abastecem. Das tripas que não negam a bosta e do peito flamejante em suas vísceras escravizadas. Tenho medo quando estou só e um pouco menos quando não estou. Olho no reflexo do vidro e percebo o terror. O terror agarra a bolsa quando passo apressada para o trabalho, o terror aprisiona a minha pele e tem destruído meu espírito como se eu fosse realmente a máquina selvagem que ele mesmo prega. É verdade o medo está sempre aqui. Não importa o que eu fizesse, ele sempre esteve aqui.

Bem, me parece que o medo é o companheiro mais antigo, me incute o receio do mundo e me diz que tudo me é caro e, logo, minha alma presume, meu corpo não pode passar impune. Quando me calo o medo está. Quando fecho os meus olhos ele se deita em meu peito. Quando me escondo na poeira mofada do armário ele me coloca no colo e me faz gritar, não de prazer. Então que se dane o medo, o silêncio, o armário e toda essa poeira. Eu vou morrer de todo jeito mesmo… No fim de tudo, até aqui, o medo que mais me apavora é o de não dizer as coisas que o próprio medo fez calar. E o seu medo, qual é?

graziely dos reis lemes

lésbica negra

psicóloga,

mestranda em educação pela UFMT


** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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