Com mais de três décadas de existência, a Mocidade Unida da Mooca (MUM) tem se destacado no Carnaval paulistano. Nos últimos anos, optou por enredos políticos e com exaltação à população negra e indígena, essa mudança não é um mero acidente e tem ligação direta com um processo de recondução dos objetivos da escola. Em 2026, chega na avenida com uma homenagem à Geledés e ao poder feminino negro.
A história da escola começa em 1987, sendo fundada por Roberto Falanga. O presidente Rafael Falanga, filho do fundador, destaca que a criação da agremiação ocorreu em um contexto de pós-ditadura e em uma Mooca operária. “É uma escola de samba que começa na rua, mais especificamente no Largo São Rafael”, diz. Desde 1993, ocupam um galpão embaixo do Viaduto Bresser, chamado carinhosamente pelos componentes de “nossa encruzilhada”.
O cantor, compositor e intérprete oficial da MUM, Gui Cruz, define a escola como uma extensão de sua casa: “uma grande família”. Integra a agremiação desde os 15 anos de idade. Lá, compôs seu primeiro samba-enredo ganhador.

Para ele, é muito significativo ver a escola crescer e ter a oportunidade de se desenvolver junto com ela. “A MUM tem uma identidade muito forte, tem um lado nas lutas e nas batalhas que nos acompanham no dia a dia”.
Segundo Rafael, o fato dos componentes verem a escola como um ambiente acolhedor passa pelo tratamento humanizado da direção e por ser um espaço de expressão.
“Desfiles de samba são feitos de gente. Os quesitos plásticos – alegoria e fantasia – são só dois. O resto são as pessoas. A partir disso, entendemos a importância de ter o povo engajado, feliz e comprometido”, diz.

A trajetória da MUM
O enredo de estreia em 1988 foi “No País da Marmelada”, alcançando o terceiro lugar no grupo Seleção. “Era um enredo crítico e político, mas com um tom de humor. Falava de reforma agrária e de uma série de questões da época com um tom mais leve”, explica Rafael.
Na década de 1990, a escola alcançou o Grupo 1 – atual Acesso 2 – passando a desfilar no Sambódromo do Anhembi. Em 2004, passou a ter a primeira presidenta negra de sua história: Elza Dagmar dos Santos. Já em 2014, sob a presidência de Rafael Falanga, se tornou campeã do Grupo 2 – atual Acesso 1.
A questão racial era pouco tratada nos enredos, com exceções para os temas “A culinária africana – influências, evolução e comercialização no Brasil” (2008) e “Carinhoso como o tema, imortal como o poema. Pixinguinha 40 anos de saudade” (2014). Mas o ano de 2018 é o ponto de virada dessa história.
“A Mocidade Unida da Mooca possui em seu tecido social uma forte ligação com a ideia da italianidade, trazendo poucos enredos que falem da negritude, fato este que se altera com a chegada de André Rodrigues. Coube a esse carnavalesco, de forma indireta, o papel de cruzar sua própria experiência e vivência em sociedade com a realidade da escola da Zona Leste; como resultado, uma nova sequência temática de enredos alterou a forma como a Mooca se veria dali para frente”, pontua Emerson Porto Ferreira no artigo “Construção de identidade: os enredos negros da escola de samba Mocidade Unida da Mooca”.
Rafael Falanga relata que foi realizada uma autocrítica acerca do que se gostaria de transmitir a partir dos desfiles da MUM. Neste sentido, a chegada do carnavalesco André Rodrigues possibilitou uma recondução para abordar histórias e pautas relevantes para a população brasileira.
Essa decisão veio acompanhada de vitórias. Em 2018, com o enredo “Santíssima Trindade de Oyó”, a MUM foi campeã do grupo de Acesso 2, marcando os 30 anos da escola. “Manto Sagrado, a História Que o Tempo Bordou”, “A Ópera Negra de Abdias do Nascimento”, “Aruanda – O Eterno Retorno”, “O Santo Negro da Liberdade” e “Oyá Helena” – uma homenagem à filósofa Helena Theodoro – foram os temas que seguiram desde então.
Em 2025, a escola se tornou vice-campeã do grupo de Acesso 2 com o enredo “Krenak – O Presente Ancestral”. A colocação permitiu que em 2026, a agremiação entrasse para o Grupo Especial.
A mudança nas temáticas chegou acompanhada de rodas de conversas com os componentes, com a intenção de aprofundar e causar reflexões sobre a importância das pautas, para além do desfile. A virada se refletiu no perfil da agremiação, que recebeu mais integrantes negros.
“Virou uma marca da escola ter enredos com propósito, com a essência de Brasil, falando das questões dos povos negros e indígenas. É no Brasil que a gente tem cantado e trilhado nossos caminhos”, destaca Rafael.
O enredo de estreia no Grupo Especial
Segundo Rafael, a estreia da MUM no Grupo Especial estava dividida na escolha entre dois temas: Geledés, baseado nas sociedades de mulheres negras, e Agô, num pedido de licença. Ele conta que no momento de escrita do samba pelos compositores, a letra foi se desenhando num tom mais aguerrido e combativo, o que definiu o enredo oficial: “GÈLÈDÉS- Agbara Obinrin”.
Ao homenagear o Instituto Geledés e a potência das mulheres negras brasileiras, o enredo criado pelo carnavalesco Renan Ribeiro e pela enredista Thayssa Menezes pretende ser uma ode à força invisível que transforma o mundo: o poder do feminino negro.
Ste Oliveira, cantora e intérprete oficial da MUM, se sente representada pelo enredo. “Sou uma mulher negra, independente, candomblecista, mãe solo e que luta por um mundo melhor, pelo lugar que a mulher negra merece conquistar na vida. Então, pra mim, esse enredo é muito necessário”, afirma.
Já o cantor Gui Cruz pontua: “nada melhor do que abrir o Carnaval de São Paulo, na maior audiência, que é a primeira de sexta-feira de desfile, e levar um tema tão importante como exaltar o Instituto Geledés e a luta das mulheres negras do nosso país. Tenho certeza que as pessoas vão se reconhecer na trajetória do Instituto e na história de muitas mulheres negras que vão passar e vão estar ali representadas na pista”.