quinta-feira, novembro 26, 2020

    Artigos e Reflexões

    Sala de aula vazia Imagem: Getty Images

    Ciência e negritude no Brasil

    Um dos grandes objetivos das ciências modernas e contemporâneas — alicerçadas no que significaram as revoluções de ideias que culminaram em mudanças de paradigmas na Física e na Astronomia do século XVII — é construir cosmologias, realidades, representações de mundo. No entanto, embora negado, as ciências como construção humana não são neutras, puras, ingênuas, ateóricas e ahistóricas, desconectadas da ação (cosmo)política. Essas cosmologias científicas estão imbricadas na organização de sistemas globais do pensamento ocidental — colonialismo, capitalismo e patriarcado — no âmbito do que se caracteriza como Modernidade, que, em última instância, está atrelada à razão branca, à máxima eurocêntrica do “penso, logo existo”, em que o racismo tem sido o amálgama e o operador fundamental. Nesse sentido e na relação dialética com a construção histórica das ciências, a negritude, termo cunhado por Aimé Césaire em 1939, tem sido desconsiderada, inferiorizada, invisibilizada, silenciada, exterminada das ciências, e os corpos negros, destituídos de pensamento, do lugar de protagonismo...

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    Adobe

    Assuma a sua passibilidade!

    Você pode ter o cabelo um pouco encrespado, mas a cor da sua pele coloca você num lugar privilegiado.  Nega Fya (Fabiana Lima)¹ Já decidi. Eu sou branca. Quero também o poder de fazer escolhas e, a partir de hoje, amplio em minha vida o sentido de passibilidade e vou torná-lo sinônimo de universalidade. Sim! A partir de hoje sou um sujeito universal e não admito mais ser racializada. Pisarei nesse chão social, sem aceitar classificações alheias, pois o importante é a minha opinião. Quando criança, por muitas vezes, senti medo de ser rechaçada pela cor da minha pele e sei que muitas pessoas negras se identificam com o meu temor. Eu pensava mais ou menos assim “Tomara que não falem mal do meu cabelo!”, “Será que hoje recebo um elogio da professora?” ou “E aquele personagem estranho do desenho, por favor, que ninguém diga que pareço com ele!”. Assim...

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    @MAUROYANGE/Nappy

    Poema NEGRO

    NEGRO Sou negro Sou forte! Sou Bravo Guerreiro. Meu jeito ligeiro, Ativo e viril Fez de mim Um homem serviçal no Brasil. Maltratado, acorrentado… De tudo já sofri. Fui tirado de minha pátria E só a ti eu servi. Meu povo! Ai que saudade De banto quase morri…. Sou negro Sou forte Zumbi dos Palmares Sob todos os olhares Traçou meu destino; E como um bravo menino A liberdade eu segui. No quilombo, pra onde fugia Era a Terra de alforria. Sonhei com esta alegria E só ali te senti! Sou negro Fui Forte Lutei até a morte! E hoje com muita sorte Sou de valor…. tenho porte! Igualo-me a qualquer raça. Pois para tudo tenho garra, força e determinação! Por isso eu posso gritar: Sou negro Sou forte Um Bravo de coração. Samara C. Alcantara de Andrade ** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL...

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    Victor Tongdee/Adobe

    Escrito em Nego

    Quando buscaram os Negros na África, trazendo-os como bichos amontoados em uma nau, ignorando suas paixões, estórias e a própria raiz ancestral, Foi escrito em negro e nos negros: sina trágica! No momento em que chegavam ao Cais do Valongo, Mortificados em corpo e alma pelos dissabores do trajeto; Travessia oceânica que pelo medo, pela ira e pela fome fazia-se mais longa, Escrito em pele negra foi: Objetos! No momento em que chegavam às senzalas com seus cabelos “Sarárá,” pele negra, dentes brancos, falando em dialetos nagô, suaíli ou banto, o povo da casa grande se perdia em olhares; ainda que ninguém se atrevesse nada a falar; Era ali escrito em negras pele, talvez por medo ou ignorância: Espanto. Na ração regrada e seca que aos negros era ofertada, Na água barrenta e lameada que não lhes provia da sede a saciedade, No preparar e não comer os quitutes da...

