Este oitavo volume da série dá continuidade à coleção iniciada com Brasil e Durban – 20 anos depois, publicada em 2021 pelo Centro de Documentação e Memória Institucional do Geledés – Instituto da Mulher Negra. Cada edição desta coleção reafirma nosso compromisso de transformar memória e denúncia em ação política, fortalecendo a luta contra o racismo e o sexismo em escala nacional e internacional.
Este volume resulta do encontro “Justiça de Gênero e Racial no Contexto da Recessão Democrática”, realizado em março de 2025, em Nova York, durante a 69ª Comissão sobre a Situação da Mulher (CSW69), e agrega o conjunto de reflexões e propostas que emergiram deste espaço estratégico de resistência política e construção coletiva.
O documento que agora apresentamos é fruto de um diálogo direto e poderoso entre Geledés e organizações de mulheres africanas e latinoamericanas, evidenciando como esta aproximação transnacional, quando acontece, amplia perspectivas, agrega novas percepções e fortalece estratégias conjuntas na luta por justiça racial e de gênero.
A presença dessas alianças precisa se tornar contínua, estruturando um eixo sólido de articulação do Sul Global. Ao lado dessas vozes, também participaram atoras de grande relevância política e institucional, como a embaixadora Vanessa Dolce Faria, a Alta Representante para Gênero do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.
As falas que ecoaram ao longo do evento expuseram, com contundência, os desafios que marcam nosso tempo: o avanço do autoritarismo, o fortalecimento dos movimentos antigênero, a crise climática, a erosão das instituições democráticas, os cortes de financiamento à sociedade civil e o recrudescimento do racismo estrutural.
A promessa de democracia plena mostrou-se frágil e seletiva, distante da realidade de mulheres afrodescendentes que seguem privadas de direitos elementares como segurança, saúde, trabalho decente e participação política.
Ficou evidente que, enquanto a violência letal, a precarização do trabalho e a invisibilidade nos espaços multilaterais continuarem a nos atingir de forma desproporcional, não haverá justiça de gênero nem racial.
Mas este volume também é, acima de tudo, um chamado à ação. As propostas apresentadas por lideranças e organizações de diferentes regiões do Sul Global convergiram em eixos estratégicos que orientam nossa luta.
Em primeiro lugar, a necessidade de fortalecer e descolonizar o financiamento dos movimentos de mulheres negras, criando fundos autônomos, redes de solidariedade e estratégias
próprias para sustentar a ação política sem dependência de agendas externas. Em segundo lugar, o fortalecimento da articulação transnacional entre mulheres afrodescendentes, latino-americanas e africanas, como base para disputar narrativas e espaços de governança global.
Também se destacou a urgência de proteger e ampliar os espaços multilaterais, como a CSW e os mecanismos da ONU, frente às tentativas de esvaziamento e cooptação por forças conservadoras.
Por fim, emergiu a centralidade da justiça reparatória, articulada ao direito à vida, ao trabalho digno, à participação política e ao reconhecimento das mulheres negras como sujeitos plenos de direito.
É neste horizonte que seguimos mobilizando nossas forças e alianças. Como temos afirmado ao longo desta série, não há democracia, nem justiça de gênero ou racial, enquanto nossas vozes forem silenciadas e nossas vidas continuarem descartáveis.
Seguiremos de pé, fazendo ecoar um levante negro global, inadiável e inegociável.
Mais do que diagnóstico, estes encontros produziram caminhos. As propostas convergiram para seis eixos centrais:
As vozes que ecoaram nestes encontros nos convocam à ação. Não há emancipação possível sem desmantelar o racismo patriarcal que estrutura a pobreza. Não há desenvolvimento econômico sustentável sem redistribuição, visibilidade e reconhecimento.
Que este volume seja um instrumento de incidência política e um chamado urgente para que governos, organismos multilaterais e sociedade civil assumam estas propostas como agenda inadiável.
Sueli Carneiro
Coordenadora Executiva
Centro de Documentação e Memória Institucional
Geledés – Instituto da Mulher Negra
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