Brasilidade nasceu da mistura de quatro continentes

03/03/26
  • Fusão de crenças, valores e artes vindas de todos os cantos do mundo
  • Uma coisa difícil de definir, mas que se reconhece no sentir

Negritude, indigeneidade, japonesidade e branquitude. África, povos originários, Japão e Europa. Encontro, choque e ferida. E, ainda assim, vida. De tudo isso fez-se um país que nasceu da mistura. Um país marcado por hierarquias rígidas, mas marcado também por uma imaginação social que aprendeu a criar sentido mesmo nos lugares mais difíceis.

Da mistura… Emergiu um povo de beleza singular. E, com ele, um laboratório permanente da confluência humana, em que ritmos se cruzam, temperos se combinam, sotaques se encontram e crenças se sobrepõem.

Mulher de cabelos longos e escuros segura microfone próximo à boca enquanto canta. Ao fundo, parede com janelas de vidro e letreiro de neon azul escrito 'Samurai'. Iluminação baixa com foco na cantora.
Competição de karaokê no restaurante Samurai, no bairro da Liberdade, em São Paulo – Ronny Santos – 3.jun18/Folhapress

Da fusão de crenças, valores e artes vindas de todos os cantos do mundo… Dos tambores africanos aos rituais indígenas… Das influências europeias e das japonesas… Disso tudo e mais um pouco se fez a brasilidade.

Disso tudo surge um jeito de ser. De sentir. E de estar no mundo. Surge um povo que, mesmo carregando as dores de sua formação, aprendeu a vibrar com uma intensidade que desconcerta e encanta em igual medida.

Caminhe por várias ruas do país ao pôr do sol e ouvirá música a jorrar de lugares improvisados, verá crianças brincando, vira-latas caramelos, gente sentada na calçada, risadas atravessando a rua e testemunhará uma vitalidade artística que parece zombar das contradições circundantes.

Nas rodas de samba que explodem pelas cidades, a brasilidade dança. O pandeiro marca o tempo, o cavaquinho tece melodias e vozes se entrelaçam em uma mesma harmonia. Enquanto isso, de forma mais singela, o doce forró organiza o mundo em pares e giros, lembrando que a vida fica menos pesada quando o corpo encontra outro corpo. A sanfona puxa o fole, o zabumba dita o ritmo e o triângulo faz tilintar a alegria.

Na Bahia, o acarajé fritando no azeite de dendê carrega séculos de tradição africana. Em Minas Gerais, o tutu de feijão conta histórias de tropeiros. No Pará, o tacacá aquece e traz os sabores da floresta. E, em São Paulo, a cultura japonesa se entrelaçou à brasilidade de forma tão profunda que criou algo novo. Os imigrantes japoneses levaram suas tradições centenárias e, em vez de apenas preservá-las intactas, permitiram que elas dançassem com a alma brasileira.

Raimunda Borges Silva, que vende abará e acarajé no bairro da Pituba, em Salvador – Raul Spinassé – 3.dez.15/Folhapress

Cada canto deste país continental desenvolveu sua própria forma de transformar ingredientes de toda parte do planeta em sabores e formas de expressão. E em todas essas diferenças regionais pulsa a mesma essência. A essência do prazer de saborear e expressar a vida de uma forma bem brasileira. E talvez seja essa uma das maiores vocações da brasilidade para com o mundo. Pois tudo entra, mas nada sai igual.

Ela é uma experiência viva e um modo de dar contorno à vida. É um contato íntimo com o ser e uma permissão para sentir as emoções em sua intensidade, sem vergonha da alegria e sem medo da proximidade.

Ela vem de um país que se forjou a partir do choque de quatro continentes. Capaz de produzir ternura e brutalidade no mesmo quarteirão. Capaz de criar intimidade rápida e ao mesmo tempo conviver com desigualdades que deveriam envergonhar qualquer projeto de civilização.

Porém, no final, se algum gringo perguntar “o que é brasilidade?”, acredito que a melhor resposta seja: vá ver, vá sentir e vá vivê-la. Porque brasilidade não se explica. Ela se experimenta.


O texto é uma homenagem à música “Nos Cafundó de Bodocó”, interpretada por Luiz Gonzaga.

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Michael França – Ciclista, vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico, economista pela USP e pesquisador do Insper. Foi visiting scholar nas universidades de Columbia e Stanford

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