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    Foto: Getty Images

    Racismo mata: o caso do Carrefour e outros tantos Brasil adentro

    20 de Novembro é Dia da Consciência Negra. Conquista arrancada pelo Movimento Negro para assinalar a persistência do racismo que estrutura e dá forma ao Brasil, a data segue sendo uma construção renovada pelas forças vivas da negritude e homenageia nosso líder quilombola, revolucionário, Zumbi dos Palmares. 20 de novembro de 2020. O Brasil é despertado com uma cena absolutamente bestial. Com apenas uns cinco minutos, no estacionamento de uma unidade da rede de supermercados Carrefour, em Porto Alegre, agentes de segurança pública e privada atacam um homem negro numa sessão de espancamento até a morte. Simples assim. Com naturalidade, a cena bárbara foi gravada e depois ganhou o mundo pelas redes sociais. O homem assassinado sob impassível câmara de celular e estupefação quiçá explicativa da inércia coletiva tinha a cor dos anônimos negros e pardos, condição determinante para ser encarcerado ou preferencialmente morto. Sequer gera custo público. O homem...

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    Oscar Vilhena Vieira, professor e cientista político (Foto: Jardiel Carvalho /Folhapress)

    Racismo: e eu com isso?

    Sempre me perguntei o que leva um ser humano a humilhar, torturar ou matar um outro ser humano. Não como uma conduta individual, fruto da maldade ou da insanidade de um indivíduo, mas como conduta sistêmica, que pode ocorrer de forma organizada, como num campo de concentração, ou de maneira difusa, como a violência praticada cotidianamente contra a população negra no Brasil. Como explicar a violência que levou à morte de João Alberto Silveira de Freitas, após ser covardemente espancado por seguranças privados da rede de supermercado Carrefour, em Porto Alegre, na véspera do Dia da Consciência Negra? Ou como compreender a morte do índio Galdino, incendiado por alguns jovens em Brasília, enquanto dormia numa parada de ônibus, após participar das comemorações do Dia do Índio, em abril de 1997? Difícil pensar que pessoas comuns, estejam elas na condição de agentes públicos ou privados, ou de meros passantes em busca...

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    (Foto: Alberto Henschel. Negra de Pernambuco, c. 1869. Recife, Pernambuco / Convênio Instituto Moreira Salles –Leibniz-Institut für Länderkunde)

    Vidas negras importam, vidas negras importadas e vidas negras expropriadas

    “Pela primeira vez na história humana, o nome Negro deixa de remeter unicamente para a condição atribuída aos genes de origem africana durante o primeiro capitalismo (predações de toda a espécie, desapossamento da autodeterminação e, sobretudo, das duas matrizes do possível, que são o futuro e o tempo). A este novo carácter descartável e solúvel, à sua institucionalização enquanto padrão de vida e à sua generalização ao mundo inteiro, chamamos o devir-negro do mundo.” (MBEMBE, 2014. p. 18) (grifo do autor) Assim o filósofo e cientista político Achille Mbembe (1957) introduz uma de suas principais obras, Crítica da Razão Negra (2013), em que tanto traça um panorama do Negro enquanto categoria ontológica² , trazida historicamente, primeiro em sentido negativo, do Negro como “aquele (ou ainda aquele) que vemos quando nada se vê, quando nada compreendemos e, sobretudo, quando nada queremos compreender” (p. 11), segundo em sentido positivo, em um dado...

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    Foto montagem: Pedro Lima

    “Ô dó!”: sobre o sentimento de pena da branquitude diante da nossa dor

    Dissimular uma aparente simetria na sociedade, ignorando desvantagens estruturais e desigualdades que, de tão profundas, saltam aos olhos é um arranjo bastante comum para a permanência do status quo em uma sociedade supremacista branca.  Embora uma parte da branquitude repudie veementemente o racismo – leia-se injúria racial e atos de ofensa – a própria ideia de superioridade racial, o “gene” defeituoso no organismo do ser social branco, é pouquíssimo confrontada.  Nossas dores não geram necessariamente empatia na branquitude, afinal nunca fomos suficientemente humanos na construção do seu olhar sobre os nossos corpos e nossa existência. No entanto, uma análise desta relação prescinde uma compreensão do próprio conceito de branquitude e de como o sistema de dominação racial sustenta a  auto-imagem das pessoas brancas, sobretudo, das classes privilegiadas.  Para fins didáticos, faremos uma analogia da sociedade brasileira com a forma de um iceberg, considerando que o mito da democracia racial seria...

