quinta-feira, novembro 26, 2020

    Questão Racial

    Caso Carrefour: "Será que esse comportamento agressivo e covarde de seus seguranças no Brasil, mesmo que terceirizados, teria lugar na França?" - Guilherme Gonçalves/Fotos Públicas

    Mais um brutal episódio que se encaixa no racismo patente no país

    No Dia da Consciência Negra deste ano a notícia mais comentada na imprensa e nas redes sociais foi o assassinato brutal de João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, negro, jardineiro, cometido por dois seguranças do Supermercado Carrefour, em Porto Alegre, acompanhado de perto por funcionária da empresa que nada fez para impedir a ação violenta. A primeira negra eleita para a Câmara de Vereadores de Joinville, a professora Ana Lúcia Martins, pelo Partido dos Trabalhadores, recebeu uma mensagem virtual ameaçadora – “agora só falta a gente matar ela e entrar o suplente que é branco (sic)” -, além de ter, logo após o resultado das urnas, suas redes sociais invadidas. Embora elogiada no trabalho, uma recepcionista negra de clínica médica em Nova Lima, Grande Belo Horizonte, foi demitida porque apareceu, depois do período de férias, com tranças, visual que “não combinaria com a imagem da clínica”. A recepcionista se recusou...

    Leia mais
    Sala de aula vazia Imagem: Getty Images

    Ciência e negritude no Brasil

    Um dos grandes objetivos das ciências modernas e contemporâneas — alicerçadas no que significaram as revoluções de ideias que culminaram em mudanças de paradigmas na Física e na Astronomia do século XVII — é construir cosmologias, realidades, representações de mundo. No entanto, embora negado, as ciências como construção humana não são neutras, puras, ingênuas, ateóricas e ahistóricas, desconectadas da ação (cosmo)política. Essas cosmologias científicas estão imbricadas na organização de sistemas globais do pensamento ocidental — colonialismo, capitalismo e patriarcado — no âmbito do que se caracteriza como Modernidade, que, em última instância, está atrelada à razão branca, à máxima eurocêntrica do “penso, logo existo”, em que o racismo tem sido o amálgama e o operador fundamental. Nesse sentido e na relação dialética com a construção histórica das ciências, a negritude, termo cunhado por Aimé Césaire em 1939, tem sido desconsiderada, inferiorizada, invisibilizada, silenciada, exterminada das ciências, e os corpos negros, destituídos de pensamento, do lugar de protagonismo...

    Leia mais
    Imagem: Geledes

    Escola de Jundiaí (SP) tampa menina negra de propaganda nas redes

    Veio a público nesta última quarta-feira, 23, que a família de uma menina negra de 10 anos registrou um boletim de ocorrência contra a escola que ela estuda por ser sido tampada em uma imagem de propaganda feita pela instituição nas redes sociais. Segundo o registro, o pai da aluna disse que estava na casa de amigos quando sua filha visualizou a publicação no perfil do Colégio Domus Sapiens, localizado em Jundiaí, São Paulo. No anúncio publicitário é possível ver quatro meninas, sendo três brancas e uma garota negra. Na arte, havia o texto “Importante na escola não é só estudar, é também criar laços de amizade e convivência – Paulo Freire”. De acordo com o pai, a família recebeu mensagens de indignação pela publicação. Porém, a instituição foi notificada pelos parentes da estudante e a postagem foi apagada. Uma nova fotografia foi publicada, dessa vez sem a arte e...

    Leia mais
    Adobe

    Assuma a sua passibilidade!

