Mulheres negras no centro do desenvolvimento: propostas para justiça econômica e social

Autor(a): Katia Mello
Editora: Geledés – Centro de Documentação e Memória Institucional
Data: 2026

Este sétimo volume da série dá continuidade à coleção iniciada com Brasil e Durban – 20 anos depois, publicada em 2021 pelo Centro de Documentação e Memória Institucional do Geledés – Instituto da Mulher Negra. Cada volume reafirma nosso compromisso de transformar memória e denúncia em ação política, fortalecendo a luta contra o racismo e o sexismo em escala nacional e internacional.

Ao reunir os dois encontros realizados em março de 2024 — em Nova York, durante a 68ª Comissão da ONU sobre a Situação da Mulher (CSW), e em Washington, sede da OEA, na data em que celebramos o Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial —, este volume traz à luz a centralidade das mulheres negras na construção de qualquer projeto de emancipação econômica real e, portanto, de justiça social.

O Brasil, com seus 60,6 milhões de mulheres negras, não pode continuar refém da invisibilidade e das hierarquias estruturais que nos relegam à periferia do desenvolvimento.

As falas de ambas as reuniões foram marcadas pela coragem de desnudar os desafios estruturais que perpetuam a pobreza intergeracional das mulheres negras e afrodescendentes. Ficou evidente que políticas universais, quando ignoram raça e gênero, reforçam a desigualdade em vez de superá-la.

Foram denunciadas a precarização do trabalho, a informalidade, o racismo institucional e a violência estrutural que mantêm nossas mulheres nos postos mais desvalorizados da economia.

No plano global, foi exposta a urgência de enfrentar o racismo sistêmico e a omissão histórica que exclui afrodescendentes dos orçamentos nacionais e dos mecanismos de financiamento internacionais, incluindo a própria Agenda 2030.

Mais do que diagnóstico, estes encontros produziram caminhos.

As propostas convergiram para seis eixos centrais:

  1. Redistribuição econômica e justiça orçamentária — integração efetiva de recortes raciais e de gênero no planejamento e na execução orçamentária; financiamento direto para programas de empoderamento econômico de mulheres negras; e fortalecimento da economia do cuidado como pilar do desenvolvimento.
  2. Educação e ciência — ampliação do acesso de mulheres negras à educação formal e científica, incluindo bolsas e intercâmbios internacionais.
  3. Empreendedorismo com proteção social — superação da narrativa mercadológica do empreendedorismo, com acesso a crédito, assistência técnica, inovação tecnológica e inclusão nas cadeias produtivas, garantindo direitos trabalhistas e previdenciários.
  4. Acesso à terra, recursos e reparações — reconhecimento da titularidade das mulheres afrodescendentes sobre terras e territórios; acesso a crédito agrícola e proteção contra deslocamentos forçados; e políticas de reparação e compensação histórica.
  5. Cooperação e transversalidade internacional — consolidação de alianças regionais e globais, articulação com órgãos multilaterais e efetiva implementação de convenções e planos interamericanos e da ONU.
  6. Participação plena das afrodescendentes em todos os espaços de decisão.

As vozes que ecoaram nestes encontros nos convocam à ação. Não há emancipação possível sem desmantelar o racismo patriarcal que estrutura a pobreza. Não há desenvolvimento econômico sustentável sem redistribuição, visibilidade e reconhecimento.

Que este volume seja um instrumento de incidência política e um chamado urgente para que governos, organismos multilaterais e sociedade civil assumam estas propostas como agenda inadiável.

Sueli Carneiro
Coordenadora Executiva
Centro de Documentação e Memória Institucional
Geledés – Instituto da Mulher Negra

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