segunda-feira, julho 6, 2020

    Artigos e Reflexões

    (Foto: Marta Azevedo)

    Um freio à precarização

    Se escancarou mazelas socioeconômicas tão antigas quanto toleradas no Brasil, a pandemia da Covid-19 tem igualmente precipitado reações à série de abusos. É dessa lavra a articulação que, diante da escalada de homicídios decorrentes de operações policiais no Rio de Janeiro, arrancou do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), a liminar proibindo intervenções enquanto durar a calamidade na saúde. Também emergiu com vigor o enfrentamento ao racismo pela cobrança de ações objetivas de construção de equidade. Da mobilização virtual de estudantes brotou o adiamento do Enem. Esta semana, foi a vez de motofretistas e entregadores se insurgirem contra as más condições de trabalho e remuneração a que são submetidos por empresas de aplicativos. Inédita, a paralisação alcançou as principais capitais do país (São Paulo à frente) e, se teve apoio de organizações sindicais e políticas, não foi delas monopólio. Os números sobre a categoria variam. O Centro de...

    Leia mais
    Imagem retirada do site SOS_Corpo

    Antirracismo no Brasil: uma tarefa inadiável às pessoas brancas

    “O colonialismo é uma ferida que nunca foi tratada. Uma ferida que dói sempre, por vezes infecta, e outra vezes sangra”. Grada Kilomba   Estamos vendo acontecer neste mês de junho de 2020 uma revolta popular contra o racismo, num primeiro olhar, desencadeada a partir da ação do movimento Black Lives Matter, nos Estados Unidos, e que tem irradiado grandes manifestações de pessoas que têm se levantado para a luta racial ao redor do mundo. A morte de George Floyd foi o estopim para as mobilizações de massa em quase todos os estados daquele país, numa ação articulada e liderada por mulheres negras. No Brasil, movimentos sociais e organizações populares voltaram às ruas, em manifestações puxadas especialmente pelas torcidas antifascistas dos principais clubes de futebol, em defesa da democracia e contra os atos antidemocráticos, reanimando as forças da resistência para continuar a luta no enfrentamento ao bolsonarismo e contra o fascismo que molda...

    Leia mais
    Morena Mariah (Foto: VALDA NOGUEIRA/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL)

    O verso em branco da História contada sobre as pessoas negras

    Quando recebi o convite para publicar em Celina, fiquei em choque. Primeiro porque não sou jornalista e nunca me imaginei escrevendo para um jornal. Segundo porque sou leitora da editoria e não imaginava que este fosse um espaço possível para minha escrita habitar. Nesse primeiro momento, não sabia como me apresentar. Quando abri o documento em branco para contar quem eu sou, não fazia a menor ideia do que ia dizer, mas agora sei. Quero que você aí do outro lado saiba de mim através da minha relação com a escrita. Um dos meus primeiros brinquedos foi um livro de banho para bebês. Daqueles feitos de borracha. Meus pais não completaram o ensino médio, não tinham o hábito de ler muito mas minha mãe sempre me encheu de referências de leitura. Nunca se negou a me presentear com livros e gibis, nenhum livro era caro para ela. Tive coletâneas de...

    Leia mais
    Marcos Rezende (Reprodução/Facebook)

    Nós e os outros! Decotelli e as contradições de quem o defende

    Assusta-me ver tantos textos de elogios e ações de generosidade a Decotelli, o ministro da Educação de Bolsonaro que já não e mais ministro da Educação. Assusta-me observar que parece bastar ter pele preta. E mesmo que tais pessoas pretas não acreditem no existência do privilégio branco – e, além disso, sistematicamente desconstruam o debate de raça, do racismo, da branquitide e dos privilégios dessa branquitude – soa que isso ainda é pouco e seguem recebendo apoio de alguns. Pois tais negros seguem a receber textos e mais textos de solidariedade de membros da comunidade negra nas redes sociais. E eis então que as contradições pululam tal qual raios de sol que adentram as frestas de pessoas que gostam de likes e de seguidores e que, por vezes, parecem não refletir para além da notícia diária ou por amor às jabuticabas – frutinhas pretas por fora e brancas por dentro....

