O papel do financiamento para o desenvolvimento no empoderamento econômico das mulheres

Autor(a): Katia Mello
Editora: Geledés – Centro de Documentação e Memória Institucional
Data: 2026

Este décimo volume da série dá continuidade à coleção iniciada com Brasil e Durban – 20 anos depois, publicada em 2021 pelo Centro de Documentação e Memória Institucional do Geledés – Instituto da Mulher Negra. Volume após volume, reforçamos o propósito de converter conhecimento, prática militante e articulação coletiva em estratégias de incidência política.

Este volume resulta do evento paralelo realizado em julho de 2025, durante o Fórum Político de Alto Nível (HLPF) das Nações Unidas, em Nova York, e mergulha no tema central: como o financiamento para o desenvolvimento pode se tornar um instrumento real de empoderamento econômico para as mulheres, em especial mulheres afrodescendentes, indígenas e outras historicamente marginalizadas do Sul Global.

As falas reunidas neste encontro expõem as barreiras sistêmicas que limitam o acesso das mulheres ao crédito, à terra, à educação, ao trabalho decente e às políticas públicas. Ficou evidente que os modelos econômicos e financeiros vigentes seguem reproduzindo desigualdades forjadas por legados coloniais, patriarcais e racistas, enquanto lucram com a exclusão de corpos e territórios vulnerabilizados.

Foram apresentadas críticas contundentes à ideia de “empoderamento econômico” descolado da justiça social: não basta incluir mulheres em sistemas excludentes; é preciso transformar as estruturas que as mantêm na periferia econômica.

Em conjunto, as propostas apresentadas durante o evento apontaram para caminhos claros e radicais: a necessidade de financiamento intencionalmente redistributivo, que priorize as mulheres mais impactadas pela pobreza e pelas múltiplas discriminações, inclusive com mecanismos diretos, de longo prazo e flexíveis, que cheguem a organizações de base e movimentos feministas; a centralidade da economia do cuidado, com investimentos robustos em serviços públicos, infraestrutura social e políticas que formalizem e valorizem o trabalho historicamente invisibilizado das mulheres, criando emprego e renda para comunidades inteiras; o compromisso com justiça reparatória que integre raça, gênero, território e diversidade sexual como eixos estruturantes do financiamento, garantindo produção de dados desagregados para orientar e monitorar políticas eficazes.

Por fim, a defesa de uma nova arquitetura financeira, que incorpore transparência, participação social, soberania das comunidades e reestruturação de dívidas para liberar recursos para políticas sociais, ao invés de perpetuar a dependência do Sul Global.

O consenso que emerge destas vozes é inequívoco: não há empoderamento econômico sem redistribuição, reparação e transformação estrutural. Incluir mulheres afrodescendentes, indígenas, migrantes e periféricas em sistemas que permanecem excludentes não é suficiente; é preciso criar novas mesas, novas regras e novas prioridades de investimento que partam das margens para o centro.

A justiça econômica para as mulheres negras e racializadas é o caminho para uma transformação social duradoura, e o levante global das vozes antes silenciadas é irreversível.

Sueli Carneiro
Coordenadora Executiva
Centro de Documentação e Memória Institucional
Geledés – Instituto da Mulher Negra

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