Nos dias 20 e 21 de maio de 2025, a sede do Ipea, em Brasília, recebeu o Seminário Nacional sobre Dados, Raça, Gênero e Clima. O encontro foi organizado por Geledés – Instituto da Mulher Negra, Observatório do Clima e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, reunindo mais de 80 participantes de organizações da sociedade civil, universidades, órgãos públicos federais e redes de pesquisa de diferentes regiões do país.
O objetivo foi direto e urgente: discutir como o Brasil produz, cruza e utiliza dados sobre a crise climática e por que é impossível falar em adaptação, mitigação ou planejamento climático sem considerar raça, gênero, classe, idade e território.
A partir desse encontro, lançamos agora o relatório-síntese Dados, Raça, Gênero e Clima, que sistematiza os principais debates, evidências apresentadas e propostas construídas coletivamente ao longo dos dois dias.
A crise climática não afeta todas as pessoas da mesma forma. No Brasil, seus impactos seguem a geografia das desigualdades históricas. Ondas de calor atingem com mais intensidade populações negras e periféricas. Desastres climáticos se concentram em territórios marcados por ausência de infraestrutura e políticas públicas. O trabalho informal e o trabalho do cuidado, majoritariamente exercidos por mulheres negras, quase não aparecem nas análises de impacto econômico.
Ainda assim, quando olhamos para as bases de dados que orientam políticas públicas, essas diferenças muitas vezes não estão visíveis.
O seminário partiu de uma pergunta central: que políticas estamos deixando de fazer quando não enxergamos quem é mais afetado?
Ao longo das mesas e debates técnicos, foram apresentadas evidências científicas sobre desigualdades raciais na mortalidade associada a eventos extremos, desafios na integração de bases como Censo, CadÚnico, sistemas de saúde e registros de desastres, e lacunas na coleta obrigatória do quesito raça/cor em sistemas administrativos. Também foram discutidas as limitações do planejamento público quando os dados não dialogam entre si.
O relatório organiza essas contribuições em uma matriz de lacunas e estratégias estruturada em três eixos: cidades; trabalho, renda e subsistência; e acesso a direitos, especialmente saúde e educação. Entre as recomendações estão:
O que está em jogo não é apenas aprimoramento técnico. É compromisso democrático. É reconhecer que a crise climática intensifica desigualdades estruturais e que políticas públicas só serão eficazes se forem desenhadas a partir da realidade concreta das populações mais expostas.
O lançamento deste relatório não encerra um processo. Ele inaugura uma agenda permanente de incidência, cooperação técnica e articulação entre sociedade civil, academia e Estado. A transformação da política climática brasileira passa necessariamente pela transformação da forma como produzimos e utilizamos dados.
Se queremos enfrentar a emergência climática com justiça, precisamos começar pelo básico: enxergar quem sempre esteve na linha de frente.
O relatório está disponível para leitura e compartilhamento. Que ele seja instrumento de trabalho, de incidência e de construção coletiva de uma política climática antirracista e comprometida com a equidade.
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