    Leia mais
    Obra "Raízes do Céu" dos artistas paulistanos do Estúdio Bijari - (Divulgação;/Imagem retirada do site Brasil de Fato)

    Tudo agora é escombro

    Deram o novo nome a pandemia / De covid-19 / Mas foi em 18 / Que elegeram o 17 Nos sons do berro da dor Território de guerra declarada Farelos humanos Indecisão de amor Solidão da morte marcada Cedê los hermanos? Há morte antes do tiro Da casa Do cemitério Do coveiro Do caixão Do novo coronavírus Tudo é uma prisão Do hospital ao hospício Assombro do estágio Do novo coronavírus Colapsada democracia Assolapada emoção Deram o novo nome a pandemia De covid-19 Mas foi em 18 Que elegeram o 17 A porta do inferno foi aberta Vírus humano da destruição Estado de Direito? Exceção! Tudo agora é prisão Ela não caiu não. Faveladx Pretx Sapatão Gay Macumbeirx PCD Maconheirx Puta TTT Há morte antes do tiro Do antigo coronavírus Vem cá me dá a mão! Assustada Violada Estuprada Maltratada Com hematoma Ela não caiu não A rota crítica Conceitua...

    Leia mais
    Silvio de Almeida (DIVULGAÇÃO/CHRISTIAN PARENTE)

    Sílvio Almeida: Estado racista e crise do capitalismo

    Há dois fatores sistematicamente negligenciados pelas analistas da atual crise econômica. O primeiro é o caráter estrutural e sistêmico da crise. Em geral, são destacados como motivos determinantes da crise os erros e ou excessos cometidos pelos agentes de mercado ou pelos governantes da vez. O caminho intelectual dessa explicação é o individualismo, o que reduz a crise a um problema moral e/ou jurídico. Desse modo, a avaliação da crise e suas graves conseqüências sociais – fome, desemprego, violência, encarceramento, mortes – convertem-se em libelos pela reforma dos sistemas jurídicos, pela imposição de mecanismos contra a corrupção ou ainda, por campanhas pela conscientização acerca dos males provocados pela “ganância” ou pela sede de lucro. Enfim, tanto causas como efeitos recaem apenas sobre os sujeitos e nunca são questionadas as estruturas sociais que permitem a repetição dos comportamentos e das relações que desencadeiam as crises. O segundo fator esquecido pelos estudiosos...

    Leia mais
    Jamiel Law/NyTimes

    Racismo estrutural no Brasil

    No Brasil, desde o dia 25 de maio do corrente ano, nunca havíamos assistido tanto as grandes emissoras de televisão se reportarem com tanta frequência ao racismo, quanto temos presenciando desde então.  O que será que as emissoras de televisão querem dizer aos telespectadores/as com tantas reportagens sobre o racismo? Não existe racismo no Brasil? O racismo no Brasil estava silenciado? O debate sobre o racismo está pautado na sociedade brasileira? O racismo está na agenda da grande imprensa? A sociedade brasileira resolveu admitir a existência do racismo e enfrentá-lo, ou tudo não passa de um jogo de cena?  Em meio ao bombardeio das reportagens, à primeira vista, a impressão que o/a telespectador/a tem é a de que não existe racismo no Brasil e os primeiros casos surgiram recentemente. Para os/as desavisados/as, desinteressados/as e desinformados/as no assunto, racismo não é coisa de negros/as, é coisa de brasileiros/as; se trata de...

    Leia mais
    Iluareação: Ella Byworth for Metro.co.uk

    A “tia do cafezinho” e as invisibilidades diárias do povo negro

    De acordo com o jurista Silvio Almeida, autor da obra "O que é Racismo Estrutural"geralmente quando pensamos o que é racismo imaginamos uma violência direta praticada contra uma pessoa negra, impedir que alguém em decorrência da sua cor entre em algum lugar ou seja seguida no shopping. No entanto o racismo se constitui uma normalidade racionalizada produzindo ações conscientes e inconscientes. O racismo está na superestrutura como parte da engrenagem do sistema capitalista influenciando diretamente todas as relações humanas e reproduzimos a todo momento um conjunto de padrões que nem conscientizamos se tratar de racismo como o uso dos termos "denegrir", "lista negra", "mulata"… O racismo produz uma série de comportamentos com vistas a retirar a humanidade de pessoas negras, (de forma consciente ou não) ao trata-las de maneiras coisificadas, sem identidade, sem um nome, "a tia do café" "o negão da fila, "aquele negão da borracharia" "que cabelo assim...

