Empoderamento econômico da população afrodescendente e o papel dos bancos nacionais e multilaterais de desenvolvimento – Versão Completa

Autor(a): Carolina Almeida Pereira
Editora: Geledés
Data: 2026

Este documento dá continuidade à série de publicações iniciada com Brasil e Durban – 20 anos depois, que, embora não seja o primeiro volume, inspirou esta coleção de documentos, que agora iniciamos, publicados pelo Centro de Documentação e Memória Institucional do Geledés – Instituto da Mulher Negra.

O Brasil e Durban – 20 anos depois foi lançado em 2021 e resultou de um esforço para refletir sobre os avanços e desafios 20 anos após a III Conferência Mundial contra o Racismo, realizada em Durban, África do Sul, em 2001. Este volume inaugural revisitou a histórica participação da sociedade civil brasileira no processo de construção de uma agenda política antirracista e antissexista no cenário internacional. Ele se tornou uma importante ferramenta de memória e inspiração, traçando os caminhos do ativismo negro e feminino no contexto global.

O presente documento, Empoderamento Econômico da População Afrodescendente e o Papel dos Bancos Nacionais e Multilaterais de Desenvolvimento, é o primeiro volume desta coleção e resulta de um evento realizado em Brasília, nos dias 9 e 10 de setembro de 2024. Este evento, uma colaboração entre Geledés – Instituto da Mulher Negra, IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, grupos de engajamento do G20, ONU Mulheres Brasil e outras organizações, trouxe à tona o papel dos bancos nacionais e multilaterais no empoderamento econômico da população afrodescendente.

A partir das discussões do seminário, destacam-se as questões prementes sobre o acesso ao crédito e ao financiamento, em que bancos como o BNDES desempenham um papel crucial. O BNDES, como propus em minhas reflexões anteriores, tem o potencial de ser mais que um simples facilitador financeiro; ele precisa ser um agente ativo no empoderamento econômico da população afrodescendente, com políticas específicas de crédito e financiamento voltadas para os negócios liderados por negros e negras, seja nas áreas urbanas centrais ou periféricas, ou nas áreas rurais.

O evento evidenciou a necessidade de políticas públicas que combatam a exclusão econômica e promovam uma inclusão financeira justa e equitativa. Para isso, não podemos mais nos dar ao luxo de apenas discutir o empoderamento econômico de maneira teórica ou pontual. As ações devem ser concretas, com medidas práticas que assegurem o acesso da população negra ao crédito, à capacitação e ao financiamento de suas iniciativas econômicas. Em um país onde as desigualdades raciais são persistentes e profundas, somar forças para garantir essas condições é urgente.

Empoderamento Econômico da População Afrodescendente e o Papel dos Bancos Nacionais e Multilaterais de Desenvolvimento

Este volume busca sistematizar as discussões e propostas que surgiram durante o seminário e transformá-las em diretrizes para futuras ações políticas e financeiras. Com isso, espera-se fortalecer a participação dos bancos de desenvolvimento no processo de transformação econômica, assegurando que as políticas de crédito e financiamento não apenas sejam acessíveis, mas também ajudem a criar um ambiente de desenvolvimento inclusivo, que beneficie a população afrodescendente como um todo, mas especialmente a sua juventude e mulheres.

Ao longo do evento, grupos de trabalho se reuniram e propuseram cerca de 35 propostas de ação, organizadas em diversas temáticas. Dentre essas propostas, algumas das mais desafiadoras para o BNDES incluem a necessidade de um programa de crédito mais acessível para empresas de economia solidária, com foco na geração de renda e emprego para a população negra. Outro ponto crítico foi a proposta de criação de linhas de financiamento específicas para a educação financeira e capacitação empreendedora de jovens negros e negras, a fim de prepará-los para os desafios do mercado e estimular o desenvolvimento de novos negócios no âmbito da economia afro-brasileira.

O empoderamento econômico da população afrodescendente não é apenas uma questão de justiça social, mas uma questão estratégica para a construção de um país mais justo e democrático. A emancipação econômica dos negros e negras é, sem dúvida, a chave para transformar as desigualdades históricas em oportunidades reais de inclusão e desenvolvimento. Por isso, é fundamental que os bancos de desenvolvimento, tanto nacionais quanto multilaterais, assumam sua responsabilidade na criação de um sistema financeiro inclusivo, que ofereça as ferramentas necessárias para que os afrodescendentes possam prosperar, gerar riqueza e contribuir para a mudança estrutural que tanto necessitamos. O futuro do Brasil depende da igualdade econômica, e a população afrodescendente precisa ser a protagonista desse processo de transformação.

Sueli Carneiro
Coordenadora Executiva
Centro de Documentação e Memória Institucional
Geledés – Instituto da Mulher Negra

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