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    Arte: Romulo Arruda

    Dia da Consciência Negra e luta antirracista

    “O racismo não é um ato ou um conjunto de atos e tampouco se resume a um fenômeno restrito às práticas institucionais; é, sobretudo, um processo histórico e político em que as condições de subalternidade ou de privilégio de sujeitos racializados é estruturalmente reproduzida²”. Impera no Brasil uma normalidade na forma subalternizada como o negro ocupa lugar na sociedade. Assim, ver “pessoas de cor” em estratos sociais inferiores é percebido como algo dentro da ordem das coisas, seja pedindo esmola na rua, limpando espaços públicos e privados ou residindo em lugares sem o mínimo de infraestrutura e dignidade humana. Isto se deve a uma ideologia arraigada pelos séculos de escravidão que o país viveu a maior parte de sua História. Características de uma sociedade escravocrata são muito mais comuns em nosso cotidiano do que se supõe, elas se manifestam e se reproduzem no discurso dominante, na mídia, nos espaços de...

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    A nossa única opção é mudar o mundo e não faremos isso sozinhas ou mal acompanhadas - Marcello Casal Jr. / Fotos Públicas

    No dia da consciência negra, precisamos falar sobre eleições municipais

    Nós, mulheres negras, ainda somos minoria na política. Este quadro reflete a desigualdade e o racismo que nos coloca em uma maioria de pessoas sem acesso a direitos. No Rio de Janeiro, elegemos duas mulheres negras de esquerda, Tainá de Paula (PT), a mais votada neste campo político, e Thais Ferreira (Psol). Homens brancos seguem confirmando e protegendo os seus privilégios também no processo eleitoral. Em âmbito nacional, o perfil médio do eleito é homem, branco, casado, com ensino médio completo e média de idade de 44 anos, segundo levantamento do portal G1 com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Dentre os mais de 58 mil eleitos para as Câmaras municipais, 84% são homens e 16% mulheres. Um resultado vergonhoso em termos de paridade que deveria preocupar seriamente os partidos políticos comprometidos com a democracia para além da retórica. Esses dados não informam outros padrões que sabemos que existem, como...

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    Arte: Catarina Bessell

    Por que a ciência precisa de diversidade?

    Se a diversidade étnico-racial vem ganhando espaço na agenda de muitos setores da sociedade –nos negócios, na representação política, nas artes, no jornalismo–, nas ciências em geral ela ainda é tímida. Essa lacuna é marcante principalmente em relação ao desafio de reduzir a sub-representação no universo de professores universitários, no financiamento de pesquisas científicas e entre os destinatários das bolsistas de pesquisas. As pessoas negras (pretos e pardos) representam 56% da população brasileira, mas foi somente em 2019 que pela primeira vez os estudantes negros passaram a ser maioria nas universidades públicas. Segundo o censo da educação superior, porém, apenas 16% do universo de docentes se declarou negro. Essas disparidades estampam as consequências do racismo e de uma sociedade historicamente desigual. Tais anomalias têm origem no passado, e temos falhado em corrigi-las no presente. Em pleno século XXI é inadmissível fechar os olhos para a ausência de pessoas negras nos diversos...

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     Instagram/@teresacristinaoficial/Reprodução

    Instagram e a liberdade de expressão na rede: o caso @teresacristinaoficial

    Durante a pandemia do COVID-19 o Instagram virou uma janela para o mundo. Por meio da transmissão de vídeos em tempo real, as lives, aproximou celebridades, marcas, intelectuais dos seus públicos. Os brasileiros foram produtores ativos de conteúdo nesta plataforma - na qual são a terceira maior audiência. Na frenética agenda de lives disponíveis, os shows diários da cantora Teresa Cristina ganharam destaque. A artista fez uma curadoria de conteúdo e reuniu um público crescente. Após seis meses ininterruptos de apresentações, Teresa sofreu ataques de hackers e teve que interromper o diálogo com os seus fãs. A negligência do Instagram diante das invasões motiva uma reflexão sobre o princípio da neutralidade da rede e sobre a liberdade de expressão. Teresa é carioca, negra, moradora da Vila da Penha e uma enciclopédia da música brasileira. Cantando à capela, a sambista “aglomerou” digitalmente convidados como Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano, Zeca Pagodinho,...