    Leia mais
    (Foto: Reprodução/ Twitter)

    O que você vê quando se vê no espelho?

    asé, saudou-me o velho ifá assim que adentrei, descalço, na tenda da cafunagem. mestre cafuna colocou o samovar no fogareiro, inclinou-se e soprou as brasas rubras. em seguida, deitou-se em seu pontiagudo catre de pregos; magro como um faquir e leve como o vento. eu me estendi na maca de bambu ao seu lado e, em silêncio ficamos, até a água fervilhar. lá fora, o sol preparava-se para descansar, espreguiçando seus longos braços em raios multicoloridos que abraçavam as nuvens. um delicioso cheiro de terra molhada invadia os alvos e diáfanos tecidos da tenda, revelando que chovia não muito longe dali. ao fim, o velho ergueu-se e, de forma reverente, despejou o líquido fervilhante nas duas xícaras, preparando a infusão; ato contínuo, exalou um fragrante aroma de raízes, ervas, folhas e flores maceradas. sentamos diante um do outro e, em lótus, meditamos a sorver o líquido tórrido. mestre cafuna trajava,...

    Leia mais
    Bell Hooks/ Foto: retirado no Google imagens.

    “Amar a negritude”: a descolonização na luta antirracista

    Uma das coisas mais difíceis é você amar aquilo que você vê. Bell Hooks (2010) escreve, "a arte e a forma de amar começa na capacidade de nos conhecer e nos afirmar" (s/p). Olhar para o espelho e nos reconhecer como seres humanos incríveis é um processo que está sempre em construção. Olhar para si sem crítica e sem julgamentos é uma tarefa quase impossível em uma sociedade racista. Porém sendo "quase" significa que a capacidade de nos amar é tarefa alcançável. Amar esse corpo escuro; esses cabelos rebeldes; esse nariz largo; essa boca grande; amar a si do jeitinho que se sente mais confortável.  Repito a palavra “amar”, pois como bem aponta a autora, “o amor cura”. Não venho querendo explicar o que é o amor, cada um sabe e entende de forma diferente o significado dessa palavra, venho expressar um pouco de todo turbilhão que eu sinto/senti nesses...

    Leia mais
    Crédito: @_umramon/Instagram

    #VIDASNEGRASIMPORTAM: e a branquitude depois da hashtag?

    Em tempos em que antirracismo vira hashtag, observamos a necessidade de contribuir nas discussões sobre #VidasNegrasImportam a partir do desafio de desarticular a ligação direta entre racismo e negro, como se a vida negra se resumisse ao genocídio. O objetivo deste texto não é julgar os valores das estratégias e políticas negras nesse momento de pandemia, como algumas análises têm se debruçado. Nossa intenção é chamar a branquitude à responsabilidade no que tange ao racismo e à tecnologia, com destaque para a Internet. A colaboração entre pesquisadores do LAPIN (Laboratório de Políticas Públicas e Internet) e integrantes da Plataforma Conexão Malunga faz o exercício de deslocar a branquitude do centro de visibilidade para o centro da crítica por meio da análise do ativismo através de hashtags. Não é sobre culpa, mas sobre demandar o posicionamento crítico e ação contundente dos beneficiários do racismo antes da morte sistemática de pessoas...

    Leia mais
    blank

    Qual é o papel do branco na luta antirracista?

    Esta pergunta me tem sido feita com frequência nos últimos dias, fruto da mobilização antirracista internacional resultante dos protestos pelo cruel, injusto e inaceitável assassinato de George Floyd por policiais nos EUA. De alguma maneira, tenho tentado respondê-la há mais de 30 anos, através do meu trabalho acadêmico e do meu ativismo antirracista, como uma brasileira branca. No mundo ideal sem racismo, esta não seria nem mesmo uma questão, pois a aparência e o fenótipo não teriam importância nas trajetórias individuais. No mundo em que vivemos, longe ainda deste ideal, construído sobre as bases de desigualdades raciais, discriminação e racismo, que trazem sofrimento de várias formas a grande maioria dos brasileiros, é preciso que cada um de nós se pergunte cotidianamente sobre seu papel, seja na conservação ou, principalmente, na transformação destas estruturas e práticas discriminatórias.  A persistência do racismo estrutural na sociedade brasileira (que reproduz a riqueza majoritariamente branca...