    Você pode ter o cabelo um pouco encrespado, mas a cor da sua pele coloca você num lugar privilegiado.  Nega Fya (Fabiana Lima)¹ Já decidi. Eu sou branca. Quero também o poder de fazer escolhas e, a partir de hoje, amplio em minha vida o sentido de passibilidade e vou torná-lo sinônimo de universalidade. Sim! A partir de hoje sou um sujeito universal e não admito mais ser racializada. Pisarei nesse chão social, sem aceitar classificações alheias, pois o importante é a minha opinião. Quando criança, por muitas vezes, senti medo de ser rechaçada pela cor da minha pele e sei que muitas pessoas negras se identificam com o meu temor. Eu pensava mais ou menos assim “Tomara que não falem mal do meu cabelo!”, “Será que hoje recebo um elogio da professora?” ou “E aquele personagem estranho do desenho, por favor, que ninguém diga que pareço com ele!”. Assim...

    Leia mais
    @MAUROYANGE/Nappy

    Poema NEGRO

    NEGRO Sou negro Sou forte! Sou Bravo Guerreiro. Meu jeito ligeiro, Ativo e viril Fez de mim Um homem serviçal no Brasil. Maltratado, acorrentado… De tudo já sofri. Fui tirado de minha pátria E só a ti eu servi. Meu povo! Ai que saudade De banto quase morri…. Sou negro Sou forte Zumbi dos Palmares Sob todos os olhares Traçou meu destino; E como um bravo menino A liberdade eu segui. No quilombo, pra onde fugia Era a Terra de alforria. Sonhei com esta alegria E só ali te senti! Sou negro Fui Forte Lutei até a morte! E hoje com muita sorte Sou de valor…. tenho porte! Igualo-me a qualquer raça. Pois para tudo tenho garra, força e determinação! Por isso eu posso gritar: Sou negro Sou forte Um Bravo de coração. Samara C. Alcantara de Andrade ** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL...

    Leia mais
    Victor Tongdee/Adobe

    Escrito em Nego

    Quando buscaram os Negros na África, trazendo-os como bichos amontoados em uma nau, ignorando suas paixões, estórias e a própria raiz ancestral, Foi escrito em negro e nos negros: sina trágica! No momento em que chegavam ao Cais do Valongo, Mortificados em corpo e alma pelos dissabores do trajeto; Travessia oceânica que pelo medo, pela ira e pela fome fazia-se mais longa, Escrito em pele negra foi: Objetos! No momento em que chegavam às senzalas com seus cabelos “Sarárá,” pele negra, dentes brancos, falando em dialetos nagô, suaíli ou banto, o povo da casa grande se perdia em olhares; ainda que ninguém se atrevesse nada a falar; Era ali escrito em negras pele, talvez por medo ou ignorância: Espanto. Na ração regrada e seca que aos negros era ofertada, Na água barrenta e lameada que não lhes provia da sede a saciedade, No preparar e não comer os quitutes da...

    Leia mais
    Foto: Getty Images

    Racismo mata: o caso do Carrefour e outros tantos Brasil adentro

    20 de Novembro é Dia da Consciência Negra. Conquista arrancada pelo Movimento Negro para assinalar a persistência do racismo que estrutura e dá forma ao Brasil, a data segue sendo uma construção renovada pelas forças vivas da negritude e homenageia nosso líder quilombola, revolucionário, Zumbi dos Palmares. 20 de novembro de 2020. O Brasil é despertado com uma cena absolutamente bestial. Com apenas uns cinco minutos, no estacionamento de uma unidade da rede de supermercados Carrefour, em Porto Alegre, agentes de segurança pública e privada atacam um homem negro numa sessão de espancamento até a morte. Simples assim. Com naturalidade, a cena bárbara foi gravada e depois ganhou o mundo pelas redes sociais. O homem assassinado sob impassível câmara de celular e estupefação quiçá explicativa da inércia coletiva tinha a cor dos anônimos negros e pardos, condição determinante para ser encarcerado ou preferencialmente morto. Sequer gera custo público. O homem...

