Amarildo, presente!

Por: Elaine Tavares

A caminhada dos Guarani em protesto contra a campanha sistemática do grupo RBS de desinformação e fortalecimento do preconceito, além de toda  a força expressada na união de vários movimentos de luta da cidade, teve seu momento de singela emoção. Misturadas às gentes, estavam algumas famílias da Ocupação Amarildo. Essa ocupação virou a cidade de pernas para o ar, em dezembro de 2013, quando cerca de 60 famílias entraram em um terreno ocioso no caminho da praia de Canasvieiras, colocando luz sobre todo um processo de grilagem de terra, envolvendo impolutos empresários locais.

A ocupação Amarildo também desvelou uma face escondida da ilha da magia, que muitos preferem fazer de conta que não existe: a existência de milhares de famílias que não conseguem pagar os altos aluguéis e garantir a vida de seus filhos. Tanto que em poucos dias de existência a ocupação passou de 60 para 470 famílias acampadas, arriscando os parcos recursos na luta por terra, trabalho e moradia.

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Durante meses os “amarildos” foram notícia na cidade, ocupando os espaços públicos, denunciando a grilagem, questionando o sistema, exigindo respostas da justiça e do estado. Meteram o dedo bem fundo na ferida e pagaram caro por isso. Em abril de 2014 as famílias acabaram despejadas do terreno em Canasvieiras. A elite local não queria saber de pobre na praia. E, no cair de uma noite cálida, lá estavam os caminhões, para retirar as pessoas, as tralhas e os bichos. Não havia para onde ir.

O braço estendido aos amarildos foi o braço Guarani. Da terra ocupada eles foram levados para a terra indígena que os abrigou até que conseguissem se fortalecer e rearticular o movimento. Hoje, as famílias da ocupação estão numa terra garantida pelo Incra, na grande Florianópolis.

E foi em nome desse braço estendido, de um povo tão sofrido e oprimido quanto eles, que vieram de suas terras para a caminhada. Aquele era um compromisso de solidariedade concreta. Um desses momentos únicos de expressão de gratidão.

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A bandeira vermelha dos amarildos tremulou bonita, mostrando que ainda há ternura na luta e que o povo, unido, avança seguro. Foi uma cena bonita de se ver…

 

fotos: rubens lopes

 

Fonte: E Teia

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