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    Adobe

    Resistência e Memória: Dia Nacional da Consciência Negra

    O “Dia Nacional da Consciência Negra” 20 de novembro, foi instituído em homenagem a Zumbi dos Palmares, preto escravizado, que liderou a resistência no Quilombo dos Palmares na Serra da Barriga-AL, assassinado 1695. Lutou até a morte contra a opressão dos escravocratas e as mãos sujas de sangue de carne preta em nome do poderio econômico, da soberba e do racismo estrutural! A Serra da Barriga, hoje, Parque Memorial Quilombo dos Palmares, espaço de memória coletiva, dolorosas e sensíveis. O Dia, infelizmente, ainda não é festivo, não há muito o que comemorar, os confetes e aplausos para as migalhas gotejadas em nome da igualdade, no país da necropolítica e do mito da democracia racial. Não será mais um “feriado” paradoxal, para celebrações e cortejar autoridades religiosas ou bajular figurões políticos caricatos com status de estadistas, não passando de figuras patéticas, negacionistas e racistas. A histórica e árdua trajetória de um...

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    Edson Cardoso, professor e jornalista | Foto: Sergio Silva/Ponte Jornalismo

    O Real – Dois Extremos

    Em meio à grande violência policial contra negros e pobres, o PT-BA apostou numa major da PM como candidata à prefeitura de Salvador. A menos de dez dias da eleição, um crítico de cinema, João Paulo Barreto, divulgou o artigo “Força assassina”, no Caderno2 do jornal “A Tarde” (edição de 6/11/2020, p. B7). A população de Salvador é testemunha cotidiana dessa força (fúria) assassina e inúmeros episódios poderiam aqui ilustrá-la. A coluna de Barreto trata do documentário “Sem descanso”, dirigido por Bernard Attal, que está sendo exibido em duas salas de Salvador. Segundo ainda a coluna de Barreto, Attal é francês e vive no Brasil desde 2005. Não vi ainda o documentário, não me atrevo a tanto em meio a uma pandemia. Mas a resenha de Barreto chamou a minha atenção e gostaria de poder ver o documentário, assim que as condições permitirem. A violência registrada por Attal, facilmente visualizada,...

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    O cacique Raoni, ao centro, entre líderes indígenas de 47 povos, que estiveram reunidos por quatro dias no Mato Grosso para relançar a "aliança dos povos da floresta". (Foto: RICARDO MORAES / REUTERS (REUTERS))

    O olhar dos povos indígenas atentos a contínua propaganda enganosa da Europa ao mundo: O Amanhã

    Ailton Krenak é um segundo sol vivo que ilumina a cultura indígena, e que ainda resiste contra a racionalidade do ocidente (Compreendendo a força da consciência coletiva produzida pelo poder da linguística, neste artigo opto pela força da consciência descolonizada, portanto, a ausência da letra maiúscula neste substantivo próprio não reconhece o poder simbólico da arma cultural dominante) em matar, roubar e destruir. Krenak nasceu em 1953, na área verde do vale do rio Doce, mas a vida dos seres vivos e da vegetação do local vem sendo mortos pelas mãos do homem branKKKo (Branco com três K refere-se a Klu Klux Klan, organização da supremacia branca. Assata Shakur, ex membra do Partido Pantera Negra, apresentou AmeriKKKa com três k. A partir daí estendemos para outras palavras). Ativista dos direitos dos povos originários, luta pela existência do planeta Terra, ainda que os branKKKos não queiram imaginar o fim do capitalismo,...

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    A escritora brasileira Carolina Maria de Jesus durante noite de autógrafos do lançamento de seu livro "Quarto de Despejo", em uma livraria na rua Marconi, em São Paulo (SP). (São Paulo (SP), 09.09.1960. (Foto: Acervo UH/Folhapress)

    Aviso da doutora Carolina Maria de Jesus

    Carolina Maria de Jesus (1914-1977) dizia que o Brasil deveria ser governado por alguém que já passou fome. Quando essa mulher negra, escritora, catadora, favelada e - em breve - doutora (honoris causa, em homenagem da Universidade Federal do Rio de Janeiro) articula a ideia acima, os temas da representação, da desigualdade racial e de classe, do acesso a direitos fundamentais, se apresentam de modo retumbante. O Brasil de hoje é o fruto de um processo de violência e exploração. E o fruto gerou sementes. As práticas de espoliação da terra, de abuso sobre os corpos, de violência, da limitação no acesso aos bens públicos podem ser vislumbradas como a tônica do desenvolvimento das nossas instituições. E sabemos que este debate se sustenta no Brasil e no mundo por meio de estruturas coloniais e capitalistas. E assim, em sua arguta afirmação, a doutora Carolina Maria de Jesus insere mais uma...

