Brancos, eu disse não!

Uma pergunta precisa ser respondida: Por que os brancos ficam tão revoltados quando ouvem “não”?

Por Rodrigo Teles Medrado Do Dente di Leão

Caso 1

Pessoa Negra: Não me ensine sobre racismo!

Pessoa Branca: Por que não posso opinar? Essa separação só reforça o racismo! Você é racista, sabia?

Caso 2

Pessoa Negra: Esse grupo é um espaço para debater assuntos ligados à comunidade afro-brasileira, como racismo, e por motivos óbvios brancos não serão aceitos.

Pessoa branca: Por que não? Está me impedindo de participar de um grupo por ser branca(o)? Isso é segregação, sabia? Isso só reforça o racismo!

Caso 3

Pessoa Negra: Dependendo da forma que você usar certos elementos da cultura afro-brasileira pode sim ser considerando apropriação cultural.

Pessoa Branca: Como assim? Ridículo! Agora não posso mais ouvir samba nem hip hop? Você nem sabe do que esta falando, vai estudar um pouco antes de falar besteira.

cotas

Bom, eu poderia dar mais exemplos, mas esses são suficientes.

Vivemos numa sociedade onde só lemos e ouvimos o que queremos. É muito difícil você se colocar numa situação onde sua vontade não seja atendida de forma instantânea, principalmente se você tiver dinheiro e for branco.

Quem tem mais de 25 anos talvez vá se lembrar de um tempo onde era preciso ouvir uma sequência de músicas das quais não gostávamos para poder apreciar aquela tão aguardada faixa, muito comum nas rádios FM. Quem nunca comprou um CD por causa de uma música? Hoje é um pouco diferente.

Com a opinião, principalmente na internet, a coisa é parecida. E se o assunto for racismo, machismo e homofobia, escorrem muitos megabytes de sangue na tela.

É muito difícil para uma pessoa que viveu cercada por privilégio adquiridos com crimes históricos, onde seus semelhantes foram tratados como heróis, desbravadores, conquistadores, ouvir que sobre certos assuntos a sua opinião não é relevante.

Dói muito, para um homem branco, ouvir que sobre esse ou aquele tema ele não tem propriedade para opinar. Logo ele, pensador, exemplo de cultura e inteligência. Logo ele, parâmetro da pessoa de bem.

O Brasileiro se vê como um paladino da justiça e ética cercado de pessoas imundas e corruptas. O racista é o outro, não ele. O machista é o outro, não ele.

Quando o assunto é racismo, a coisa tende a piorar, onde muitas vezes a vítima é colocada como opressora por não deixar o opressor opinar sobre sua dor.

Segundo pesquisa de 2014, 92% creem que há racismo no Brasil, mas apenas 1,3% se considera racista.

Essas pessoas ficam muito bravas quando encontram uma mulher negra ou um homem negro que olhe bem no fundo dos seus olhos e diga: Não! Aqui não!

Isso fere um orgulho construído ao longo dos últimos 500 anos, hidratado com o sangue de milhões de pessoas. Não é um orgulho qualquer, é um orgulho antigo.

Pessoa branca: Eu não concordo!

Bom, o fato de você concordar ou não é irrelevante, porque uma verdade será sempre uma verdade, independente de quantas pessoas acreditam nela. Isso precisa ficar claro.

Pessoa branca: Não é preciso ser negro para sofrer racismo! Eu sou branco e sei como é ser discriminado!

Leia Também  Está na moda ser preto, desde que você não seja preto

Bom, se você já foi parado pela polícia apenas por ser branco, se você já perdeu alguma vaga de emprego apenas por ser branco, se você recebe um salário menor apenas por ser branco, se já aconteceu alguma dessas coisas, então vou dizer que você sabe como é, apesar de mesmo assim não ter sofrido racismo.

Caso você não se encaixe em nenhuma das opções, sobre esse assunto você não tem nenhuma opinião importante.

Não vejo nenhum problema em ter negros e brancos lutando contra o racismo, desde que o branco não queira dar lição, explicar com o quê uma pessoa negra deve se ofender. A falta de empatia, o discurso desonesto e o caráter duvidoso de certos simpatizantes colocam essa aliança em descrença, uma vez que não é preciso muito esforço para ouvir discursos sobre a fantasia do racismo reverso.

Recentemente escrevi um texto intitulado “Ser preto esta na moda, desde que você não seja preto”, e a muitas pessoas (uma grande parte curiosamente branca) se apegou ao discurso do turbante, quando essa palavra só aparece uma vez no texto. Por que isso aconteceu? Aconteceu porque é desconfortável encarar a palavra racismo, prefiro falar sobre turbantes.

O texto não era sobre turbantes.

Falar de racismo é desconfortável, para o negro e para o branco consciente, não é uma coisa divertida. Divertido é jogar futebol, assistir filme, não falar de racismo. Então, se quiser realmente ajudar a desconstruir o racismo, você precisa saber ouvir, apenas ouvir.

Aqui, sobre esse tema, o branco não tem voz.

Pessoa branca: Não concordo, eu tenho…

Branco, eu disse não!

 

 

 

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