    Leia mais
    A socióloga Márcia Lima, professora da USP e coordenadora do Afro, núcleo de pesquisa e formação sobre a questão racial no Cebrap. (Foto: WANEZZA SOARES)

    Márcia Lima: “Debate racial mudou de patamar. Não vejo mais os jovens aceitando silenciamento”

    A socióloga Márcia Lima (Barra do Piraí-RJ, 1971) coordena há um ano um núcleo de pesquisa sobre a questão racial em um dos mais prestigiosos centros de estudos sociais e políticos do Brasil, o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). Seu grupo, o Afro (Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial), foi criado em novembro de 2019 com a proposta não somente desenvolver e dar visibilidade para pesquisas sobre desigualdade racial, mas também abrir um caminho para que intelectuais negros ocupem mais espaços de excelência. É esse trajeto que a própria pesquisadora percorre há 30 anos —desde a sua graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde também fez doutorado em sociologia, nas passagens por instituições de prestígio internacionais como Columbia e Harvard (EUA) e no trabalho como professora da Universidade de São Paulo (USP) e no Cebrap, onde atua há 17 anos....

    Leia mais
    Foto: Reprodução/ Carrefour

    A polícia privada que guarda as vidraças do Carrefour

    Para o pescoço esmagado pelo joelho do agente fardado por longos quatro minutos, que diferença faz se o uniforme é policial ou privado? João Alberto não foi apenas morto por ser negro. João Alberto foi morto porque, sendo negro, a sua carne é, para seus algozes privados, a mercadoria mais barata na gôndola. Sem desmantelar o capitalismo policial por trás do racismo, vidas negras continuarão a ser alvejadas por algozes particulares, protegidos por trás de vidraças que ofuscam, mas não eliminam a distinção entre humanidade e barbárie. Há no Brasil um exército de 1 milhão de vigilantes aptos a trabalhar, 51% deles formalmente inativos, segundo Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2020. Inativo não significa inoperante. O setor de segurança privada é marcado por trabalhos informais (“bicos”), tolerados, mas não permitidos por lei para policiais, oficiais ou praças. Regulado pela portaria 3233/2012 da Polícia Federal, o controle sobre o setor...

    Leia mais
    "O que se viu no mercado dos playboys da Pamplona foi legítima defesa", explica Douglas Belchior (Foto: Pedro Stropassolas)

    Douglas Belchior sobre Carrefour: “Foi um protesto desproporcional. Eles nos matam”

    Uma das lideranças do movimento negro no Brasil, Douglas Belchior está incomodado. Quando chegou à manifestação da última sexta-feira (20), na avenida Paulista, em São Paulo, que deveria ser um ato pelo Dia da Consciência Negra e se tornou mais um protesto em repúdio à morte de um homem negro, o militante disparou. “Até quando? Está insuportável.” Na noite anterior, João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, foi espancado até a morte por dois seguranças privados e terceirizados do Carrefour, em uma unidade da multinacional francesa em Porto Alegre (RS). Os dois agentes são funcionários do Grupo Vector e trabalhavam irregularmente, de acordo com a Polícia Federal (PF). Ambos foram presos. No dia seguinte, por volta de 18h, o movimento negro marchou da avenida Paulista até a unidade do Carrefour na rua Pamplona, nos Jardins, zona nobre de São Paulo (SP). Lá, um grupo se destacou e entrou no supermercado,...

    Leia mais
    Foto: Nilson Bastian/ Câmara dos Deputados

    Tico Santa Cruz anuncia retirada de produtos do Carrefour e web pede mais

    Após o assassinato de João Alberto, um homem negro, por seguranças de uma loja do Carrefour, em Porto Alegre, na na quinta-feira, 19, véspera do Dia da Consciência Negra, o cantor Tico Santa Cruz anunciou, nesta sexta-feira, 20, o pedido para que sua editora retire seu livro das prateleiras e e-commerce do supermercado. Na web, internautas agiram no mesmo sentindo e uma campanha de boicote à rede varejista surgiu nas redes sociais. “Não comprem nada meu no Carrefour – NADA! Atenção Belas Letras retirem meus livros da venda do Carrefour IMEDIATAMENTE!!!”, escreveu Tico Santa Cruz em sua conta no Twitter, após ser provocado com um print de sua obra sendo vendida pelo Carrefour. “Vai aceitar que eles comercializem seus produtos?”, questionou um internauta. Não comprem nada meu no Carrefour - NADA! Atenção @belasletras retirem meus livros da venda do @carrefourbrasil IMEDIATAMENTE!!! https://t.co/LeQY54iMly — Ticosantacruz 🇧🇷❤️🤘🏻 (@Ticostacruz) November 20, 2020 Em...

