Instrumentalização do racismo pelos movimentos de extrema direita global

Autor(a): Kátia Mello
Editora: Geledés – Centro de Documentação e Memória Institucional
Data: 2026

Este documento dá continuidade à série de publicações iniciada por Brasil e Durban – 20 anos depois, editado e publicado em 2021 pelo Centro de Documentação e Memória Institucional do Geledés – Instituto da Mulher Negra, cuja missão é preservar e difundir a memória do protagonismo político de Geledés e dos movimentos negros e de mulheres com os quais compartilha trajetórias de luta por justiça social e direitos humanos.

Brasil e Durban – 20 anos depois foi a primeira obra desta série. Resultado de um processo de pesquisa documental e entrevistas com protagonistas da III Conferência Mundial contra o Racismo, realizada em Durban em 2001, o livro documenta a atuação estratégica das organizações da sociedade civil brasileira na conferência, destacando a construção de uma agenda política antirracista e antissexista no cenário internacional. Ao sistematizar esse percurso, a publicação oferece às novas gerações uma ferramenta de memória, análise crítica e inspiração para a ação política transformadora.

O presente volume, Instrumentalização do Racismo pelos Movimentos de Extrema Direita Global, representa o segundo marco desta série editorial. Ele se ancora na realização da mesa-redonda homônima promovida por Geledés em 12 de setembro de 2023, na sede das Nações Unidas em Genebra, Suíça. O evento reuniu especialistas do sistema ONU, ativistas e jornalistas de renome internacional para analisar como a extrema direita contemporânea tem apropriado o racismo como estratégia de poder, desmantelamento institucional e produção de violência política contra povos afrodescendentes.

Esta publicação sintetiza e analisa criticamente os discursos e reflexões apresentados no evento, tratando de forma direta a ascensão transnacional da nova extrema direita — tecnicamente articulada, ideologicamente reacionária e economicamente bem financiada. Os testemunhos aqui reunidos revelam um padrão coordenado de erosão das democracias, ataque às resoluções de direitos humanos e reconstrução simbólica de ideologias autoritárias, agora moldadas para operar dentro do próprio sistema democrático e de seus mecanismos multilaterais.

As análises reunidas nesta obra apontam que o racismo deixou de ser apenas um resquício estrutural dos regimes coloniais e escravistas: tornou-se uma ferramenta sofisticada, intencionalmente instrumentalizada para desestabilizar consensos civilizatórios. Termos como “gênero”, “igualdade racial” e “direitos humanos” passaram a ser alvos centrais de um revisionismo coordenado, que atua simultaneamente nos parlamentos, nas redes sociais, nas igrejas e nas instâncias internacionais. O desmonte semântico de conceitos fundamentais da dignidade humana é, aqui, um dos principais mecanismos de ação dessas forças regressivas.

Ao mesmo tempo, o documento revela com contundência a letalidade cotidiana do racismo contemporâneo. Os corpos afrodescendentes, especialmente os mais jovens, seguem sendo alvos prioritários da violência de Estado e da necropolítica global. Mas agora isso ocorre sob o verniz da “ordem” e da “segurança pública”, em sistemas supostamente democráticos, onde até mesmo agentes racializados atuam como vetores da lógica supremacista. A crise não é apenas institucional, é civilizatória: há uma reconfiguração transnacional dos fundamentos do pacto democrático, e o racismo é seu motor.

Por isso, este volume não se limita à denúncia. Ele propõe estratégias. Reivindica a construção urgente de uma coordenação global antirracista, liderada por afrodescendentes. Defende uma educação paralela, fora dos circuitos coloniais. Clama por novas linguagens e alianças. E alerta: não haverá enfrentamento à extrema direita sem o desmonte dos seus pilares racistas. Assim como o primeiro livro recuperou a força coletiva de Durban, este segundo aponta o caminho para um novo levante: lúcido, articulado e radicalmente comprometido com a vida.

Sueli Carneiro
Coordenadora Executiva
Centro de Documentação e Memória Institucional
Geledés – Instituto da Mulher Negra

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