Não há desenvolvimento sustentável sem enfrentar o racismo

Autor(a): Katia Mello
Editora: Geledés – Centro de Documentação e Memória Institucional
Data: 2026

Esta publicação dá continuidade à série iniciada com Brasil e Durban – 20 anos depois, lançada em 2021 pelo Centro de Documentação e Memória Institucional do Geledés – Instituto da Mulher Negra. Desde então, construímos, em cada volume, um elo entre a memória de nossas lutas e a urgência de ações que enfrentem o racismo sistêmico que sustenta as desigualdades em nosso país e no mundo.

Este é o sexto volume da coleção e resulta do evento promovido por Geledés em setembro de 2023, durante a Cúpula dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, em Nova York. Naquele momento, afirmamos com clareza o que a história e a realidade nos ensinam: não há desenvolvimento sustentável possível enquanto o racismo continuar sendo o pilar invisível — e aceito — das decisões globais.

Ao longo desses dois anos desde o evento, não nos calamos. Pelo contrário: nossa presença nas instâncias internacionais se ampliou, nossas propostas se consolidaram, e conseguimos avançar com firmeza na articulação política para o reconhecimento de um Stakeholder Group de Afrodescendentes no âmbito da ONU — uma conquista estratégica que ainda exige vigilância e continuidade.

O que está em jogo é mais do que representação: é a ruptura com uma ordem que historicamente tem marginalizado os corpos negros, suas vozes, suas epistemologias e seus territórios. Enfrentar o racismo no contexto dos ODS não é uma demanda setorial: é um imperativo ético, político e civilizatório.

O que este volume revela, com a contundência que a conjuntura exige, é que a linguagem das boas intenções não basta. São necessárias medidas estruturais, financiamento robusto, mecanismos de monitoramento vinculantes e, sobretudo, coragem para deslocar o centro das decisões para os que historicamente estiveram à margem. A resistência das elites globais em tratar o racismo como uma questão transversal à Agenda 2030 denuncia o pacto tácito que naturaliza a exclusão.

No evento promovido por Geledés, representantes da ONU, do governo brasileiro, da sociedade civil global e de comunidades tradicionais convergiram em torno de um diagnóstico uníssono: o racismo é um obstáculo sistêmico à sustentabilidade. As falas ampliaram a dimensão do problema e reforçaram que a justiça racial deve ser alicerce — e não apêndice — das políticas internacionais.

Ainda assim, foi a voz de Letícia Leobet, como moderadora e estrategista política, que costurou com precisão o fio condutor entre denúncia e proposição, colocando as mulheres negras no centro da transformação global. Letícia apresentou, com firmeza e rigor, propostas que transformam este volume em um manifesto de ação.

Destacou a urgência da coleta de dados desagregados por raça e etnia como base de qualquer política pública séria; defendeu o empoderamento econômico das mulheres afrodescendentes por meio de financiamento direto e fortalecimento de tecnologias sociais; reiterou a importância da educação antirracista e da representatividade em espaços de poder.

Sua fala, ancorada na experiência de quem atua diariamente nos bastidores e nas frentes mais visíveis do sistema internacional, reatualiza a tradição do pensamento negro feminino: radical na crítica, potente na construção.

Que este documento ecoe como denúncia, mas também como anúncio: há um levante negro em curso, e ele é inegociável.

Sueli Carneiro
Coordenadora Executiva
Centro de Documentação e Memória Institucional
Geledés – Instituto da Mulher Negra

 

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