Na última quinta-feira (14), Geledés – Instituto da Mulher Negra realizou o lançamento de três obras que reafirmam a importância da memória institucional como ferramenta de transformação política. Foram publicados os seguintes livros: “As experiências de Geledés na implantação de ações afirmativas e cotas raciais no Brasil”, “Caderno Geledés Vol. 6 – Fortalecendo as Raízes Democráticas da América Latina” e “Caderno Geledés Vol. 7 – Saberes Quilombolas”.
O evento contou com três mesas de conversa sobre as obras, que refletem sobre democracia e articulação latino-americana, ações afirmativas e cotas raciais, e a importância dos saberes quilombolas na produção de conhecimento. A pesquisa e redação dos livros foi feita por Iradj Eghrari, consultor internacional de Geledés.
“Esse momento é especial porque nós estamos retomando as publicações dos Cadernos Geledés. O último caderno havia sido lançado em 1995. Depois de 31 anos, essa série está de volta. E volta porque a memória de Geledés é método e ferramenta de leitura crítica do presente”, afirmou Sueli Carneiro, coordenadora de Memória e Reparação.
Fotos: Tatiana Pereira

Caderno Geledés Vol. 6 – Fortalecendo as Raízes Democráticas da América Latina
A primeira mesa de conversa tratou da publicação “Caderno Geledés Vol. 6 – Fortalecendo as Raízes Democráticas da América Latina”, que registra as reflexões e experiências geradas a partir de uma viagem de representantes da Casa Sueli Carneiro ao Chile e à Colômbia em 2022.
Ambas as viagens ocorreram em importantes momentos políticos e as participantes puderam observar as articulações realizadas pelo movimento de mulheres negras dos países em questão. Na Colômbia, a atual vice-presidente, Francia Márquez, estava à época em campanha para presidência do país. No Chile, ocorria a posse do então presidente Gabriel Boric.
Natalia Carneiro, diretora de Comunicação e Incidência Política da Casa Sueli Carneiro, mostrou ao público presente as fotografias que fez durante as viagens. “Na Colômbia e no Chile o que mais conseguimos perceber era uma juventude agarrada a uma esperança”, disse.
“Fizemos uma reunião em Cali [cidade da Colômbia] com uma organização de mulheres negras. Conversamos sobre o contexto eleitoral, como as mulheres negras se enxergavam naquele momento e sobre a possibilidade da Francia Márquez ser presidenta do país. Elas compartilharam como viam o movimento de mulheres negras no Brasil enquanto referência”, relatou.
Já no Chile, as participantes presenciaram a marcha do 8 de março, Dia Internacional da Mulher. “Víamos milhares de mulheres na rua. Era como se chegassem enxames de mulheres de todos os lugares. Mulheres mais velhas, novas, crianças”.
Mariana Belmont, assessora de clima e racismo ambiental de Geledés, também esteve presente nas viagens e relatou sobre as percepções acerca de questões raciais no Chile. “Fomos em uma reunião do movimento de mulheres afrochilenas e elas pediram ajuda para o movimento de mulheres negras brasileiras, dizendo que as pessoas lá não consideram que elas são chilenas. Então, as pessoas negras chilenas são tratadas no país como se fossem imigrantes e sofrem racismo cotidianamente”.
Ao fim da mesa, Natalia Carneiro ressaltou a importância da divulgação da memória e dos legados das mulheres negras. “Ter a oportunidade de fazer esses registros, contar essas histórias, significa que estamos no caminho certo. Que cada vez mais tenhamos outras casas e organizações cuidando desses legados e desses marcos históricos do movimento de mulheres negras”.
Sueli Carneiro, por sua vez, convidou o público a ler a publicação, para assim “perceber os nexos políticos e culturais que emanam as nossas lutas do Brasil ao das nossas irmãs e irmãos afrolatinoamericanos e caribenhos”, além de ampliar a perspectiva política acerca “desse subcontinente que tem uma experiência comum de desafios de consolidação da democracia e da promoção da igualdade de gênero raça, fruto que somos do processo colonial perverso que nos formou”.
Caderno Geledés Vol. 7 – Saberes Quilombolas
A segunda mesa de conversa versou sobre a obra “Caderno Geledés Vol. 7 – Saberes Quilombolas”, que descreve os aprendizados e relatos reunidos a partir de um encontro com intelectuais e lideranças quilombolas realizado na sede de Geledés em julho de 2022.
“A proposta era discutir as contribuições políticas, históricas e epistemológicas das mulheres quilombolas para a luta antirracista e refletir sobre como os conhecimentos produzidos nos territórios quilombolas tensionam e ampliam as formas tradicionais de pensar política, memória, território e comunidade”, contou Sueli Carneiro.
Participaram do encontro de 2022, as lideranças quilombolas Mariléa de Almeida, Givânia Maria da Silva e Selma dos Santos Dealdina. “Quando eu fui trabalhando nesse material e percebendo a profundidade que ele trazia, a primeira coisa que eu pensei foi ‘esse é um livro de compartilhar saberes’”, pontuou Iradj Eghrari.
Presente no lançamento, Selma Dealdina afirmou: “o Brasil ainda é um país que não conhece a sua história e a história dos quilombos. Temos mais de 8 mil quilombos, estamos em todos os biomas, somos mais de 2 milhões de pessoas”.
A liderança discorreu sobre a mobilização das mulheres quilombolas na luta pela titulação, pela salvaguarda da cultura, e pela valorização da identidade e da permanência nos territórios. Ressaltou que elas seguem resistindo mesmo em meio à ameaças ao seu corpo-território.
Selma falou também sobre o porquê considera Geledés um ambiente de aquilombamento. “Esse espaço aqui é muito importante para as mulheres quilombolas, entendendo que aqui tem um processo histórico que conta a luta das mulheres negras”.
As experiências de Geledés na implantação de ações afirmativas e cotas raciais no Brasil
A terceira e última mesa do evento abordou o livro “As experiências de Geledés na implantação de ações afirmativas e cotas raciais no Brasil”, que registra a trajetória da organização na construção de ações afirmativas e nas transformações que mudaram o acesso da população negra à universidade.
“Um dos pontos centrais do livro é o capítulo dedicado ao projeto Geração XXI, apresentado como primeiro programa de ação afirmativa para jovens negros no Brasil criado em 1999 a partir de uma articulação entre Geledés, Fundação BankBoston e Fundação Cultural Palmares”, explicou Sueli Carneiro.
Já Iradj Eghrari frisou que: “é importante destacar o número de atividades que Geledés se envolveu dentro do complexo de ações afirmativas quando não se falava disso aqui no Brasil. Este documento passa a ser o registro do pioneirismo de Geledés. E este pioneirismo, sem dúvida, tem duas protagonistas à frente: Sueli e Cidinha”.
A convidada Cidinha da Silva relatou a sua participação nesse processo. Abordou o entendimento das ações afirmativas como uma estratégia de enfrentamento das desigualdades raciais e a relevância do projeto Geração XXI ao fomentar o debate público sobre o tema.
Falou ainda sobre as barreiras que ainda persistem em relação ao acesso de pessoas negras à universidade. “Continuamos com um grande desafio, que é o da permanência. Continuamos contando com iniciativas que são individualizadas ou de pequenos grupos para garantir, por exemplo, a permanência de pessoas quilombolas”, disse a escritora.
E acrescentou: “as cotas possibilitaram a entrada e a mudança da paisagem humana das universidades públicas brasileiras. Mas o desafio da permanência é imenso”.