    Leia mais
    (Foto: Isabella Pinheiro/Gshow)

    Falas Negras recebe milhares de elogios e Lázaro Ramos agradece

    A Globo exibiu na noite de ontem (20), no Dia da Consciência Negra, o especial Falas Negras, dirigido por Lázaro Ramos. A atração reuniu 22 depoimentos de atores interpretando nomes conhecidos pelo grande público na luta contra o racismo, como Nelson Mandela (Bukassa Kabengele) e Martin Luther King (Guilherme Silva). No programa, Taís Araújo interpretou Marielle Franco, vereadora assassinada no Rio de Janeiro, Tatiana Tibúrcio viveu a mãe do menino Miguel Otávio, que caiu de um dos andares de um prédio de luxo no Recife, enquanto estava sob os cuidados da patroa da mãe, e Silvio Guindane interpreto o pai de João Pedro, menino morto a tiros durante uma operação da polícia. O especial Fala Negras também contou com Muhammad Ali (Babu Santana), Milton Santos (Aílton Graça), Luiz Gama (Flavio Bauraqui), Lélia Gonzalez (Mariana Nunes), Angela Davis (Naruna Costa), Luiza Bairros (Valdineia Soriano), Malcolm X (Samuel Melo), entre outros. Para...

    Leia mais
    Douglas Belchior, cofundador da Uneafro Brasil e da Coalizão Negra por Direitos (Foto: Marlene Bargamo/Folhapress)

    Violência? Vandalismo? Os negros perderam a paciência, diz Douglas Belchior

    O que é vandalismo num país que mata um jovem negro a cada 23 minutos? Por que há mais comoção com vidraças e prateleiras quebradas do que com os negros assassinados todos os dias? Albert Camus, filósofo franco-argelino, dizia que "a violência não é patrimônio dos exploradores. Os explorados também podem empregá-la" E eu concordo com ele. Passou da hora de a população negra perder a paciência! (Professor Douglas Belchior, militante da Uneafro Brasil) A manifestação na avenida Paulista já estava marcada por várias entidades para celebrar o Dia Nacional da Consciência Negra, como acontece todos os anos. O brutal assassinato, na véspera, do negro João Alberto Freitas, por seguranças do Carrefour, em Porto Alegre, transformou a caminhada num protesto pacífico, com faixas e cartazes, e o policiamento acompanhando à distância, apenas para interditar ruas no trajeto. Estava acompanhando tudo pela televisão na tarde se sexta-feira, quando o âncora Márcio...

    Leia mais
    Mirtes Renata Santana, mãe de Miguel Otávio Santana da Silva Imagem: JÚLIO GOMES/LEIAJÁIMAGENS/ESTADÃO CONTEÚDO

    Racismo que matou João e vitimou Miguel encontra reação nas urnas

    O racismo desvaloriza as vidas negras. João Alberto Silveira Freitas, 40, um homem negro, foi espancado por um policial militar e um segurança na noite desta quinta (19) no estacionamento do Carrefour em Porto Alegre (RS). Mais um caso de violência racial em supermercados. Em 2019, vimos a tortura de um jovem negro de 17 anos no Ricoy, em São Paulo, e o sufocamento até a morte de outro jovem negro no Extra, no Rio. Em Recife, Miguel, o menino de Mirtes, completaria seis anos esta semana. Ele nasceu em 17 de novembro de 2014, às 7h42, rechonchudo. Pesou 4,5 quilos e mediu 42 centímetros. Teve a vida interrompida pelo desprezo, a negligência, a crueldade que muitas vezes determinam as relações raciais no Brasil. Miguel era muito pequeno. Não teve tempo de aprender o lugar do negro no país onde a sociedade se estruturou sobre o mais numeroso e longo...

