“O futuro é ancestral!” Este princípio, que faz parte do repertório filosófico de diversas tradições culturais mundo afora, foi sintetizado como frase de efeito na voz do intelectual ativista indígena Ailton Krenak anos atrás, sendo depois registrado por escrito e publicado em livro. Há nisso uma série de sentidos que nos ajudam a compreender tanto a importância dos arquivos quanto as disputas atuais sobre os seus significados e alcance.
Tal fundamento está em fina sintonia com o tema proposto pelo Conselho Internacional de Arquivos (ICA) para a Semana Internacional de Arquivos deste ano: “Arquivos para a Justiça: direitos, memória e futuros”, realizada entre 8 e 12 de junho de 2026 – seja em virtude dos grupos sociais que o mobilizam, do tensionamento epistemológico que ele sustenta ou ainda dos meios pelos quais um patrimônio documental é consolidado.
Nesse horizonte, a superação da imagem dos arquivos como depósitos estáticos de papéis antigos, dedicados aos feitos das elites e de difícil acesso a amplos setores da sociedade está no centro do debate. Interessa evidenciar o dinamismo social e a dimensão política dos acervos documentais, bem como das instituições e pessoas mobilizadas por eles.
Mais do que um artefato cultural, os documentos arquivísticos são peças-chave para tomadas de decisão bem fundamentadas no âmbito das políticas sociais de desenvolvimento humano. Arquivos públicos, privados e comunitários são potencialmente estratégicos às agendas de reparação histórica, responsabilização do Estado sobre violações de direitos humanos e fortalecimento de experiências democráticas. Trata-se de uma pauta até mesmo legitimada por organismos internacionais, a exemplo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), e que demanda um reposicionamento das diferentes iniciativas e seus sujeitos.
Arquivos comunitários: vozes insurgentes e agentes da cidadania
O universo dos arquivos, contudo, apresenta certas resistências a essa ampliação de visibilidade. Há, nisso, uma contradição apenas aparente. Ao passo que campos como a Museologia, a Biblioteconomia e a Comunicação já se apresentam mais familiarizados com perspectivas da museologia social, comunicação e bibliotecas comunitárias, persiste entre grupos hegemônicos no campo dos Arquivos uma oposição – ora disfarçada, ora explícita – à incorporação, com equidade, de arquivos comunitários e demandas populares dirigidas às políticas de arquivo e gestão da memória existentes.
Aqui temos uma defesa de espaço e poder. O desconhecimento que a maioria dos brasileiros têm a respeito dos arquivos é inversamente proporcional ao impacto que esses têm em nossas vidas. Todos os dias somos atravessados por uma matriz de memória que sustenta o funcionamento de nossa sociedade. Os arquivos figuram, assim, como guardiões de um patrimônio plural que não necessariamente tem sido manejado para o benefício de toda a população.
Ocorre que a concentração de poder faz todo sentido entre quem se beneficia das desigualdades. Democratizar os arquivos não seria agradável a esses pequenos grupos.
Nesse lastro, os arquivos comunitários representam uma dissidência desse modelo. Invariavelmente, têm nascido do protagonismo de grupos sociais em luta por direitos e pela superação de desigualdades. São expressões de coletividades negras, indígenas, LGBTQIAPN+, mulheres, periféricas, segmentos de trabalhadores do campo e cidade etc. das diversas regiões do país. Além da defesa da autodeterminação, essas iniciativas expressam um desejo por mudanças nas práticas da gestão de documentos em instituições públicas.
Ou seja, vocalizam um desejo de serem vistos no centro da memória nacional. No rastro do testemunhado em museus, bibliotecas e meios de comunicação, portanto, os arquivos de base comunitária têm ao longo das últimas décadas disputado o próprio conceito hegemônico de arquivo.
A agenda política e epistemológica em torno dos arquivos comunitários foi central nas discussões e propostas aprovadas na 2ª Conferência Nacional de Arquivos, ocorrida em Brasília entre os dias 26 e 28 de maio de 2026. A conferência reuniu agentes do poder público e sociedade civil para debater as políticas de arquivo no país, numa perspectiva de interiorização das ações arquivísticas e descentralização das iniciativas de gestão, preservação e difusão da memória, sobretudo àquelas voltadas e protagonizadas por segmentos sociais historicamente definidos como minoritários.
Reconhecer as especificidades desses arquivos e dos agentes e comunidades que os mobilizam opera para assegurar as formas sociais e culturais de concepção e organização de seus acervos arquivísticos. Também amplia as possibilidades de atuação política desses espaços e sujeitos.
Logo, falar de arquivos comunitários é reiterar perspectivas plurais, territorializadas e insurgentes para a promoção da cidadania e a ampliação do direito à memória, à verdade, à reparação histórica e à justiça social. Seu papel no fortalecimento da democracia e participação cidadã, tendo em vista a diversidade étnico-racial, regional, de gênero, sexualidade, geração etc., é outro ponto central nesse debate, sobretudo num país em que a exclusão e a desigualdade ainda são estruturais.
Dia dos Arquivos, construção contínua
O Conselho Internacional de Arquivos foi criado em 9 de junho de 1948, com o amparo da UNESCO. Em 2007, durante a Assembleia Geral do ICA, em Quebec, Canadá, deliberou-se pela instituição do Dia Internacional dos Arquivos, tendo como referência a mesma data. A partir daí, iniciou-se uma mobilização anual em torno da efeméride, a fim de promover o reconhecimento e valorização dos arquivos e dos profissionais de arquivos em diferentes partes do mundo.
A repercussão motivou a ampliação do período do evento. Em 2019, foi promovida pela primeira vez a Semana Internacional de Arquivos. Antes disso, o Brasil já contava com a Semana Nacional de Arquivos (SNA) desde 2017, realizada sob a coordenação do Arquivo Nacional, que manteve a prática de adotar temas específicos à realidade local, mas em diálogo com o tema adotado internacionalmente.
Nos últimos anos, observam-se a ampliação da participação de iniciativas em quase todos os estados da federação e o engajamento dos arquivos comunitários, iniciativas populares que, por diversas razões, operam para além da dicotomia firmada entre arquivos públicos e privados.
Em 2026, o tema adotado pelo ICA foi seguido e desdobrado pela SNA, cujo mote é “Arquivos, democracia e justiça social”. A mobilização nacional busca sensibilizar a opinião pública, entre gestores públicos e a sociedade civil, acerca da importância do patrimônio documental, em sentido ampliado; das vantagens da gestão de documentos para a eficiência das instituições do Estado; da necessidade das políticas de preservação e ampliação do acesso aos arquivos; e da atualização da imagem das instituições arquivísticas, destacando seu papel como indutoras da cidadania.
Assim, os arquivos estão a serviço da sociedade brasileira para resguardar e fazer valer os direitos conquistados. Sua apropriação pelos diversos grupos possibilita construir novos entendimentos sobre a realidade local, entre passado e presente – e nas projeções de futuro -, de modo a identificar e desnaturalizar as violações de direitos e combater as injustiças sociais.