    Leia mais
    Imagem retirada do site Não me KAHLO

    Anastácia não será a tutora de Dona Benta

    A Anastácia fez por conta própria a sua própria revolução. Ela não precisou ler os “Prolegômenos para uma ontologia do ser social”, do György Lukács; muito menos “Crítica do programa de Gotha”, do Karl Marx, para ter a consciência política de uma pessoa potencialmente revolucionária. Foi a sua própria condição existencial e ancestral que a fez despertar para a luta. Primeiro, ela começou pondo em prática o poema “Não vou mais lavar os pratos”, da poeta negra Cristiane Sobral. Começou, ali, nos quintais – cujas lavanderias eram exclusivamente seu lugar de visibilidade – suas primeiras revoltas. Anastácia enfrentou, em sua solitude, todas as Donas Bentas que insistiam em levar suas roupas sujas – meladas de “drama bergman” – para ela quarar. Até o dia em que ela disse “ você pra mim, é problema seu” – ela bradou, numa quarta de Xangô, que o eco foi em ritmo de carimbó...

    Leia mais
    Adobe

    Apenas UM: a tokenização no mercado de trabalho

    Por várias questões que me cercam e quem se sente como eu entenderá, inicialmente é necessário fazer uma observação: este texto passeia pela superficialidade. Ele nasce a partir do contexto que estamos vivendo e das reflexões que tenho feito nas últimas semanas. Portanto, não espere questões super acadêmicas e profundas. Me permita ser superficial para falar sobre um iceberg, afinal já sabemos o perigo que se esconde por baixo das águas. Asseguro que, mesmo sob essas condições, esta leitura pode ser um gatilho para observar, repensar e agir. Vamos juntos? Inclusão e diversidade no ambiente de trabalho não são temas que começaram a ser discutidos no ano de 2020. Sabemos que o pouco conquistado até o momento vem de lutas que começaram há décadas (e por qual motivo não falarmos séculos, considerando a luta da população negra desde que chegou nas Américas?). Aqui, sinalizo o meu lugar de fala: sou...

    Leia mais
    Thallita Flor foi uma das fundadoras do MAV – Movimento Afro Vegano (Imagem retirada do site Folha de São Paulo)

    O que é racismo ambiental

    Mais um fim de semana se passou no Brasil. Mais gente preta morreu. Seja de Covid-19 ou por violência urbana, para citar duas mazelas que matam duas vezes mais pretos do que brancos. Também, nas comunidades pobres, lugar que o livre mercado designou para viverem descendentes de escravos, gente preta se reuniu para beber a sua cerveja, comer o seu churrasco, linguicinha esturricada na brasa. Gente preta reunida para comer e beber veneno. Algo que nos mata tanto quanto a Covid e a violência policial. Produtos hiper-industrializados e hiper-embutidos são baratos. São os únicos que estão ao alcance do bolso da maioria dos brasileiros. E, assim, vão todos morrendo. Simplesmente porque interessa. Dá dinheiro. Como as queimadas na amazônia. A diferença: Queima de gente preta pelo estômago. Racismo ambiental. Thallita Flor, uma das fundadoras do MAV – Movimento Afro Vegano, explica, em artigo para o Quadro-negro, o que é seu impacto em...

    Leia mais
    Getty Images

    O racismo não existe

    O racismo está no olhar, quando o negro (a) está em lugares onde as pessoas que ali frequentam, acham que aquele lugar não é para negros. Está na risada e nos olhares trocados entre as pessoas quando um negro (a) passa, está nos comentários. Está no estigma histórico que a sociedade impõe àquele que é preto. O racismo está nas violências diárias que o negro tem que enfrentar e não sucumbir, e muitas vezes fingir que não entendeu. Está presente, quando uma pessoa fala: Você não é negra (o) ou preta (o), você é tão bonita (o), como se isso fosse um elogio, mas meu caro não é elogio. O racismo mata, tira o nosso ar, tira nossas oportunidades, deixa-nos sem saber como agir. Está presente, quando se naturaliza comportamentos racistas, quando se diz: Ah! Eu não vejo cor. Você tem que ver a cor, pois só assim, você verá...