    Leia mais
    A assistente jurídica Price Winfred Nalutaaya no escritório que a contratou por meio de programa de diversidade (Foto: Bruno Santos - 25.set.2020/ Folhapress)

    Escritórios de advocacia derrubam barreira elitista para melhorar inclusão racial

    O curso de direito da Faculdade Zumbi dos Palmares não é considerado de elite no mundo do ensino jurídico, mas suas aulas levaram a refugiada ugandense Price Winfred Natutaaya, 39, a conseguir um emprego de assistente jurídica na área de direito do consumidor em um grande escritório de São Paulo. Ameaçada de morte em Uganda pelo ativismo contra a mutilação genital de mulheres, Price chegou ao Brasil em 2013. Formada em economia, seus primeiros trabalhos no país foram como faxineira. Ela começou a cursar direito na Zumbi dos Palmares e logo conseguiu um estágio na Defensoria Pública de São Paulo. Em seguida, no começo deste ano, foi contratada pelo escritório Lee, Brock, Camargo Advogados no âmbito do programa de diversidade racial da banca jurídica. “No escritório me sinto prestigiada. Estou aprendendo muitas coisas na prática sobre direito do consumidor. A teoria que aprendemos na academia não é suficiente. Aqui vejo...

    Leia mais
    Foto: Divulgação/ ONU

    ONU contesta Mourão e pede debate urgente sobre o racismo brasileiro

    Em nota publicada nesta sexta-feira, 20, a Organização das Nações Unidas (ONU) contradiz o vice-presidente, general Hamilton Mourão, que disse não haver racismo no Brasil. O comunicado aponta que a morte de João Alberto Silveira Freitas, num Carrefour em Porto Alegre, "é um ato que evidencia as diversas dimensões do racismo e as desigualdades encontradas na estrutura social brasileira". A organização repudiou o fato de o brasileiro ter sido "brutalmente agredido" e pede investigação. "A violenta morte de João, às vésperas da data em que se comemora o Dia da Consciência Negra no Brasil, é um ato que evidencia as diversas dimensões do racismo e as desigualdades encontradas na estrutura social brasileira", diz a ONU. "Milhões de negras e negros continuam a ser vítimas de racismo, discriminação racial e intolerância, incluindo as suas formas mais cruéis e violentas", afirmou. "Dados oficiais apontam que a cada 100 homicídios no país, 75...

    Leia mais
    Manifestantes em frente ao Carrefour em Porto Alegre protestam pelo assassinato de João Alberto. (Foto: Guilherme Gonçalves/FotosPublicas)

    Justiça para João Alberto Silveira Freitas – Não seremos a carne mais barata do Carrefour

    Nenhum de nós ativistas do movimento negro e de mulheres negras poderíamos supor que esse 20 de novembro de 2020 acontecesse do jeito que aconteceu. Temos sido insistentes em denunciar a violência e a brutalidade policial contra a juventude negra, contra as favelas e periferias, esses lugares de residência, sim, re-si-dên-cia, de uma maioria negra – mulheres, homens, crianças e jovens negros. Temos sido enfáticos em denunciar que as chacinas e os homicídios de jovens negros são, sim, expressão do racismo e da discriminação racial no país. Temos sido contundentes em sinalizar que o sistema de justiça brasileiro encarcera desproporcionalmente homens e adolescentes negros. Temos vindo a público com inúmeros e inquestionáveis indicadores: a pobreza é negra, o desemprego é negro, a informalidade é negra, a mortalidade materna é negra, a ausência de saneamento básico é uma realidade cotidiana das famílias negras. A escola pública brasileira tem duvidosa qualidade de...

