Abordando o racismo como uma questão central na agenda global para o futuro

Autor(a): Katia Mello
Editora: Geledés – Centro de Documentação e Memória Institucional
Data: 2026

Este documento dá continuidade à série de publicações iniciada com Brasil e Durban – 20 anos depois, que, embora não seja o primeiro volume, inspirou uma coleção de documentos publicados pelo Centro de Documentação e Memória Institucional do Geledés – Instituto da Mulher Negra.

O Brasil e Durban – 20 anos depois foi lançado em 2021 e resultou de um esforço para refletir sobre os avanços e desafios 20 anos após a III Conferência Mundial contra o Racismo, realizada em Durban, África do Sul, em 2001. Este volume inaugural revisitou a histórica participação da sociedade civil brasileira no processo de construção de uma agenda política antirracista e antissexista no cenário internacional. Ele se tornou uma importante ferramenta de memória e inspiração, traçando os caminhos do ativismo negro e feminino no contexto global.

O presente documento, Abordando o Racismo Como Uma Questão Central na Agenda Global para o Futuro, é o quarto volume da coleção e resulta de um evento crucial realizado por Geledés em 20 de setembro de 2024, na Roosevelt House, em Nova York, durante a Cúpula do Futuro. Este encontro internacional destacou a urgência de colocar o racismo no centro das discussões globais sobre justiça social, desenvolvimento sustentável e direitos humanos.

As questões levantadas pelos painelistas não podem ser ignoradas: o racismo estrutural é uma das mais profundas barreiras para o progresso humano, e sua erradicação é essencial para a construção de um futuro verdadeiramente igualitário. As intervenções dos palestrantes, que incluíram representantes de governos, organizações internacionais e ativistas, ilustraram claramente que o enfrentamento do racismo não é apenas uma questão de justiça social, mas uma condição indispensável para a sobrevivência da democracia global. A combinação das lutas contra o racismo, a desigualdade de gênero e a pobreza foi repetidamente destacada como uma estratégia indispensável para quebrar os ciclos de opressão que afetam as populações afrodescendentes. Em suas palavras, a transformação das estruturas que sustentam o racismo é não apenas urgente, mas inadiável.

A reflexão dos palestrantes e a riqueza do debate sobre o racismo ambiental, a desigualdade estrutural e as políticas de reparação histórica ressaltam a necessidade de uma ação coordenada, global e multifacetada. O papel da população afrodescendente, especialmente das mulheres e meninas negras, como agentes de mudança e contribuintes essenciais para o desenvolvimento das sociedades, deve ser reconhecido em todas as esferas políticas, econômicas e sociais. Não podemos continuar a falar sobre desenvolvimento e justiça sem integrar essas questões nas políticas públicas globais.

O racismo não é apenas um fenômeno local, mas uma epidemia transnacional que atravessa fronteiras e afeta vidas em todos os cantos do planeta. Com base no que foi discutido durante o evento, este volume aborda a urgência de se adotar uma abordagem radicalmente antirracista na agenda global. Não é mais suficiente tratar o racismo como um tema secundário ou periférico. Precisamos colocá-lo no centro das discussões sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, incluindo a proposta do ODS 18, que visa especificamente a erradicação do racismo e a promoção da igualdade racial.

A criação de políticas públicas que reconheçam o impacto histórico do colonialismo, da escravidão e do tráfico de pessoas negras não é apenas uma necessidade ética, mas um imperativo para a construção de um mundo mais justo e equitativo. Assim como no volume anterior, este quarto volume reforça a necessidade de uma ação global e integrada. O racismo ambiental, a crise climática e a pobreza não podem ser resolvidos sem abordar as suas raízes profundas no sistema global de discriminação.

Para alcançar a verdadeira justiça climática, é fundamental que as vozes dos afrodescendentes sejam ouvidas nas negociações internacionais e que suas soluções para os desafios ambientais sejam implementadas. O racismo e a crise climática não podem ser separados; enfrentá-los exige uma nova visão de mundo que leve em consideração as perspectivas e soluções das comunidades que mais sofrem com essas crises.

Este volume, assim como os anteriores, se posiciona como uma ferramenta de resistência, proposta e ação. Ele é um chamado para todos os atores globais, governos e movimentos sociais para que assumam, sem mais hesitação, a responsabilidade de desmantelar o sistema de racismo global. A luta pela dignidade, igualdade e justiça dos afrodescendentes é uma luta de todos. Se não reconhecermos essa urgência, o futuro será uma repetição do passado, onde os afrodescendentes continuam a ser deixados para trás.

Sueli Carneiro
Coordenadora Executiva
Centro de Documentação e Memória Institucional
Geledés – Instituto da Mulher Negra

Maio de 2025

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