A criação, em maio de 2025, do People of African Descent Stakeholder Group – Stakeholder Group de Afrodescendentes – instância de representação da população afrodescendente no âmbito das Nações Unidas constitui uma conquista histórica e irreversível da luta antirracista global. Seu reconhecimento formal pelo Major Groups and Other Stakeholders Coordination Mechanism (MGOS CM) simboliza o rompimento de uma longa tradição de silenciamento institucional e inaugura uma nova etapa na afirmação política, epistêmica e estratégica da população afrodescendente nos espaços multilaterais. Que este grupo agora exista é, em si, um gesto de reparação e uma abertura à construção de um futuro comum fundado na justiça.
Este documento integra a série iniciada por Brasil e Durban – 20 anos depois e chega ao seu nono volume como parte do esforço sistemático do Geledés – Instituto da Mulher Negra para registrar e politizar momentos decisivos da participação negra na arena internacional. A publicação dá continuidade a esse percurso com o mesmo compromisso de memória, análise e transformação, reafirmando o lugar das vozes afrodescendentes na formulação de agendas de desenvolvimento e direitos humanos.
O evento aqui documentado, realizado em julho de 2024 durante o High-level Political Forum on Sustainable Development – Fórum de Alto Nível sobre Desenvolvimento Sustentável, foi concebido como parte ativa do processo que culminaria na criação do stakeholder group dos afrodescendentes. Mesmo sem o reconhecimento formal à época, a mesa organizada por Geledés já operava como espaço legítimo de articulação e protagonismo. Reunindo lideranças de diferentes continentes e experiências, o encontro lançou as bases de uma demanda coletiva que encontrou eco e legitimidade nos meses que se seguiram.
As reflexões apresentadas nesse evento expõem com clareza as múltiplas formas de exclusão enfrentadas por afrodescendentes nos mecanismos da ONU, mas também revelam a potência de uma solidariedade multidimensional em construção. Falas como as de Rashima Kwatra, Carole Osero-Ageng’o, Paul Divakar, Oli Henman e Barbara Reynolds não apenas defenderam a criação do novo stakeholder group — elas o anteciparam, ao enunciar suas razões éticas, políticas e históricas com contundência.
Ao valorizar a diversidade de trajetórias e identidades dentro da própria população afrodescendente, o debate ali travado rechaça qualquer forma de uniformização e reafirma que a justiça global só será alcançada quando todos os grupos historicamente marginalizados tiverem presença e voz nos processos decisórios.
O novo stakeholder group nasce, portanto, não como concessão, mas como conquista — resultado direto da articulação política de Geledés junto a outras organizações negras e antirracistas ao redor do mundo.
Este volume registra essa virada. É testemunho e instrumento. Recupera um momento anterior à vitória, mas já impregnado da esperança combativa que a tornou possível. E oferece às gerações presentes e futuras um exemplo concreto de que, no enfrentamento ao racismo sistêmico, a presença negra nos espaços de poder global é mais do que necessária: é inadiável.
Sueli Carneiro
Coordenadora Executiva
Centro de Documentação e Memória Institucional
Geledés – Instituto da Mulher Negra
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