    Leia mais
    Oscar Vilhena Vieira, professor e cientista político (Foto: Jardiel Carvalho /Folhapress)

    Racismo: e eu com isso?

    Sempre me perguntei o que leva um ser humano a humilhar, torturar ou matar um outro ser humano. Não como uma conduta individual, fruto da maldade ou da insanidade de um indivíduo, mas como conduta sistêmica, que pode ocorrer de forma organizada, como num campo de concentração, ou de maneira difusa, como a violência praticada cotidianamente contra a população negra no Brasil. Como explicar a violência que levou à morte de João Alberto Silveira de Freitas, após ser covardemente espancado por seguranças privados da rede de supermercado Carrefour, em Porto Alegre, na véspera do Dia da Consciência Negra? Ou como compreender a morte do índio Galdino, incendiado por alguns jovens em Brasília, enquanto dormia numa parada de ônibus, após participar das comemorações do Dia do Índio, em abril de 1997? Difícil pensar que pessoas comuns, estejam elas na condição de agentes públicos ou privados, ou de meros passantes em busca...

    Leia mais
    (Foto: Alberto Henschel. Negra de Pernambuco, c. 1869. Recife, Pernambuco / Convênio Instituto Moreira Salles –Leibniz-Institut für Länderkunde)

    Vidas negras importam, vidas negras importadas e vidas negras expropriadas

    “Pela primeira vez na história humana, o nome Negro deixa de remeter unicamente para a condição atribuída aos genes de origem africana durante o primeiro capitalismo (predações de toda a espécie, desapossamento da autodeterminação e, sobretudo, das duas matrizes do possível, que são o futuro e o tempo). A este novo carácter descartável e solúvel, à sua institucionalização enquanto padrão de vida e à sua generalização ao mundo inteiro, chamamos o devir-negro do mundo.” (MBEMBE, 2014. p. 18) (grifo do autor) Assim o filósofo e cientista político Achille Mbembe (1957) introduz uma de suas principais obras, Crítica da Razão Negra (2013), em que tanto traça um panorama do Negro enquanto categoria ontológica² , trazida historicamente, primeiro em sentido negativo, do Negro como “aquele (ou ainda aquele) que vemos quando nada se vê, quando nada compreendemos e, sobretudo, quando nada queremos compreender” (p. 11), segundo em sentido positivo, em um dado...

    Leia mais
    A advogada Manoela Alves, que é especializada em compliance antidiscriminatório e primeira conselheira estadual negra da OAB de Pernambuco (Foto: Arquivo pessoal)

    Inclusão de advogados negros esbarra em racismo recreativo e acolhimento falho

    Apesar da movimentação de diferentes escritórios de advocacia no lançamento de programas de diversidade e contratação de estagiários ou jovens advogados negros, especialistas apontam que, para que esses ambientes sejam realmente inclusivos, ainda há muito a se percorrer. O advogado Wallace Corbo, professor da FGV Direito Rio, conta que, depois de dar palestras sobre racismo em escritórios ou mesmo em universidades, é comum receber relatos de profissionais e estagiários desses locais que contam que muito do que se propaga sobre tais programas acaba não se refletindo na prática. “As pessoas que estão nesses escritórios se voltam pra mim e muitas vezes não veem efetividade nisso ou que, na visão delas, a política é mais para o cliente ver, a política é mais para as pessoas de fora verem e não para efetivamente gerar uma diversidade interna”, afirmou. Para ele, essas críticas não significam que não haja políticas positivas,...

    Leia mais

    Últimas Postagens

    Artigos mais vistos (7dias)

    Twitter

    Welcome Back!

    Login to your account below

    Create New Account!

    Fill the forms bellow to register

    Retrieve your password

    Please enter your username or email address to reset your password.

    Add New Playlist