Justiça de gênero e racial no contexto do retrocesso democrático

Autor(a): Katia Mello
Editora: Geledés – Centro de Documentação e Memória Institucional
Data: 2026

Este oitavo volume da série dá continuidade à coleção iniciada com Brasil e Durban – 20 anos depois, publicada em 2021 pelo Centro de Documentação e Memória Institucional do Geledés – Instituto da Mulher Negra. Cada edição desta coleção reafirma nosso compromisso de transformar memória e denúncia em ação política, fortalecendo a luta contra o racismo e o sexismo em escala nacional e internacional.

Este volume resulta do encontro “Justiça de Gênero e Racial no Contexto da Recessão Democrática”, realizado em março de 2025, em Nova York, durante a 69ª Comissão sobre a Situação da Mulher (CSW69), e agrega o conjunto de reflexões e propostas que emergiram deste espaço estratégico de resistência política e construção coletiva.

O documento que agora apresentamos é fruto de um diálogo direto e poderoso entre Geledés e organizações de mulheres africanas e latinoamericanas, evidenciando como esta aproximação transnacional, quando acontece, amplia perspectivas, agrega novas percepções e fortalece estratégias conjuntas na luta por justiça racial e de gênero.

A presença dessas alianças precisa se tornar contínua, estruturando um eixo sólido de articulação do Sul Global. Ao lado dessas vozes, também participaram atoras de grande relevância política e institucional, como a embaixadora Vanessa Dolce Faria, a Alta Representante para Gênero do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

As falas que ecoaram ao longo do evento expuseram, com contundência, os desafios que marcam nosso tempo: o avanço do autoritarismo, o fortalecimento dos movimentos antigênero, a crise climática, a erosão das instituições democráticas, os cortes de financiamento à sociedade civil e o recrudescimento do racismo estrutural.

A promessa de democracia plena mostrou-se frágil e seletiva, distante da realidade de mulheres afrodescendentes que seguem privadas de direitos elementares como segurança, saúde, trabalho decente e participação política.

Ficou evidente que, enquanto a violência letal, a precarização do trabalho e a invisibilidade nos espaços multilaterais continuarem a nos atingir de forma desproporcional, não haverá justiça de gênero nem racial.

Mas este volume também é, acima de tudo, um chamado à ação. As propostas apresentadas por lideranças e organizações de diferentes regiões do Sul Global convergiram em eixos estratégicos que orientam nossa luta.

Em primeiro lugar, a necessidade de fortalecer e descolonizar o financiamento dos movimentos de mulheres negras, criando fundos autônomos, redes de solidariedade e estratégias

próprias para sustentar a ação política sem dependência de agendas externas. Em segundo lugar, o fortalecimento da articulação transnacional entre mulheres afrodescendentes, latino-americanas e africanas, como base para disputar narrativas e espaços de governança global.

Também se destacou a urgência de proteger e ampliar os espaços multilaterais, como a CSW e os mecanismos da ONU, frente às tentativas de esvaziamento e cooptação por forças conservadoras.

Por fim, emergiu a centralidade da justiça reparatória, articulada ao direito à vida, ao trabalho digno, à participação política e ao reconhecimento das mulheres negras como sujeitos plenos de direito.

É neste horizonte que seguimos mobilizando nossas forças e alianças. Como temos afirmado ao longo desta série, não há democracia, nem justiça de gênero ou racial, enquanto nossas vozes forem silenciadas e nossas vidas continuarem descartáveis.

Seguiremos de pé, fazendo ecoar um levante negro global, inadiável e inegociável.

Mais do que diagnóstico, estes encontros produziram caminhos. As propostas convergiram para seis eixos centrais:

  1. Redistribuição econômica e justiça orçamentária — integração efetiva de recortes raciais e de gênero no planejamento e na execução orçamentária; financiamento direto para programas de empoderamento econômico de mulheres negras; e fortalecimento da economia do cuidado como pilar do desenvolvimento.
  2. Educação e ciência — ampliação do acesso de mulheres negras à educação formal e científica, incluindo bolsas e intercâmbios internacionais.
  3. Empreendedorismo com proteção social — superação da narrativa mercadológica do empreendedorismo, com acesso a crédito, assistência técnica, inovação tecnológica e inclusão nas cadeias produtivas, garantindo direitos trabalhistas e previdenciários.
  4. Acesso à terra, recursos e reparações — reconhecimento da titularidade das mulheres afrodescendentes sobre terras e territórios; acesso a crédito agrícola e proteção contra deslocamentos forçados; e políticas de reparação e compensação histórica.
  5. Cooperação e transversalidade internacional — consolidação de alianças regionais e globais, articulação com órgãos multilaterais e efetiva implementação de convenções e planos interamericanos e da ONU.
  6. Participação plena das afrodescendentes em todos os espaços de decisão.

As vozes que ecoaram nestes encontros nos convocam à ação. Não há emancipação possível sem desmantelar o racismo patriarcal que estrutura a pobreza. Não há desenvolvimento econômico sustentável sem redistribuição, visibilidade e reconhecimento.

Que este volume seja um instrumento de incidência política e um chamado urgente para que governos, organismos multilaterais e sociedade civil assumam estas propostas como agenda inadiável.

Sueli Carneiro
Coordenadora Executiva
Centro de Documentação e Memória Institucional
Geledés – Instituto da Mulher Negra

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