    Leia mais
    (Foto: Reprodução/ Twitter)

    Estátua e tabu

    no brasil, há quem defenda que as estátuas de genocidas, escravizadores e invasores de terras alheias permaneçam de pé, mesmo que elas estejam a ser arrancadas mundo afora. um tabu injustificável. me parece que estão a mitificar quem deveria ser demonizado, confundindo uma estátua com um totem; tem sua razão de ser. explico. o título dessa crônica faz uma referência ao livro seminal de freud, de 1913 (totem e tabu), mas deixo claro que os etnólogos frazer, malinowiski, boas ou mesmo o durkheim, fizeram um estudo bem mais interessante sobre a questão totêmica do que o notável fumador de charutos de viena. digo isso porque me lembro de ter lido um artigo de ricardo latcham, onde ele mostra que freud vacilou um pouco na sua interpretação sobre os totens. e concordo em parte com o etnólogo chileno. o fato é que a antropologia cultural nos descreve que um totem, elemento...

    Leia mais
    Adobe

    As mulheres e a choupana

    Para que você entenda a história, peço para que deixe o máximo que possas fora da roda. Se possível traga a alma da criança curiosa, daquela que não se preocupa com a lógica. Senta-se, fique de cócoras, deite-se no chão, fique à vontade. Já viste um pau de fita? A música é mais ou menos assim. Cada uma recebe os primeiros raios do sol do jeito que lhe cabe; Uma pegam a trouxa de roupa e vai a fonte; Outras esquentam a água para o café e a preparam o de comer aos seus; Algumas só a água barrenta tem para cozinhar os últimos grãos de feijão Outras se dirigem para a condução, precisam esquentar a panela dos outros Outras não chegarão a tempo de pegar seus filhos acordados seja do sono da noite ou da morte E já se preparam para um novo labor, dia aqui outro acolá Cada...

    Leia mais
    Manifestação a favor da democracia e contra o racismo na Avenida Paulista no domingo, 14 (Foto: Taba Benedicto/Estadão)

    Racismo é um impedimento ao desenvolvimento econômico brasileiro

    Durante muito tempo a “branquitude” – o privilégio que a sociedade colonial e europeia adquiriu e conservou no Brasil – reinou como se fosse verdade e realidade “natural”: inquestionável e, por isso, invisível. Foi assim que nos acostumamos a achar “normal” não encontrar negros e negras nos bancos das nossas melhores escolas, nas redações dos jornais, nos ambientes corporativos, na direção de instituições e até mesmo nas áreas de lazer dos bairros considerados mais nobres. Também defendemos uma suposta “meritocracia” sem atentarmos para os cortes de classe e raça que esse conceito traz; como falar em “mérito”, de uma forma geral, quando o ponto de largada é profundamente desigual? Nos habituamos, ainda, a chamar de “universal”, e sem pejas, uma história que é só europeia, e a uma arte que é eminentemente masculina e ocidental. Se a “nossa” arte e a “nossa” história carecem de adjetivação, já as demais precisam...

    Leia mais
    (Foto: Imagem retirada do site Alma Preta)

    Negritude, sororidade e afro-religiosidade

    Analiso aqui dois livros recém-lançados, ambos de escritoras negras: Filha do Fogo, de 2020 e Yõnu, 2019, de Elizandra Souza e Raquel Almeida, respectivamente. Ambos publicados por selos editoriais independentes e periféricos criados pelas próprias autoras. As duas são poetas e vivem a inédita experiência de publicar um livro dedicado exclusivamente à prosa, no caso ao conto. As autoras são da mesma geração; nasceram nos anos 1980 e são de família nordestina. Raquel é de Pirituba, Zona Oeste e Elizandra é do Grajaú, Zona Sul de São Paulo. Ambas se iniciaram no candomblé recentemente e seus livros são carregados da espiritualidade que emana das religiões de matriz africana. Raquel e Elizandra engajaram-se no movimento cultural periférico antes da consolidação das redes sociais, fenômeno que explodiu na segunda década deste século. São anteriores, portanto, ao feminismo negro contemporâneo que é protagonizado pela geração tombamento e que discute questões como apropriação cultural,...

    Leia mais

    Últimas Postagens

    blank

    Artigos mais vistos (7dias)

    Instagram

    Twitter

    Facebook

    Welcome Back!

    Login to your account below

    Create New Account!

    Fill the forms bellow to register

    Retrieve your password

    Please enter your username or email address to reset your password.

    Add New Playlist