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    (FOTO: MÁRIO VASCONCELLOS/CMRJ)

    O mandato interrompido e o legado de Marielle Franco

    Hoje, 14 de novembro, véspera das eleições municipais em todo o Brasil, é impossível deixar de lembrar que se completam 32 meses do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. Já se passam 976 dias depois de um crime brutal, contra uma das mais notáveis vereadoras da história do Brasil, e ainda não sabemos quem mandou matar Marielle e por quê. Amanhã, as 51 cadeiras disponíveis na Câmara Municipal do Rio de Janeiro estarão em disputa. Uma delas foi ocupada brilhantemente por Marielle, até que sua trajetória foi cruelmente interrompida. Há quatro anos era eleita como uma das vereadoras mais votadas da cidade do Rio de Janeiro, mas não conseguiu terminar o seu mandato. São 1.758 candidatos na cidade do Rio —as mulheres correspondem a menos de um terço do total de candidaturas, e olhando para o recorte de mulheres negras esse número é ainda menor. Na internet, é possível...

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    Bianca Santana (Foto: Natália Sena)

    Consciência negra e a urgência por terra

    Com três crianças em um apartamento, o isolamento social de 2020 tornou prioridade o desejo antigo de estar mais perto da terra. Em julho visitamos a zona rural de uma cidadezinha no sul de Minas e nos apaixonamos. Neste novembro, começamos a experimentar cumprir nossa rotina de trabalho remota metade aqui, metade em São Paulo. As reuniões, lives e escrita diante da tela parecem menos cansativas do gramado, ao som das galinhas e da infinidade de pássaros. Dormir na escuridão completa, com os ruídos da natureza e sem tantos sons de motor, tem sido um alento aos corpos exaustos Privilégio que poderia ser direito. Uma surpresa da roça foi a reconexão com meu pai, que morreu há 24 anos. Não costumava lembrar dele como o homem que amava cavalos e só vestiu sapatos para ir à capital aos 17 anos de idade. Ele e os quatro irmãos mais novos nasceram...

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    Pedro Lima (arquivo pessoal)

    Se é negro, é negão, mas se é branco é brancão? Sobre a brutalização do homem negro

    Este aumentativo para se referir aos homens negros sempre me incomodou muito, sobretudo, quanto passei a estar atenta ao racismo e às suas sutis formas de manifestação. Mas tudo começou a fazer mais sentido após os meus estudos de doutorado sobre a construção dos corpos pela ideologia racista. Eu fui socializada com homens negros na minha família e na periferia de Belo Horizonte e inúmeros deles eram chamados de “Negão”, enquanto homens brancos, no máximo, de “Carlão”, “Betão” etc.. O corpo do homem negro foi construído pela ideologia racista como um corpo a ser temido, corpo onde habita a violência e a fúria. Tudo no homem negro foi aumentado e exagerado: sua força física, sua brutalidade, tamanho, bem como seu órgão genital. A construção da hipersexualidade dos homens negros foi um elemento inventado pela supremacia branca para justificar o controle sobre esses corpos, dando origem ao mito do “violador” por...

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    Jaira Harrington (Foto: Eli Burakian ’00)

    2020 foi pesado: as eleições nos Estados Unidos da América e o Futuro*

    *Tradução: Jaqueline Lima Santos Finalmente, confirmou-se Joseph R. Biden Jr. e Kamala Davi Harris como os próximos presidente e vice-presidente dos Estados Unidos da América. Harris, a vice- presidente eleita, será a primeira mulher de ascendência africana e indiana a ocupar o cargo. Sua representação é de importância simbólica inegável para as mulheres negras em todo o mundo. Para muitos, esta eleição histórica é uma renovação promissora no poder da democracia. Considerando tantos desafios que enfrentamos juntos como uma comunidade global, é compreensível o desejo e a necessidade de comemorar este momento. Embora muitos possam aplaudir, em pleno 2020 as famílias e comunidades negras em toda a diáspora africana ainda estão sofrendo. Nos Estados Unidos, houve uma perda substancial de vidas em uma pandemia global que impacta desproporcionalmente a já vulnerável saúde da população negra. De acordo com o Center for Disease Control¹ , os negros nos EUA têm 2,6 vezes...

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